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O VELHO ADONIRAM

Adoniram Barbosa ou o João Rubinato nasceu em 1910, na cidade de Valinhos, interior do de São Paulo e mudou-se para Santo André no ABC paulista em 1924, onde passou alguns anos trabalhando como operário e biscateiro antes de ir para o bairro do Bexiga que o revelou para o país e talvez para o mundo. Estaria com cem anos se vivo ainda estivesse. Ainda bem, pois já imaginaram a aporrinhação em cima do sambista? Entrevistas para a televisão, rádio, jornais, revistas e curiosos. O genial velhinho ficaria de saco-cheio e provavelmente todo esse assédio não lhe renderia nenhum trocado para aliviar o seu orçamento. Por isso ele desabafou certa vez quando lhe perguntaram como se sentia sendo tão homenageado: “Homenagem não paga as contas”. E por falar em homenagens, são várias que estão pipocando por aí para lembrar o maior sambista paulista, que com a sua irreverência, resolveu desmentir o Vinicius de Moraes que teria dito que São Paulo era o túmulo do samba. Com o samba Trem das Onze,...

A PRIMEIRA TELEVISÃO

A primeira televisão a gente nunca esquece, não é mesmo? É evidente que eu me refiro àquelas pessoas com mais de cinqüenta anos que viram o aparelhinho entrar pela primeira vez em casa. Meus pais resistiram muito em comprar uma TV por acharem que o rádio já estava ótimo. Além disso, os aparelhos da época ficavam mais nas oficinas de conserto do que na sala de visitas. Isso era visível quando o carro da Eletrônica Kodama parava em nossa rua para levar ou trazer aparelhos com problemas. O japonês era o melhor técnico da praça, pois consertava tão bem os aparelhos que ficavam funcionando até três meses, o que era um recorde. Naqueles tempos ter uma televisão significava ter mais um filho para sustentar. Uma senhora que morava em frente à nossa casa comprou a primeira TV da rua e como tínhamos uma intimidade maior com ela, eu e meu irmão mais novo íamos lá assistir o Zorro, A turma do Sete e até o Alô Doçura, com o John Herbert e a Eva Wilma. Programão! E foi por causa da telev...

UMA MENINA CHAMADA MARIA QUE ABALOU O QUARTEL

Foi no longínquo 1967 e Maria estava com pouco mais de dezesseis anos; não era bonita, nem feia, era pobre e morava, provavelmente, em algum dos muitos  cortiços de São Caetano do Sul, no ABC paulista. Sem muito que fazer,  circulava pelas imediações do Tiro de Guerra paquerando os jovens bonitos e sarados de classe média. Ninguém lhe  dava atenção, mas ela continuava insistindo em passearr por ali e, às vezes, ficava no portão observando os exercícios militares. Eram duas horas de atividades diárias, com um pequeno intervalo para um cafezinho e um cigarro, para quem fumava. Terminadas as instruções, todos saiam às pressas para o trabalho ou para estudar e nunca ninguém prestava atenção na pobre Maria. Mas Maria apareceu por lá numa quente e enluarada noite de sábado. Os rapazes estavam de plantão. Seriam doze longas horas de fastio. Cada Companhia tinha a sua escala e dez ou doze rapazes eram sorteados para a triste tarefa. Como eram da mesma Companhia, to...

A BENGALA

A BENGALA                 Francisco tinha uma bela bengala japonesa que herdou do seu avô. Era de cerejeira com cabo de prata. Com quase setenta anos de idade, ele circulava com ela orgulhoso pelos corredores da empresa. Não que precisasse da bengala para se locomover, mas por um pouco de esnobismo. Mas isso não significava que era um esnobe, apesar do sobrenome pomposo que revelava uma origem nada modesta. Ele apenas tinha saudades dos esnobismo dos velhos tempos do Rio de Janeiro quando seu avô paterno circulava por Copacabana usando elegantemente seu chapéu Panamá  e a bengala. Algumas vezes, contava ele, o avô o levava para saborear algumas guloseimas na Confeitaria Colombo. Era um acontecimento inesquecível, que gostava de relembrar sempre que me encontrava. Contava, também, que às vezes, o avô o deixava brincar com a bengala desde que não se afastasse muito do seu olhar, pois era muito ciumento co...

“O ROUBO DO CELULAR”

 Contou-me um velho camarada que acordou disposto no último sábado e resolveu fazer uma visita surpresa à uma velha amizade em Piedade, cidade ao sul da capital paulista. Convocou o filho como motorista, pois é uma viagem e tanto para os seus quase 70 anos. A cidade, para quem não conhece, é bastante pacata, um povo hospitaleiro e gentil. É a própria cidadezinha qualquer que o poeta Drummond imortalizou nos seus versos. Ninguém por lá tem muita pressa, sinal de que a febre do “time is Money” ainda não chegou com tudo por aqueles recantos. As coisas em Piedade tem um ritmo próprio nem muito apressado, nem muito devagar. Trombadinhas e assaltantes são coisas estranhas e quando acontece, rapidamente, o delegado descobre que não é de Piedade, mas de alguma outra cidade vizinha ou gente da capital. E foi pensando no bucolismo da velha Piedade, que meu amigo acompanhado do filho aportou no lugarejo, passando antes num restaurante para não chegar de barriga vazia na casa do amigo, qu...

O FRANGO-PARATI

“Quem for a Ilha do Cardoso, paraíso ecológico do litoral sul de São Paulo e não  saborear o parati frito da bodega do seu Malaquias, na enseada da Baleia, podes crer, não conheceu a ilha. O sabor do peixe é inconfundível e o jeitinho do proprietário em prepará-lo o torna uma das melhores iguarias da culinária caiçara”. Meu amigo Dedo, antigo freqüentador da ilha sempre cantou em prosa e verso as virtudes do parati frito do seu Malaca e na última vez que fui para lá resolvi tirar a prova. Só que é longe, muito longe de onde estávamos hospedados, se é que se pode dizer hospedados na ilha. Na Ilha do Cardoso a gente não se hospeda, a gente se ajeita num canto, se acomoda. Para ficar na ilha a pessoa não pode ser luxenta, enjoada, fresca... Tem estar pronto para o que der e vier. Como já disse  a bodega do seu Malaquias fica longe e bota longe nisso. São quase doze quilômetros caminhando pelas praias. Assim foram três horas de andanças, contemplando o mar, a natureza quase ...

O SABOR DA GALINHA - D’ANGOLA

Nunca mais saboreei galinha-d’angola depois que abandonei o hábito de passar as férias no interior, na casa de parentes. Na verdade nem me lembro mais do sabor dessa galinha.  Imagino  que é um pouco mais dura do que o frango comprado no mercado e tem um leve  sabor de caça (será?).  As galinhas-d’angola eram criadas nas fazendas, soltas e viviam em bandos; elas conseguem voar um pouco mais do que as galinhas comuns, empoleirando nas árvores próximas as casas. As galinhas d’angola vieram mesmo do continente africano, trazidas pelos portugueses durante a colonização e se espalharam pelo país de norte a sul e são também conhecidas por sakué ou guiné. Quando menino ia passar as férias na fazenda de um tio no interior de São Paulo e uma das coisas que a minha memória auditiva gravou para sempre foi o “to-fraco, to-fraco”.  Fazenda sem esse som para mim não é fazenda, pois não consegue despertar em mim as sensações de férias, de natureza, de aventura, de liberd...