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Extraterrestres

Revendo quase por acidente o filme ET em que um extraterrestre é apresentando como um pequeno monstrinho sensível e delicado, observa-se um grande contraste com as declarações de pessoas que se dizem abduzidas pelos seres de outros planetas. Umas duas mulheres que relataram os seus “casos” com alienígenas, revelaram que eram altos, loiros e com olhos azuis. Essas pessoas juram por todos os deuses que tiveram filhos destas relações e não ficam constrangidas em mostrá-los na televisão. A entrevistadora faz expressão séria ao formular as perguntas sobre como ocorreram as abduções. A cena me fez lembrar do livro de Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios em que o autor procura desmascarar, através de explicações fundamentadas na ciência, esses depoimentos sobre encontros com extraterrestres. Sagan não usou meias palavras para criticar esse modismo contemporâneo. Lembra o físico e astrônomo que não há registro histórico de contatos com seres extraterrenos nos séculos anteriores aos li...

UMA CANÇÃO PARA MAYSA

Com bastante atraso escrevo sobre a minissérie Maysa, exibida na televisão. Confesso que pouco ou nada me liguei na cantora durante sua vida. No auge de sua carreira eu ainda era muito jovem para entender as suas canções de fossa. Na fase final ou na sua decadência, estava ligado na nova geração de compositores e cantores da fase áurea da MPB, como Caetano, Chico, Edu, Milton Nascimento, Tom Jobim entre outros. Lembro-me de uma revista de fotonovelas que apareceu lá em casa trazida pelas minhas irmãs mais velhas que contava a história da musa. Era a história típica de um conto de fadas. Uma moça da classe média casando com o sobrenome ícone do capitalismo nacional. Tinha tudo para dar certo se não fosse a música e a sua personalidade independente e boêmia. Um casamento dentro dos padrões tradicionais de uma família burguesa não conseguiu suportar a presença de uma vida cercada de holofotes, fofocas e notícias nos jornais. Artista famoso não tem vida privada e ponto final. A sua morte...

O LOBISOMEM

Uma história assombrosa povoava minha imaginação de menino. Era sobre um português chamado Manoel Joaquim Quinquinello. Ele morava na fazenda de um tio, no interior de São Paulo com a mulher, dona Joaquina e seus filhos. A casa era uma tapera que ficava ao meio de um outeiro ao lado de um pequeno córrego que cortava a fazenda. Meus primos diziam que o seu Manoel virava lobisomem nas noites de lua cheia. Quando era visto na fazenda, estava sempre com um bode ao seu lado e um facão preso à cintura para cortar capim para alimentar seu fiel escudeiro. Lembro-me da primeira vez que vi o seu Manoel. Ele vinha com o seu bode ao lado, com enormes barbas brancas e esbravejando aos quatro ventos. Era uma figura sinistra, digna de assustar meninos, ainda mais com a lenda de que virava lobisomem. Meus primos mais velhos me assustaram mais ainda, avisando que ele iria me pegar. Meu coração disparou e não sabia se me agarrava aos primos ou saia em disparada. O Seu Manoel parou e perguntou: “Quem é...

ABILIO MACEDO, O CONTADOR DE CAUSOS

Um dos personagens que povoou a minha infância era um alagoano chamado Abílio Macedo. Era nosso vizinho, mas não muito próximo. Entretanto, quase que semanalmente, ele passava em casa para uma boa conversa com meu pai. Era naqueles tempos em que a televisão ainda não havia usurpado os serões da família brasileira. As visitas eram constantes e as conversas fluíam do cotidiano, como problemas de saúde, de trabalho, política e o melhor de tudo, relatos dos velhos tempos, onde a memória tem um papel fundamental. A memória ia construindo ou reconstruindo fatos, histórias, verdadeiras ou quase verdadeiras. Hoje sei que o narrador sempre acrescenta algo seu, suas impressões pessoais sobre o que conta. Lembro-me que às vezes, sentado no chão, fazendo de conta que brincava com um carrinho ou qualquer coisa, ficava atento àquelas histórias dos tempos antigos. Aí que entrava a memória do seu Abílio. Ela falava dos tempos do cangaceiro Lampião, personagem temível do nordeste brasileiro. Meu pai in...

ERASMÃO E O SEU FILHO PIRAHY

Escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore são os passos necessários para se tornar um homem de verdade, diz o velho aforismo. Poucos são aqueles que podem cumprir todas essas tarefas. Para quem mora em apartamento plantar uma árvore deve ser um desafio maior do que escrever um livro. Ser pai, salvo em casos de problemas de natureza biológica, parece ser o mais fácil de todos. Mesmo assim a adoção pode resolver o problema, pois o que importa é ter um filho, criá-lo, educá-lo, mesmo que tenha sido gerado por outro. Agora escrever um livro, não é coisa para qualquer um. É preciso ter inspiração e sobretudo muita transpiração, principalmente se o sujeito resolver criar uma obra de ficção, com personagens coerentes e verossímeis. Começo essa conversa fiada para falar do nosso velho amigo Luiz Carlos Erasmo da Silva. O Erasmo foi uma alcunha que recebeu nos tempos da Jovem Guarda pela sua semelhança com o músico Erasmo Carlos companheiro inseparável do Roberto Carlos. O apelido...

LÁZARO GARCIA, UM PADRINHO DOS VELHOS TEMPOS

Antigamente ter um padrinho era coisa séria, tanto para as crianças, como para os padrinhos. Os compadres eram escolhidos a dedo. Precisavam ser pessoas de confiança e que fossem verdadeiros amigos, pois pela tradição, na ausência dos pais, o padrinho teria a responsabilidade pela formação do afilhado. A relação de compadrio foi uma instituição bastante importante no Brasil, principalmente na zona rural, onde ainda hoje tem alguma relevância. Antonio Cândido em seu estudo sobre os caipiras paulistas, Os parceiros do Rio Bonito, lembra que ao afilhado cabe respeitar o padrinho de modo especial e pedir-lhe a bênção sempre que for encontrado como a um pai. Deve ainda comunicar-lhe o seu noivado, como que pedindo uma autorização paterna. Dessa forma o padrinho sempre exercia uma especial influência sobre os afilhados, e em muitos casos, se sobrepunha a dos próprios pais. Numa conversa que tive com um africano do Senegal, da tribo dos Pels, Mamour Elimani Ba, ele contou-me que é um costume ...

BARRA DO UNA

Não nasci em Barra do Una, sobretudo não morei em Barra do Uma. Ela é apenas um retrato na parede, mas como dói. Os versos do velho Drummond são como uma famosa esponja de aço, pois nos socorrem em todos os momentos, sejam felizes ou não. Já vai bem longe o tempo dos acampamentos nas deliciosas praias na foz do Rio Una, litoral norte de São Paulo. Era para lá que a nossa velha turma dos tempos de estudante ia passar os feriados prolongados. A viagem era programada com antecedência de pelo menos uns quinze dias e saiamos direto da escola em direção à praia. Eram noites intermináveis, pois chegávamos ao Guarujá por volta de 1h da madrugada e ficávamos esperando a balsa até o dia raiar. Depois pegávamos um caminho pelas praias de São Lourenço, estradinhas de terra com pinguelas sobre os rios. Hoje, com certeza, não teríamos coragem de atravessar de tão toscas e inseguras que eram. Mas tudo valia a pena naquela época e como as almas não eram pequenas, ninguém reclamava de nada e só de pens...