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O MENINO DE SUA MÃE


Um menino de apenas quatro anos brincava feliz em frente da casa dos seus avós numa comunidade pobre do Rio de Janeiro. De repente um tiro perdido atingiu o seu peito. Seu avô, quando ouviu os primeiros disparos correu para pegar a criança e levá-la para dentro de casa, mas era tarde demais. O sangue já escorria quente pelo seu corpinho indefeso e nada mais poderia ser feito. Levaram-no para o hospital, mas nada mais poderia ser feito.
Depois a parte mais difícil: avisar a mãe que talvez nunca perdoe o avô por não ter protegido o neto que estava sob seus cuidados. As mães sempre acreditam que ninguém pode cuidar dos filhos melhor do que elas. E com razão. Pode ser que ela nunca diga nada para o pai, mas pensará nisso pelo resto dos seus dias. “Por que eu não estava lá para que a bala tirasse a minha vida e não a dele?”, deve ter falado ou pensado. As tragédias humanas nunca são esquecidas. Elas vão e voltam com intensidades variadas, mas sempre com muita dor.
Pobre do avô! Que culpa o teria de morar num lugar tão violento, onde quadrilhas trocam tiros à luz do dia numa cidade violenta com balas perdidas vagando sem endereço. Ele não tinha um quintal onde o menino pudesse brincar em segurança e estavam todos à porta da casa, inocentes, como se essas coisas nunca poderiam acontecer. Às vezes saio para caminhar com meu neto de 6 anos e essas coisas passam pela minha cabeça. Mas onde moro é seguro. Será mesmo? Ninguém está seguro, em lugar algum. Viver no Brasil é muito perigos, talvez tanto quanto no Iraque ou Afeganistão, Bruxelas ou Paris.
Quando eu era criança, brincava com meus irmãos na rua, em frente da  nossa casa, mesmo tendo um quintal. Nunca meus pais imaginariam que um tiro vadio pudesse tirar a vida dos seus filhos pequenos. Os perigos eram outros. Um carro, caminhão ou um ônibus poderia atropelar as crianças que andavam soltas, iam à escola, ao armazém, ao açougue ou a casa de algum vizinho.  Jogávamos bola na rua, mas os carros eram poucos e as ruas não convidavam a grandes velocidades.
Mas o menino cujos olhos não mais verão o mundo que ainda estava tentando compreender com seus poucos anos de vida, partiu.  Ele terminou sua curta história neste planeta, na periferia de uma grande cidade da América do Sul, que já foi maravilhosa, que já foi linda e cantada em prosa e verso por poetas e cantores. A morte do menino, como sua vida não terá versos, como sua vida também nunca deve ter tido. Ninguém cantará sua pele morena, seu sorriso inocente e seus sonhos de menino. Que sonhos terá tido ele? Sonhava em ser piloto ou super herói? Nada... Ele entrará para a história como um simples número na estatística da violência das nossas metrópoles, apenas isso e os números não têm poesia, tampouco alma.

Adeus para nossas crianças que não chegam à vida adulta! Crianças que não conseguiram entender o mundo, seus conflitos, suas dores, sua violência. O menino de sua mãe jaz triste e abandonado num pequeno caixão branco, símbolo da pureza, da inocência e sobre ele a mãe derrama as últimas lágrimas diante do seu corpo. Quem não choraria diante de tal cena? Talvez a própria comunidade já não chore mais, pois a banalidade da morte prematura secou os olhos da maioria.  Restou à raiva da impotência e para aplacá-la alguns desvairados saíram destruindo tudo: ônibus, carros, estação, dos quais sentirão falta no dia seguinte.

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