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POEMAS PARA UMA CONTA DE MAIS Gosto de poesia, mas confesso que sou ignorante sobre o assunto. Gosto porque sinto que gosto, me emociono, me encanto, mas longe de mim teorizar sobre os escritos que vem do fundo da alma, que expressam às vezes o lado sombrio da existência.  Lembro-me do Rainer Maria Rilke em Cartas para um jovem poeta, presente de um velho amigo que me acreditava um poeta aprendiz. Confesso que depois de ler, fiquei tempos sem escrever, pois não sabia se o que escrevia era mesmo poesia. “Não faça poesia sobre acontecimentos, pois não é poesia...” Mas estou diante do livrinho de poesia da amiga Bete Cunha, Poemas para uma conta de mais, cujo nome sugere um poema cartesiano. Poema pode ser a soma de tudo e mais alguma coisa. O livro é bilíngue e algum leitor distraído pode pensar que se trata de uma autora nascida em algum lugar das Américas em que o castelhano se tornou dominante. Mas não, ela é daqui mesmo, nascida em São Caetano do Sul, de pai cearense e mã...
CUIDADO COM AS VÍRGULAS...             Morava em minha rua, quase em frente a minha casa, um velhinho italiano chamado Antônio. Era uma pessoa adorável. Baixinho e roliço, usava um chapéu de feltro, calças largas e surradas botinas. Era uma figura ímpar e muito querida da garotada do bairro. Quando ele passava pela rua corríamos ao seu encontro e pedíamos sua benção. Sua diversão era fazer charadas e contar histórias para a garotada. Seu Antônio Piffer era um assíduo frequentador de minha casa e diariamente ele passava por lá para um cafezinho e um dedo de prosa. Sentava-se à nossa varanda e já ia perguntando: “Gosta mais do papai ou da mamãe?” Nós sempre respondíamos: “Gostamos igual".   "É mentira, dizia ele, eu sei que vocês gostam mais de um do que do outro", dizia com seu sotaque italiano. Outras vezes fazia umas pegadinhas tirando as vírgulas das frases para mudar o sentido. Matar o rei non é pecado. Está certo...
ADÃO E EVA Era uma das primeiras histórias que se ouvia. Em casa tínhamos uma bíblia ilustrada e tão logo aprendíamos a ler, já queríamos saber mais detalhes sobree essa fantástica história.   Adão, criado do barro   com um sopro divino. Eva   ou a mãe de todos, foi criada com uma costela de Adão. Uma serpente teria induzido Eva a comer o fruto proibido, desobedecendo as ordens expressas do criador. Filho de mãe católica praticante e pai quase agnóstico, viví num ambiente sem muitas certezas com relação às crenças religiosas. Enquanto minha mãe obrigava os filhos a irem à missa toda semana, fazer o catecismo e a Primeira Comunhão, meu pai fazia ouvidos de mercador às queixas dela com relação à desobediência dos filhos no tocante à religião. As minhas irmãs seguiram os padrões da época,   mas eu e meus irmãos fizemos as obrigações religiosas aos trancos e barrancos. Fugíamos das aulas de catecismo para brincar na rua ou no próprio pátio da igreja. Me record...
DESCOBRIMENTO DO BRASIL Quando a professora Maria Lúcia, no segundo ano primário, deu sua aula de história do Brasil, fiquei impressionado. Ela contou em detalhes quando as caravelas portuguesas partiram do Porto em direção à costa africana. Mas algo estranho aconteceu. Uma forte calmaria fez com que as naus fossem desviadas para oeste, bem longe do contorno do continente africano que era o caminho em direção às Índias. Depois de dias e mais dias, o comandante da expedição Pedro Alvares Cabral começou a observar pedaços de madeira no mar. Depois pássaros e finalmente, terra a vista. Primeiro pensaram se tratar de uma ilha que deram o nome de Vera Cruz, depois perceberam que era uma grande extensão de terra e deram o nome de Terra de Santa Cruz. E sempre que ela falava no navegador lusitano, Pedro Alvares Cabral, todos olhavam para   um colega que se chamava Nelson Cabral, como se ele tivesse alguma relação com o descobrimento. Muito esperto ele falou orgulhoso: “Foi me...
QUEM NUNCA ENGOLIU UM SAPO? A expressão engolir um sapo significa simbolicamente que se trata de aceitar alguma coisa não digerível ou contra a vontade. Quem nunca engoliu um sapo no trabalho, na família, nas salas de aula ou nos grupos de relacionamento? Passamos a vida engolindo sapos e lagartos, mas que foram necessários para a sobrevivência ou para a manutenção da paz, mesmo que forçada. Na política isso é mais comum se engolir sapos do que fazer política no seu estrito senso. Resgatando um pouco da história, o velho Luiz Carlos Prestes, fundador do Partido Comunista no Brasil, teve que engolir um tremendo sapo ao concordar, por uma decisão partidária, a apoiar o Getúlio Vargas nas eleições de 1950. Justo o algoz que mandara para a câmara de gás a sua esposa grávida, Olga Benário.   Eu diria que não foi um sapo e mais apropriado seria dizer um porco espinho. Mas os políticos acabam esquecendo tudo. Quem acompanhou as eleições de 1979, há de se lembrar de que o Coll...
A TRISTE HISTÓRIA DE HAN ZICHENG Leio no jornal que um chinês de 85 anos escreveu em pedaços de papel que queria ser adotado por alguma família. Para isso colou-os no ponto de ônibus, no armazém e outros locais do bairro.    Han Zicheng não queria morrer sozinho, mas também não queria ir para um asilo. Ele não tinha mulher, filhos ou netos. Na China até pouco tempo era proibido ter mais de um filho. Isso passou a valer depois da chamada Revolução Cultural nos anos 1960. A medida foi tomada para reduzir a população do país que já estava com mais de um bilhão de habitantes. Como o governo sabia que não conseguiria fazer o país crescer para dar conta das necessidades de emprego e produção de alimentos, optou por reduzir na marra a quantidade de gente. Isso criou outro problema, pois para os chineses os filhos do sexo masculino são essenciais para cuidar dos pais na velhice. Quando os casais tinham uma filha, entravam em pânico, pois a cultura milenar lembrava que as fi...
QUE TAL ENTRAR EM UM LIVRO E VIVER A HISTÓRIA? Num sábado preguiçoso, vi o filme “Coração de tinta”, baseado no livro homônimo que conta a fantástica história de um leitor que tinha poderes mágicos, sendo capaz de fazer os personagens saírem dos livros e viverem entre os mortais ou os mortais entrarem nos livros ao ler em voz alta.   E foi assim que um malabarista saiu do livro e passou a viver perambulando pelas ruas com seu bichinho de estimação, lembrando sempre da mulher que ficou no livro e nunca mais encontrou. Ao mesmo tempo escapou do livro o perigoso bandido Capricórnio e seu bando que sequestrou a mulher do leitor. O pobre homem passa anos ao lado da filha procurando outro exemplar do livro para tentar localizar a mulher. Enquanto isso é perseguido pelo malabarista que quer que ele leia o livro para que possa retornar. Ele tem medo de ler o livro, pois não sabe o que pode acontecer. Que história maluca! Fui para a cama pensando na possibilidade de entrar na histó...