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O CAÇADOR DE ÁGUAS Meu pai, já maduro, descobriu-se um caçador de águas. Um alemão com quem trabalhava e que vivia metido em pesquisas sobre radestesia, o convenceu que ele tinha o dom para achar água.  Daí foi um passo para fazer a experiência e tentar descobrir pequenos lençóis freáticos com  alguns metros de profundidade. Combinaram para tirar a prova num fim de semana e lá foram eles procurar água em um sítio nos arredores de São Paulo. O alemão preparou uma forquilha de goiabeira, segurou-a com as duas mãos, mantendo a ponta para cima e começou a caminhar em várias direções, conforme contava meu pai. De repente ele parou como se sentisse uma estranha sensação e chamou meu pai para ver. A forquilha envergava para baixo, forçando o homem a segurá-la com energia, como se ela quisesse penetrar no solo. Ele deu a forquilha para o meu pai e ele também sentiu um enorme tranco, como se alguém a puxasse para baixo com grande energia. Aqui tem água, disse o alemão, e p...
A TERRA DO NUNCA E A PARTIDA DA DONA ÁUREA FERRARI DA SILVA Dona Áurea, mãe do amigo Edson Zeca da Silva, como a minha e a da  Dalva, também partiu para a Terra do Nunca. Há tempos ela se refugiu depois de um AVC. Não que estivesse impossibilitada, mas optou ficar como se o estivesse. Não recebia visitas e não saia de casa, recolhendo-se quando o sol se punha. Vivia como um compromisso, sem prazeres e sem alegrias. Seus contatos humanos praticamente se restringiam ao filho e a enfermeira.  Como diria o poeta Drummond: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação” no poema Meus ombros suportam o mundo.         Dona Áurea Ferrari da Silva era simpática, mesmo sendo uma mulher de poucos sorrisos, sempre séria, ensimesmada - pelo menos essa é a imagem que guardei dela - mas gostava de cantar, principalmente as músicas do Chico Alves, Herivelto Martins, Lupicínio entre outros.  Nas festas familiares seu filho dava o t...
UM CAFÉ COM ANTONIETA SECCO THENÓRIO Passávamos um fim de semana em Piedade na casa dos Thenórios. Fazia um frio que doía nos ossos. Como sou um madrugador acordei com os primeiros filetes de luz que entraram pela janela e senti uma vontade imensa de tomar um cafezinho bem quente. Logo levantei e fui para a cozinha, evitando fazer barulho para não acordar o pessoal.  Água na chaleira, pó no coador e fiquei esperando o fogo fazer o seu serviço. Enquanto isso fiquei olhando pela janela o gramado que parecia um tapete branco. Sugeria neve, mas não era. Ainda bem. Não sinto nem um pouco de inveja de quem vive onde cai neve. Neve é triste, monocromática e não tem graça nenhuma.  Mas eis que a água ferveu e comecei a passar o esperado café. Café gostoso, café com cheiro bom, cheiro de roça, cheiro de mato, cheiro de manhã se espalhou pela casa. Logo ouvi uns passos pelo corredor. Era a Dona Antonieta, mãe do nosso anfitrião, que se levantou com o cheirinho da bebida que con...
MANHATTAN REVISITADA A broca do dentista doía fundo, parecendo que fustigava a minha alma. Enquanto o dentista cutucava minhas caries, dava uma espiadela na televisão ligada. De repente, aparece um avião se aproximando das torres do World Trade Center. Vai bater, vai bater... O avião se choca contra uma das torres que começa a cair como um castelo de cartas. Segurei a mão do dentista para ver melhor o triste espetáculo. Não era ficção ou efeito especial de um filme. Era uma triste realidade. Um avião, seqüestrado por terroristas do Al Qaeda atingiu um dos principais símbolos do império norte-americano. Milhares de mortos. Eram pessoas que estavam ali para trabalhar, fazer negócios, reuniões e de repente encontraram uma morte inexplicável. Neste momento lembrei-me de um velho poema do Drummond, Elegia 1938, que termina com o verso: “Porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan”. Será que os extremistas do Al Qaeda leram o poema? Ou será que é um desejo inconsciente...
ITANINA LADEIA: BREVE RETRATO DE UMA MÃE QUE PARTIU Nascida em Buenópolis, MinasGerais, era ainda criança quando a família mudou-se para o Rio de Janeiro e depois para Araçatuba, São Paulo.  Gostava de cantar e declamar versos, principalmente religiosos. Era católica praticante, ia à missa toda semana, mas permitia-se algumas escapadelas aos centros espíritas, principalmente na casa da dona Nésia, uma simpática vizinha russa, amiga da família. Era uma grande contadora de histórias, muitas das quais são inesquecíveis. Seus avós, coronéis escravocratas falidos no século dezenove, deixaram apenas as histórias que ela contava para os filhos. Sentávamos todos em sua cama para ouvir os contos de fada e histórias da família.  A família passou por muitas dificuldades, pois seu pai, que apesar de culto e bem informado sobre tudo o que acontecia no mundo, não se adaptou a nenhuma profissão que exigia rotina, horário fixo e chefe. Foi professor primário, delegado, j...
 OS VELHOS TEMPOS DA JOVEM GUARDA Anos sessenta, quando a Jovem Guarda fervilhava na televisão, no rádio, nos cabelos quase compridos da garotada, nas botinhas com salto carrapeta, nas calças rancheiras justas de brim bege (pois o índigo blues só para quem tinha dinheiro para comprar nas lojas de contrabando ou viajava para o exterior), as camisas coloridas, pulseiras etc. O rock and roll estava no ar. Como os Beatles eram inacessíveis o jeito foi criar uma opção cabocla e o Roberto Carlos e sua turma ocuparam esse espaço entre os adolescentes. Quase todo adolescente chegou a sonhar em ser um ídolo da jovem guarda, cantar nos programas de televisão, gravar um disco e fazer sucesso com as meninas. Alguns tinham até talento e mandavam bem, cantando nas rodinhas ou em festas dos colégios. Juca, ou Antonio Carlos Junquetti era um desses garotões extrovertidos com cabelo na testa que fazia sucesso com as garotas imitando o Jerry Adriani.  Mas havia um cantor de verdade no ...
OS DIÁRIOS DO ALMIRANTE A história vista pelos diários de bordo. Relendo os Diários de Bordo do Capitão e depois Almirante Graham Eden Hamond* escritos nos longínquos anos de 1825 e 1838, revi umas passagens interessantes em que o oficial inglês escreve sobre o Brasil e seu povo.  Na primeira parte do diário (1825), Hamond ainda era capitão e foi responsável por trazer a comitiva encarregada do reconhecimento da independência do Brasil. A maior parte do diário se refere aos encontros protocolares e alguns aspectos técnicos de navegação, mas como era do seu estilo fazer comentários sarcásticos sobre pessoas e costumes, não resisti e anotei alguns deles, muitos não são politicamente corretos para um oficial estrangeiro em viagem de representação, mas que representavam a visão eurocêntrica e elitista de uma potência imperial européia. Era agosto de 1825 e ele avista uma carruagem puxada por quatro cavalos que era dirigida por nada menos que o nosso jovem e fogoso imperador,...