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OS DIÁRIOS DO ALMIRANTE A história vista pelos diários de bordo. Relendo os Diários de Bordo do Capitão e depois Almirante Graham Eden Hamond* escritos nos longínquos anos de 1825 e 1838, revi umas passagens interessantes em que o oficial inglês escreve sobre o Brasil e seu povo.  Na primeira parte do diário (1825), Hamond ainda era capitão e foi responsável por trazer a comitiva encarregada do reconhecimento da independência do Brasil. A maior parte do diário se refere aos encontros protocolares e alguns aspectos técnicos de navegação, mas como era do seu estilo fazer comentários sarcásticos sobre pessoas e costumes, não resisti e anotei alguns deles, muitos não são politicamente corretos para um oficial estrangeiro em viagem de representação, mas que representavam a visão eurocêntrica e elitista de uma potência imperial européia. Era agosto de 1825 e ele avista uma carruagem puxada por quatro cavalos que era dirigida por nada menos que o nosso jovem e fogoso imperador,...
VIDA DE BOIADEIRO Meu amigo Álvaro Pequeno, por contradição um grande sujeito, no tamanho e na generosidade, defendeu uma tese um tanto atípica nos meios acadêmicos sobre os peões de boiadeiro em sua trajetória desde os tempos heróicos dos tropeiros. Os atuais peões de boiadeiro usam roupas de grife americanas, com botas que chegam a custar até dois mil dólares. As festas que são realizadas em Barretos chegam a reunir mais público dos que os grandes clássicos de futebol. Os peões colocam suas vidas em jogo por alguns segundos de fama em cima de um boi selvagem. Quando conseguem vencer a disputa e sobrevivem no lombo do boi, podem ganhar uma pequena fortuna. Quando não, podem sobrar umas costelas, pernas  quebradas ou até uma paralisia.  Os pobres peões são parte do espetáculo, mas dormem embaixo dos caminhões enquanto aguardam sua vez de entrar na arena e quando são acidentados são abandonados pelos organizadores. Quando soube da sua pesquisa lhe ofereci u...
VIZINHOS Não conheço meus vizinhos. Não sei o que eles fazem, o que pensam, em quem votam ou do que não gostam. Alguns são silenciosos, outros são barulhentos, mas é somente isso que posso lembrar sobre eles. Quando era criança sabia a vida de todos os habitantes das redondezas. Meu bairro era uma pequena aldeia e todos estavam conectados. Hoje estamos todos conectados globalmente e perdemos o contato pessoal com as pessoas próximas. Pensando nisso, resolvi revisitar a mesma rua onde morei até os vinte e sete anos.  Era uma rua com pouco movimento e lá podíamos brincar de taco o dia inteiro sem o risco de passar um carro em velocidade. O taco era um tipo de basebol adaptado às circunstâncias e recursos disponíveis. Fui abrindo o livro da memória e resgatando os velhos tempos.  Naquela rua jogávamos também futebol com bolas de borracha, de couro ou feitas com meias. Trânsito só tinha mesmo nas ruas laterais, por onde transitavam os ônibus circulares. Algumas vezes os v...
O MARQUINHOS Marquinhos era “mariquinha”. Era assim que todos os garotos do bairro se referiam a ele. A molecada era cruel, mas ele nem dava bola para a galera. Com sete ou oito anos, passava batom na boca e usava os sapatos de salto de sua irmã mais velha. Muita gente da turma falava em “comer” o Marquinhos, mas era só conversa, principalmente, porque ele nem sabia direito o que era isso. E continuava com seu jeitinho efeminado, dengoso e sempre na dele. Pobre Marquinhos morava num cortiço com mais seis irmãos em apenas um quarto. O banheiro era dividido com outras famílias. Sua mãe dona Encarnacion, era uma espanhola magra e doente que trabalhava duro para sustentar a família. O marido de vez em quando aparecia para ver os filhos, mas ajudava pouco ou nada. O dono do cortiço quase sempre aparecia para cobrar os aluguéis atrasados. Parava o Chevrolet Bel Air e descia engravatado com o filho e um empregado. Era um acontecimento na vizinhança.  Era comer ou pagar o aluguel....
O GOSTINHO DO INTERIOR O gostinho das coisas do interior faz parte da vida daqueles que deixam a vida bucólica dos sítios e fazendas e vão para as cidades encontrar novas oportunidades de vida. Muitos trazem nas mudanças algumas latas de doces caseiros, de queijo meia cura, um pouco de café em grão e vai por ai. Além de tudo, carregam também a saudade dos amigos, dos bichos, dos passarinhos cantando de madrugada e outras lembranças que permanecem por toda a nossa viagem por este planeta. Quando se recebe a visita de alguém da terrinha, é inevitável que o visitante traga umas encomendas. Visitar alguém da cidade e ir de mãos vazias é um sacrilégio imperdoável. Conheci uma pessoa que deixava para comprar uma lembrancinha em algum lugar próximo da estação ou rodoviária. Numa dessas comprou um queijo meia cura que não era da cidade mineira de onde vinha, mas do interior de São Paulo. Pois é, desculpou-se dizendo que foi enganado lá mesmo. “São os tempos! Não se pode confiar em nin...

A MEIA NOITE EM PARIS E A MEIA NOITE NA PAULICEIA DESVAIRADO

Ao sair do cinema na Rua Augusta, depois de assistir o belo filme de Woody Allen, fiquei um pouco frustrado por não estar chovendo como na última cena do filme. A rua estava repleta de carros, com muito barulho, muita gente e em nada sugeria o clima de Paris nos anos 30, palco da trama desenvolvida pelo magistral cineasta. Mas resolvi caminhar um pouco para curtir o clima do filme enquanto aguardava uma carona. Cansado de esperar fui descendo a Augusta no sentido centro e aos poucos fui tomado por um clima diferente. Até hoje não sei se pirei ou se o mundo havia voltado no tempo. Estava em frente ao restaurante Gigetto, onde até hoje, muita gente famosa gosta de jantar depois das peças de teatro, shows ou mesmo para encerrar uma noite de trabalho. Lá encontrei há alguns anos atrás o humorista Ary Toledo, Chico Buarque, Marieta Severo e Elba Ramalho todos numa mesma noite. Logo que entrei vi sentado em uma mesa num canto o poeta e romancista Mario de Andrade, com sua calva avançada...

O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO

O SÃO CRISTÓVÃO E O ESTRELA F.C.  DE VILA MARLENE O que você acha do Conny? Antes que eu pudesse preparar a resposta, outro amigo entrou na conversa e afirmou categoricamente: - Ele é bom e não me perguntem o porquê, mas sei que é ele é bom, - Mas tem que ter algum motivo para ser bom, ora essa. - Ele é bom porque é torcedor do São Cristóvão. - Mas só porque torce para o São Cristóvão?  Esse não é um bom motivo para ser considerado um bom escritor. - Ele não está na Academia Brasileira de Letras? Então é bom e ainda mais que torce pelo São Cristóvão.  Aqui em São Paulo ele torce pelo Santos, mas no Rio de Janeiro é São Cristóvão e ponto final. Não sabe muito bem porque, mas torce, sofre e chora.   Bom ... saber ele sabe. Uma vez,  contou,  leu uma crônica do Conny em que ele relata que um entregador de pizza apareceu na porta da casa do escritor com a camisa do São Cristóvão e ele curioso perguntou se ele tor...