Pular para o conteúdo principal

Postagens

O GOSTINHO DO INTERIOR O gostinho das coisas do interior faz parte da vida daqueles que deixam a vida bucólica dos sítios e fazendas e vão para as cidades encontrar novas oportunidades de vida. Muitos trazem nas mudanças algumas latas de doces caseiros, de queijo meia cura, um pouco de café em grão e vai por ai. Além de tudo, carregam também a saudade dos amigos, dos bichos, dos passarinhos cantando de madrugada e outras lembranças que permanecem por toda a nossa viagem por este planeta. Quando se recebe a visita de alguém da terrinha, é inevitável que o visitante traga umas encomendas. Visitar alguém da cidade e ir de mãos vazias é um sacrilégio imperdoável. Conheci uma pessoa que deixava para comprar uma lembrancinha em algum lugar próximo da estação ou rodoviária. Numa dessas comprou um queijo meia cura que não era da cidade mineira de onde vinha, mas do interior de São Paulo. Pois é, desculpou-se dizendo que foi enganado lá mesmo. “São os tempos! Não se pode confiar em nin...

A MEIA NOITE EM PARIS E A MEIA NOITE NA PAULICEIA DESVAIRADO

Ao sair do cinema na Rua Augusta, depois de assistir o belo filme de Woody Allen, fiquei um pouco frustrado por não estar chovendo como na última cena do filme. A rua estava repleta de carros, com muito barulho, muita gente e em nada sugeria o clima de Paris nos anos 30, palco da trama desenvolvida pelo magistral cineasta. Mas resolvi caminhar um pouco para curtir o clima do filme enquanto aguardava uma carona. Cansado de esperar fui descendo a Augusta no sentido centro e aos poucos fui tomado por um clima diferente. Até hoje não sei se pirei ou se o mundo havia voltado no tempo. Estava em frente ao restaurante Gigetto, onde até hoje, muita gente famosa gosta de jantar depois das peças de teatro, shows ou mesmo para encerrar uma noite de trabalho. Lá encontrei há alguns anos atrás o humorista Ary Toledo, Chico Buarque, Marieta Severo e Elba Ramalho todos numa mesma noite. Logo que entrei vi sentado em uma mesa num canto o poeta e romancista Mario de Andrade, com sua calva avançada...

O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO

O SÃO CRISTÓVÃO E O ESTRELA F.C.  DE VILA MARLENE O que você acha do Conny? Antes que eu pudesse preparar a resposta, outro amigo entrou na conversa e afirmou categoricamente: - Ele é bom e não me perguntem o porquê, mas sei que é ele é bom, - Mas tem que ter algum motivo para ser bom, ora essa. - Ele é bom porque é torcedor do São Cristóvão. - Mas só porque torce para o São Cristóvão?  Esse não é um bom motivo para ser considerado um bom escritor. - Ele não está na Academia Brasileira de Letras? Então é bom e ainda mais que torce pelo São Cristóvão.  Aqui em São Paulo ele torce pelo Santos, mas no Rio de Janeiro é São Cristóvão e ponto final. Não sabe muito bem porque, mas torce, sofre e chora.   Bom ... saber ele sabe. Uma vez,  contou,  leu uma crônica do Conny em que ele relata que um entregador de pizza apareceu na porta da casa do escritor com a camisa do São Cristóvão e ele curioso perguntou se ele tor...

CATOLÉ E SUAS HISTÓRIAS

Catolé é o apelido de Cleoton Fernando de Sena, nascido em Catolé do Rocha, Paraíba, que conheci através de amigos em São Caetano do Sul. Funcionário do Banco do Brasil transferiu-se ou foi transferido, não sei ao certo, para São Paulo, onde angariou um grande número de amigos pelo seu jeito simples, brincalhão e também pelas boas histórias que contava com bastante picardia. Catolé também tocava um bom violão, que animava as rodas de samba. Sua história de vida é surpreendente, de origem muito humilde, foi internado em uma instituição para crianças carentes, chamada Pindobal, lá mesmo na Paraíba, cuja história ele resgatou, tempos depois, através de um vídeo que provava que é sim, possível, tirar crianças da rua e dar-lhes amparo e educação de qualidade. Catolé ao contrário do irmão que fez medicina, fez o curso superior em Belas Artes no Rio de Janeiro e conseguiu um bom emprego através de concurso no Banco do Brasil, onde fez uma longa carreira até a aposentadori...

A DESPEDIDA

A primavera havia chegado há poucos dias, mas a garoa fina e o frio continuavam. A festa estava mais para um bom vinho, mas quem é que poderia prever esse tempo maluco de uma região subtropical de transição. Mas a cerveja era das boas, o espetinho estava caprichado e o pernil estava exuberante. Mas boa mesmo era a conversa, conversa de uma juventude bela e sorridente, conversas de velhos resgatando o passado e lembrando que também não tem muito futuro. A vida é assim mesmo.   Numa roda de homens com os cabelos grisalhos e brancos, um deles falou em alto e bom tom: “De repente a gente descobre que está velho! É assim mesmo, um dia você acorda e sente que as pernas não funcionam tão bem como antes, além de outras coisas. Ontem, incomodado às 7h por um barulho que não me deixava dormir, levantei furioso para xingar os operários que estavam martelando do lado do meu quarto, no terreno vizinho. Coloquei a escada para dar uma bronca, a escada escorregou e desabei. Fiquei estendido n...

O VELHO ADONIRAM

Adoniram Barbosa ou o João Rubinato nasceu em 1910, na cidade de Valinhos, interior do de São Paulo e mudou-se para Santo André no ABC paulista em 1924, onde passou alguns anos trabalhando como operário e biscateiro antes de ir para o bairro do Bexiga que o revelou para o país e talvez para o mundo. Estaria com cem anos se vivo ainda estivesse. Ainda bem, pois já imaginaram a aporrinhação em cima do sambista? Entrevistas para a televisão, rádio, jornais, revistas e curiosos. O genial velhinho ficaria de saco-cheio e provavelmente todo esse assédio não lhe renderia nenhum trocado para aliviar o seu orçamento. Por isso ele desabafou certa vez quando lhe perguntaram como se sentia sendo tão homenageado: “Homenagem não paga as contas”. E por falar em homenagens, são várias que estão pipocando por aí para lembrar o maior sambista paulista, que com a sua irreverência, resolveu desmentir o Vinicius de Moraes que teria dito que São Paulo era o túmulo do samba. Com o samba Trem das Onze,...

A PRIMEIRA TELEVISÃO

A primeira televisão a gente nunca esquece, não é mesmo? É evidente que eu me refiro àquelas pessoas com mais de cinqüenta anos que viram o aparelhinho entrar pela primeira vez em casa. Meus pais resistiram muito em comprar uma TV por acharem que o rádio já estava ótimo. Além disso, os aparelhos da época ficavam mais nas oficinas de conserto do que na sala de visitas. Isso era visível quando o carro da Eletrônica Kodama parava em nossa rua para levar ou trazer aparelhos com problemas. O japonês era o melhor técnico da praça, pois consertava tão bem os aparelhos que ficavam funcionando até três meses, o que era um recorde. Naqueles tempos ter uma televisão significava ter mais um filho para sustentar. Uma senhora que morava em frente à nossa casa comprou a primeira TV da rua e como tínhamos uma intimidade maior com ela, eu e meu irmão mais novo íamos lá assistir o Zorro, A turma do Sete e até o Alô Doçura, com o John Herbert e a Eva Wilma. Programão! E foi por causa da telev...