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MANAUS E O ENCONTRO DAS ÁGUAS

Por hoje e talvez por amanhã também, nada será tão poético para mim como a expressão: o encontro das águas. Águas que vêm do sem-fim das Américas, das águas do degelo dos Andes, que vêm arrastando paus, pedras, vidas, flores, dores, amores por onde passam e de repente se encontram com outras águas, águas escurecidas, que vêm do norte, do sem fim do lado de lá do Equador. E foi isso que eu vi, com esses olhos que um dia a terra há de devorar que as águas do Solimões e as águas do Rio Negro se abraçam num enlace amoroso e permanente até chegar ao mar. Uma simpática senhora manauense me perguntou se era realmente verdade que das margens do Rio Negro seria possível mesmo ver o encontro das águas. A verdade está no olhar de cada um. O poeta finge que vê e que também não vê. Enquanto isso, o rio arrasta suas águas indefinidamente até o final dos tempos. O físico e quase poeta Stephen Hawking disse que o universo em expansão um dia faria o caminho inverso até o nada. Voltaríamos todos até o...

REFLEXÕES SOBRE OS DIREITOS SOCIAIS

A sociedade moderna é um espetáculo de exclusões sociais constantes. A cada nova turbulência do capitalismo milhões de indivíduos são jogados numa vala comum. Essa imagem é metafórica, mas não perde conexão com a realidade concreta. Não se trata de um massacre clássico no sentido da violência física em que o carrasco se apropria do corpo do outro e o destrói. É um massacre sutil, mas igualmente destrutivo, pois nega ao outro os direitos fundamentais à vida. É o massacre em que são utilizados mecanismos retóricos que mascaram uma ideologia cruel e avassaladora, convencendo o outro da sua condição de paria social, de um desnecessário ao sistema produtivo, algo descartável no sentido exato que se dá a esse termo na sociedade de consumo, enfim, é a reificação do ser humano. O espaço público é negado da forma mais violenta, pelo não reconhecimento ou mesmo da negação da existência do outro. Como destaca Hannah Arendt (2001) a história do mundo moderno poderia ser descrita como a história ...

Oscar de Vito, um artista de talento

Depois de vinte e três anos fomos rever um amigo. Lá estava ele com os bigodes grisalhos, os olhos ainda mais miúdos e o sorriso simpático. O abraço ainda era forte e sincero, sugerindo que sentia prazer em rever-nos. Mal sabíamos por onde começar. Falar de trabalho, de lembranças antigas, da cidade, do barulho, da crise econômica, do medo do futuro? Mas as pessoas que não tiveram uma relação formal ou apenas superficial, mas profunda, acabam desatando os nós do tempo e articulando novas conversas e por fim conseguem se reencontrar como se o tempo não tivesse passado, que foi apenas um breve intervalo entre acontecimentos. A casa muito aconchegante, com quadros de barcos espalhados pelas paredes, sugerindo que estava ocupada por um velho marinheiro que abandonara suas lidas com o mar e se recolhera ao aconchego de antigas lembranças. Confesso que fiquei surpreso com o interesse do amigo por barcos, mar, marinheiros, pois tinha em mente que o Oscar era pouco ligado ao mar e preferia o i...

JOSÉ DE ARRUDA PENTEADO, UM EDUCADOR

Num dia desses  visitava um sebo para passar o tempo, quando, surpreso, vi o livro Comunicação Visual e Expressão, do professor José de Arruda Penteado. Comprei o exemplar e pus-me a recordar os tempos de faculdade em que ele era professor e nosso mentor intelectual. Era uma figura ímpar, com seu vozeirão impostado e uma fina ironia. Rapidamente estreitamos contato e nas sextas-feiras saíamos em turma para tomar vinho e conversar. Era um dos poucos professores em que era possível criticar, sem medo, a ditadura militar. Penteado era um educador, profissão que abraçara com convicção e paixão. Seu ídolo e mestre foi o grande pedagogo Anísio Teixeira, que ele enaltecia com freqüência em nossos encontros semanais. Defendia um modelo de educação voltado para uma prática socialista e democrática, coisa rara naqueles tempos. Depois disso, soube que estava coordenando o curso de mestrado em Artes Visuais da Unesp e ficamos de fazer contato com o ilustre e inesquecível mestre. Mas o t...
As Isabellas são mais comuns do que se pensa. A tragédia de Isabella Nardoni, longe de ser um caso excepcional em que o pai e a madrasta podem ter trucidado a garota, não é nada absolutamente novo em nossa sociedade. Somente nos últimos dias vieram à tona vários casos de crianças assassinadas, agredidas ou torturadas dentro de casa aqui e no mundo. Então por que tanta celeuma em torno do crime? Parece-me que o caso ganhou tanta projeção apenas por se assemelhar a um folhetim policial ou uma novela da Rede Globo. Todo mundo desconfia do casal, mas eles não confessam e alegam inocência. Ai gera a expectativa de que num determinado momento eles vão confessar o crime. Cria-se uma torcida e há inconscientemente o desejo de todos para que confessem publicamente que foram os autores da tragédia. A polícia faz aí o papel do mocinho que descobre todas as provas, mas a defesa e os suspeitos (os maus da novela) continuam negando e dissimulando. Fica a impressão de que os telespectadores ficam ang...
HILLARY, OBAMA OU McCAIN? As eleições norte-americanas vem despertando grande interesse entre nós, talvez muito mais do que nas eleições anteriores. Qual seria a razão para que vários articulistas se dediquem ao tema, quase que diariamente? É claro que a presença de uma mulher candidata ao cargo é uma grande novidade, pois pela primeira vez em mais de duzentos anos da democracia americana, uma se apresenta com alguma probabilidade de vencer. A outra novidade, obviamente, é a candidatura de um negro, também com chances de chegar lá. A pergunta que todos fazem é se a sociedade americana está amadurecida para ser governada por uma mulher ou por um homem negro. Os articulistas inicialmente descartaram a possibilidade do Barack Obama vencer, pois a questão racial fatalmente viria à tona, considerando que Hillary Clinton teria maior probabilidade de vencer o candidato republicano McCain, pois poderia atrair os votos tanto de brancos como de negros e latinos, que normalmente apóiam os democr...

CARANDIRU, impressões de um visitante

Abriram-se as portas do Carandiru e uma grande horda de tribos das mais diversas origens afluiu para ver, com os próprios olhos, como viviam os excluídos da história. Com os próprios olhos tem um sentido relevante, pois ver com os olhos alheios pode implicar em digerir leituras diferentes, com base em narrativas carregadas de emoções, visões místicas, espiritualistas ou materialistas dos fatos. Afinal, como diz Walter Benjamim, cada narrador carrega nas suas tintas, deixando no vaso as marcas de suas próprias mãos. Numa longa fila, estavam jovens, brancos, negros, mestiços, homens, mulheres, católicos, protestantes, leigos, religiosos, piedosos ou sádicos. Todos esperavam ansiosos para conhecer os labirintos de um dos maiores centros penitenciários do país, aonde chegaram a viver (será?) mais de 7 mil presos. O ambiente ainda guardava um cheiro meio envelhecido de seres humanos que ali se amontoavam. Celas sujas, com roupas velhas abandonadas, revistas, jornais, papéis e alguns utensíl...