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CRISE GEOPOLÍTICA NA AMÉRICA DO SUL

A crise na América do Sul, mesmo depois de ser apaziguada, ainda deixa algumas questões que precisam ser respondidas com urgência. Uma delas é porque o Hugo Chaves se apressou em ampliar o conflito para que ganhasse dimensões maiores do que realmente tinha. Uma das hipóteses mais veiculadas entre os comentaristas seria que Chaves precisa urgentemente de um fato novo para desviar a atenção sobre a crescente crise econômica na Venezuela. A velha tática de que um inimigo externo pode reduzir o impacto de inimigos intermos poderosos como a inflação em alta, desemprego, produção em declínio, enfim, descontentamento generalizado. Outra hipótese é que o caudilho venezuelano tem projetos muito mais ambiciosos do que pode pensar nossa vão filosofia. A guerra enfraqueceria o estado colombiano, deixando-o a mercê das FARC que poderia desencadear um processo revolucionário, destituindo o governo institucional de Uribe. Dessa forma, Chaves já teria dado o primeiro passo para a instituição da Repú...

A PARTIDA DO VELHO E SAUDOSO CONSTANTINO DOZZI TEZZA

Conheci o velho Constantino há mais de vinte anos. Foi-me apresentado pelo seu filho numa festa de aniversário de um dos seus netos. Era um homem esguio, de porte elegante e muito alegre. Era um ítalo-caipira, com o seu jeito sorrateiro de observar as pessoas e sugeria, ainda que não fosse fumante, estar sempre picando um fumo de corda e enrolando numa palha sem fim. Rapidamente, como se fossemos velhos amigos deu-se a me contar causos. Alguns um tanto escabrosos, como o do bando de assombrações que vivia a infernizar a vida do povo de Butiá, um vilarejo de Descalvado no interior do Estado de São Paulo, onde nasceu e morou. Contou-me a história com um sorriso maroto nos lábios, saboreando cada palavra, cada passagem, como quem come um cuscuz bem feito. “Rapaz eu nunca tive medo de assombração, mas daquela vez me arrepiei todo. Os companheiros saíram em disparada largando sanfona, violão e até as botinas pela estrada. Eu fiquei firme, segurando minha flauta. Eu não corro de vivo, vou c...

NOÊMIA MOSCARDI

Passava um pouco apressado pela rua Tenente Antonio Alves, no bairro da Saúde e lembrei-me de velhos tempos. Tempos sombrios, é verdade. Estávamos em plena ditadura militar, mas isso não alterava o humor da maioria das pessoas. Os conscientes da situação pintavam o mundo de forma arrasadora, prevendo o caos que nunca chegaria. Os inconscientes ou alienados como eram chamados de acordo com o jargão da época, pouco se lixavam com a situação. Enfim, entre alienados e conscientes, o tempo passava morno e indiferente. Essas lembranças me fizeram parar o carro e olhar para uma casa simples, com aspecto de abandono, com folhas secas espalhadas pelo quintal. Ali moravam a dona Noêmia e o seu Joanin. Entrei no túnel do tempo e divaguei em direção a casa. Lá estava a pequena horta cultivada com carinho pela dona da casa. Na verdade, se é que me lembro mesmo, era um pouco de jardim misturado com horta. No canteiro havia flores que se misturavam às pimentas, ao cheiro verde, pimentão e outras hort...

RUA DA ETERNIDADE

Passo rápido pela Rua da Eternidade. Um sacrilégio. Deveria passar por esta rua, calmamente, sem pressa, sem compromissos, leve, solto, nada nos bolsos ou nas mãos. Essa rua começa em uma pequena praça em minha cidade e termina na Estrada das Lágrimas. Não é sugestivo? Depois da eternidade, chega-se as lágrimas ou pode-se ser o inverso: depois das lágrimas à eternidade. Quando menino eu avistava do quintal de minha casa, do alto do pé de sabugueiro, o que é hoje a “rua eterna”. Na época, era apenas um depósito de lixo da cidade e um pouco mais acima, avistava-se uma velha casa de fazenda abandonada, com muitas portas e janelas que todos diziam ser mal-assombrada. A garotada do bairro fazia apostas: quem teria a coragem de ir até lá na escuridão da noite? Todos se arrepiavam de medo e eu, só de pensar, passava noites insones. Para chegar até lá era preciso também, atravessar um pequeno matagal, que para os meus olhos de menino, era uma imensa floresta, repleta de bichos vivos e fantasm...
PAI REVISITADO Sinto saudade Dos bons e maus momentos Que vivemos juntos De quando ele era um herói Daqueles invencíveis! De quando não era nada Apenas um velho fraco Sem esperanças Sem futuro Sinto saudade Daquilo que ele foi E daquilo que não foi Daquilo que queria ser E daquilo que pensava ser Sinto saudade Das mãos ásperas Da barba por fazer De sua força E de suas fraquezas Sinto saudade Do que poderia ter sido E do que não foi Daquilo que pensei que era E daquilo que pensei que não era Sinto saudade De suas mãos seguras Desafiando o tempo Os perigos As incertezas Sinto saudade E sinto dor A dor da ausência A dor que se finge ter Mas que ainda sinto Não a dor que sufoca Mas a dor que enternece Que molha os olhos Que umedece a alma MINHA CASA A minha casa É onde eu passo as noites Noites de sono De insônia Em cada parede Em cada tijolo Em cada madeira Uma história Uma poesia Concreta ...
Oscar Niemeyer Traça suas linhas curvas Na linha do horizonte Buscando no finito As linhas do tempo Que traçam curvas sinuosas E perigosas. Mas o arquiteto Que também é poeta Traça com palavras Com traços Com espaços Esparsos O concreto da sintaxe Na pedra. O tempo é inexorável A vida luta contra ele Mas em vão... O tempo infinito E a vida tênue Mas o arquiteto desliza Nas curvas que cria Desafiando o espaço E o tempo. O arquiteto Arrasta-se em seu corpo Traçando as suas linhas Na curva sonolenta Do tempo Perseguindo o horizonte Sempre um plano Uma reta inacabada.

São Paulo em prosa e verso

São Paulo em prosa e verso São Paulo tem seus encantos. Muitos podem não concordar, mas é uma cidade sedutora em suas contradições arquitetônicas, sociais e culturais. Pode-se comer um bom prato árabe, uma magnífica macarronada ou inconfundíveis pizzas. Já ouvi de italianos que as melhores pizzas do mundo são feitas em São Paulo. Haveria motivo maior para nos orgulharmos desta cidade imponente, aristocrática, miserável, paradoxal e global, tudo ao mesmo tempo? Mas não é uma cidade para iniciantes. É preciso, antes de mais nada, saber olhar a cidade nas suas “entrelinhas”, saborear a sua intimidade meio italiana, meio nordestina, meio africana e, sobretudo meio portuguesa, pois é a presença ibérica que predomina, que dá o seu tempero final no cadinho de culturas. Para ver São Paulo é preciso mais do que andar pelas suas ruas, praças, avenidas. Talvez seja preciso pegar um cinema, comer uma pizza com alguns copos de chopes bem tirados e sair perambulando, sem hora para chegar nem voltar....