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O CÃO E O OUTRO

Para Caterina Koltai Os cães bem nascidos, com roupas de lã e com guias passeavam com seus donos pela praça sob um frágil sol de outono. Uma senhora obesa e arrogante levava o seu luluzinho, cuidadosamente penteado, ao colo, para evitar que se contaminasse com outros cães ou a sujeira do piso. Naquele espaço público, as classes sociais se diferenciavam pelas raças dos cães, cujos preços de mercado variavam de acordo com a raridade. Um Poodle Toy, por exemplo, pode custar até três mil reais, dependendo do pedigree. As coleiras, as roupas dos cães e demais adereços, também contribuíam para fazer a diferença. Para os cães, pelo menos é o que dizem os cinólogos, tudo se resume ao odor das roupas, das pessoas e das coisas. Eles não empinam o nariz como fazem nos desenhos animados, os cães das madames. Estão presos (pelas coleiras) às classes dos seus donos, mas não sugere que tenham noção de suas classes sociais, muito menos consciência de classe. Um mendigo, também alheio às questõ...

CAUÊ E O VELHO HOMEM DAS NUVENS

Cauê era um indiozinho tupi que vivia numa reserva indígena no interior do Brasil. A reserva era muito grande, mas existia um grande abismo que a separava da terra dos homens brancos. Os mais velhos sempre contavam histórias sinistras sobre o outro lado, o lado proibido. Sempre ouvira falar que os seres brancos eram violentos e pouco amistosos. Além disso, espalhavam doenças terríveis para os índios que morriam logo depois do contato com eles. Cauê sonhava poder algum dia atravessar o abismo e encontrar-se com as pessoas do outro lado, mesmo correndo todo o tipo de risco. Sentia-se cansado dos limites de sua reserva. Já conhecia tudo: os rios, lagoas, quase todas as árvores e animais. Alguns ele dava até nomes. As tarefas da aldeia destinada aos meninos o entediava, pois queria correr o mundo em busca de aventuras, conhecer outros povos, outros guerreiros. Um dia Cauê resolveu partir. Pegou seu arco e flechas, uma sacola feita de palha com alguns alimentos e partiu em direção ao ou...

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

A travessia de Nelson Ladeia. Poucas pessoas leram realmente o Grande Sertão: veredas. É uma narrativa complexa,em que o narrador conta a história para alguém que pode ser o próprio escritor ou o leitor. A narrativa também não segue uma sequência linear, temporal. Há avanços e retorno no tempo. Riobaldo, o narrador, admite que o contador de história tem poder sobre o passado, o presente e o futuro. O autor inventa palavras o tempo todo na voz do seu narrador, a sintaxe é complexa e repleta de metáforas que fazem a leitura um um trabalho nada simples. É preciso de concentração, paciência e reflexão. Mas esta crônica não é sobre o livro, mas sobre meu irmão Nelson para quem emprestei uma antiga edição do Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa. Ele estava apaixonado pelo escritor após a leitura de Sagarana. Leu e releu o livro e todas as vezes que nos encontrávamos ele dizia que o Grande Sertões: veredas havia se tornado o seu livro de cabeceira, sua bíblia. Mas para mim a e...

BELO HORIZONTE

Hoje me dei conta de que a minha primeira e única visita a Belo Horizonte ainda permanece em minhas retinas fatigadas. Apenas um fim de semana, mas ainda fica a impressão de que durou uma eternidade. A viagem de ônibus foi à noite e fez um frio de doer os ossos. Não consegui pregar os olhos, tal o desconforto. Mas o dia amanheceu bonito, ensolarado e pude conhecer a primeira cidade totalmente planejada do Brasil. Naquele momento me veio à mente a voz da minha professora primária, Da. Teresa Rami, nas aulas de geografia, explicando as características das capitais brasileiras. Mas eu tinha outro motivo, mais relevante para a minha fugaz estadia em BH. Era conhecer a igreja de Pampulha, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e com pinturas do grande mestre Candido Portinari. A viagem foi a convite de um amigo da época, Marcos Padovani, a quem não vejo há séculos. Sua irmã, Cecília, estava num convento em Pampulha e ele precisava fazer-lhe uma visita, levar-lhe notícias, enfim, coisas...

LAVINIA REVISITADA

Modéstia a parte nasci em Cachoeiro do Itapemerim, dizia o Ruben Braga. Como dizer modéstia a parte por ter nascido em Lavínia, uma minúscula cidade incrustada no oeste paulista? Tem apenas uma avenida principal, a Perobal que atravessa o povoado de ponta a ponta. O nome perobal está ligado às extensas florestas repletas de peroba que existiam por lá em idos tempos. Até recentemente a avenida ainda era de terra, uma terra vermelha, arenosa, que tinge as casas, os carros, a pele e até as minhas lembranças. O casario baixo, janelas que observam atentamente o movimento das ruas. Um cavaleiro que chega a galope, uma carroça, uma charrete, um jipe empoeirado. Tudo é novidade na cidadezinha qualquer na qual eu nasci. Não me lembro de fotografias da cidade, mas uma delas está comigo e povoou o meu imaginário quando criança. Meu tio José tinha uma comitiva que trazia boiadas do Mato Grosso e Goiás. Nesta foto, no centro da cidade, ele estava todo garboso em sua vestimenta gaucha, como era mod...

NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE...

Joanin Moscardi, quem sabe, poderia ter sido um dos maiores pontas da história do verdão do Parque Antarctica, coberto de glórias, endeusado pelos torcedores; mas a vida para um jogador de futebol até os anos cinquenta não era fácil. Não existiam os milhões que os bons e mesmo medíocres jogadores ganham hoje. Praticava-se o esporte por prazer, por amor à camisa, conforme contam os nossos velhos. E foi por isso que o Joanin com profunda tristeza abandonou uma carreira de glórias para se dedicar à família como operário numa indústria. Não que a vida tenha sido mais fácil, mas o salário era certo todo final de mês. Ao ver os dois filhos, Magali e Jorge crescerem saudáveis, bonitos, inteligentes e bem formados, esquecia o antigo sonho. Afinal, cumprira a sua missão ao lado da sua querida companheira Noêmia, que também já partiu. Conta seu filho que chegou a ver lágrimas correrem pelos olhos do Joanin quando ele olhava velhos retratos de jogadores que ocuparam a posição que poderia ter sid...

SUPLICY, A VESTAL DO SENADO

Sempre votei no Eduardo Matarazzo Suplicy desde o início de sua vida política, quando participou do MDB autêntico, juntamente com Mario Covas, Fernando Moraes, Fernando Henrique, Audálio Dantas entre outros, mas confesso que sempre o achei enrolado demais para ser político. Nesta época era quase gago, tinha muita dificuldade para articular uma frase, o que dirá um discurso. Mas sempre o considerei um sujeito honesto, bem intencionado, apesar de muito ingênuo, ingênuo demais para a profissão. O Suplicy melhorou muito, muito mesmo com o tratamento de uma fonoaudióloga paulista que é reputada como uma “fera”, segundo informações de um amigo. Hoje ele até fala com certa articulação. Lembro-me de uma palestra que ele fez nos tempos de faculdade nos anos 1970. Foi um desastre. Depois de uns vinte minutos, a metade da platéia foi embora e o restante dormiu. Quer dizer: quase, pois continuei até o final com mais alguns abnegados. Confesso que esperava que ele fosse se desligar do PT no epis...