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UM BANQUINHO E UM VIOLÃO


Não há quem não conheceu o Zelão por estas plagas. Tocava violão divinamente e sua voz então era encantadora. Ele colocava sua alma nas canções. Quando tomava o instrumento, o silêncio vinha como a chamado para que todo o espaço fosse ocupado pela sua voz suave e afinada. As mulheres se derretiam diante de suas cantorias e ficavam prontas para qualquer aventura com o bardo para a uma pontinha de  inveja dos demais rapazes, que também o admiravam.
               Contava-se que outrora o Zelão teve uma grande decepção amorosa. Sua musa, motivada por razões de dinheiro, o abandonou para se casar com um comerciante endinheirado. A moça, após as núpcias que parecem tê-la decepcionado,  deu para telefonar e escrever ao Zelão e fazer-lhe longas e tenebrosas juras de amor. Ela havia abandonado o namorado para se casar com outro, mas não queria deixá-lo ao sabor de hienas ávidas por tão precioso despojo. Mesmo na segurança do seu lar ela mantinha o Zelão sob controle, dando-lhe esperanças de que abandonaria o conforto e a riqueza para viver com ele um amor verdadeiro, pois estava muito infeliz e se arrependera amargamente por tê-lo deixado.  Acabara por descobrir que o dinheiro não trazia felicidade, mas casar sem eira nem beira, ah! Isso não. Alegava que foi criada no conforto e que não se adaptaria a uma vida muito simples como a que seria oferecida pelo Zelão.
               Mas o Zelão aos poucos foi abandonando a vida boêmia, voltou a estudar, concluindo o curso de engenharia e conseguiu um bom emprego. O cara empregado e chegando em casa de paletó e gravata foi um choque para os seus amigos, pois ele sempre dizia que para ser feliz ele precisava apenas de um banquinho, um violão e uma “loura” do lado. A loura não era uma mulher, mas uma boa cerveja, pois em relação ao belo sexo ele preferia as morenas.
                Entre uma aventura e outra, recebia cartas apaixonadas da sua amada. Passado algum tempo, discretamente, Carina começou a visitá-lo, principalmente quando sabia que a mãe do Zelão não estava em casa. No início eram apenas visitas para conversar sobre os velhos e saudosos tempos, mas depois as visitas se transformaram em tórridos encontros de alcova. Carina foi perdendo o pudor e já abusava da sorte, torcendo até para que seu marido descobrisse tudo e lhe desse a liberdade. Tudo em vão. O marido, mesmo sabendo da traição, não queria ser abandonado pela esposa que ele havia tomado, a duras penas, do antigo namorado.
               No fundo Carina gostava mesmo do bardo, mas esse negócio de ficar cantando em bar não era com ela. Era coisa de gente pobre, sem cabedal, sem futuro. Até apreciava as músicas que o Zelão cantava, mas uma coisa mais íntima, sem bebedeiras e fumaça de cigarro. Além do mais sempre havia umas sirigaitas que ficavam se insinuando para ele como cadelas no cio. Como ele estava bem empregado, com uma vida estável ela começou vê-lo com outros olhos; sem boêmia, noites mal dormidas, amigos que gostavam de encher a cara, era o momento de rever a relação. É preciso constituir família, como gente séria. Chegar do trabalho, jantar com a esposa e filhos, passar o fim de semana na casa de praia.
               O casamento de Carina enfim terminou, como todas as relações que começam mal. Ela e o bardo deram um tempo e mesmo sem a separação definitiva, juntaram os lençóis, pois como ainda não havia divórcio no Brasil, não podiam oficializar o casamento.  Os amigos ficaram felizes por ele, mas tinham uma ligeira desconfiança com relação à Carina. As desconfianças se confirmaram. Depois da união, comemorada com uma festa patrocinada pelos amigos, o casal mudou-se para lugar desconhecido e nunca mais se soube do Zelão. Sua voz bela e afinada acompanhada do seu violão, que ele tocava com incrível maestria ficou apenas nas lembranças de todos que com ele conviveram na boemia.

               

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