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OS VELHOS COMPANHEIROS

Apesar da garoa fina e do frio, lá vamos nós para uma festa na casa de amigos. Às vezes falta coragem, mas sempre vale a pena quando a alma não é pequena. Nada tão saboroso como os doces encontros com os amigos e amigas de antigas jornadas. Abraços demorados, repletos de afeto e alegria por rever pessoas que fazem parte da nossa história, dos nossos sonhos, das nossas aventuras e desventuras. Sempre festejamos os aniversários, os casamentos, os nascimentos e muitas vezes era apenas para comemorar um retorno, um dia bonito, uma noite de lua cheia ou simplesmente a vontade de rever os velhos companheiros.
Todos são, ou melhor, eram bons de copo. Alguns são vigiados atentamente pelas mulheres, que aproveitando a lei seca, impuseram severo controle sobre o vinho, o uísque e a cerveja. Um copinho só não faz mal... Até o final da festa já passou o efeito... E a conversa vai pegando ritmo. Não se fala mais de política, de violência e de corrupção porque ninguém agüenta mais. Fala-se mais de poesia, de música e da saudade do velho Caymmi que completou seu tempo de permanência no pequeno planeta azul.
Algumas cabeleiras foram devastadas pelo tempo que vai pintando cabelos brancos em antigas recordações. As rugas a cada ano vão se acentuando, fixando as marcas indeléveis das muitas primaveras e principalmente verões, que passamos juntos. As mulheres continuam as mesmas, sempre bonitas e cada vez mais charmosas. Vão enganando o tempo com novas cores e novos cremes. É uma luta constante em busca da eterna juventude.
Um dos amigos usou uma triste metáfora quando nos aconchegamos em volta de uma mesa redonda coberta com uma toalha preta. “Quero ver quando for uma mesa retangular com uma toalha preta?” Ora essa! Que hora para se falar nessas coisas! Morte é fim de festa, é desencontro.
Alguns faltaram ao encontro. Um estava na Escócia em um congresso, outro estava às voltas com seus negócios, outros moram muito longe, um outro, mesmo morando perto, está deixando o tempo passar e está esquecendo de viver. Viver é mais do que trabalhar, dormir e comer. Viver é sentir o calor de uma boa conversa, de relembrar bons e maus momentos, é sentir o abraço estreito com jeito de se agradar. Viver é olhar nos olhos e sentir que amamos as pessoas e somos amados. Viver é desfrutar de amizades desinteressadas, é jogar conversa fora, é um poema do Manuel Bandeira encerrado com força e paixão... “Eu faço versos como quem morre”. Viver é ouvir aquela canção do Caymmi e sentir no fundo da alma as águas batendo na beira da praia e ver um entardecer que parece não acabar nunca de tão bonito. Viver, minha gente é poesia pura na veia. O dinheiro pode ser bom, mas se não tivermos poesia na alma, ele só trás inveja, medo de que todo mundo está querendo pegá-lo. Depois, quando partimos, ele gera apenas a discórdia entre os que ficam. Feliz o homem que deixa para os seus filhos apenas a sua sabedoria, seus versos tortos e sua memória.
O que nos torna humanos de verdade, não são as finanças, as tecnologias, as grandes propriedades. O que nos torna humanos é a paixão. É a paixão que nos leva a escrever versos, a ouvir e ler versos, a se emocionar com a música, com o sorriso, com as lágrimas e com as coisas mais simples da vida. É a paixão que leva o homem para o futuro sem esquecer do passado.
Mas como diria o velho poeta mineiro: “Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Renato Ladeia
23/08/08

Comentários

  1. Sinto muit falta desses saraus. Mais daquelas em que amigos levavam suas crônicas, suas canções. De alguma forma seu blog tem me suprido essa carência. Parabéns! Dédo.

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  2. Belíssima Crônica. È sempre muito prazeroso ler suas crônicas, através delas reporto-me para perto de vcs.Saudades...!!!!Abraços.REgina

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