<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250</id><updated>2012-02-15T23:51:35.930-08:00</updated><title type='text'>Crônicas memorialistas e impressões do cotidiano</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>108</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-202983867504210733</id><published>2011-11-05T16:27:00.000-07:00</published><updated>2011-11-05T16:27:45.275-07:00</updated><title type='text'>A MEIA NOITE EM PARIS E A MEIA NOITE NA PAULICEIA DESVAIRADO</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ao sair do cinema na Rua Augusta, depois de assistir o belo filme de Woody Allen, fiquei um pouco frustrado por não estar chovendo como na última cena do filme. A rua estava repleta de carros, com muito barulho, muita gente e em nada sugeria o clima de Paris nos anos 30, palco da trama desenvolvida pelo magistral cineasta. Mas resolvi caminhar um pouco para curtir o clima do filme enquanto aguardava uma carona. Cansado de esperar fui descendo a Augusta no sentido centro e aos poucos fui tomado por um clima diferente. Até hoje não sei se pirei ou se o mundo havia voltado no tempo. Estava em frente ao restaurante Gigetto, onde até hoje, muita gente famosa gosta de jantar depois das peças de teatro, shows ou mesmo para encerrar uma noite de trabalho. Lá encontrei há alguns anos atrás o humorista Ary Toledo, Chico Buarque, Marieta Severo e Elba Ramalho todos numa mesma noite.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Logo que entrei vi sentado em uma mesa num canto o poeta e romancista Mario de Andrade, com sua calva avançada. Ele estava rascunhando alguma coisa, talvez um verso. Imagino que não era no guardanapo porque nos anos 30 ainda se usava de guardanapos de pano. Não importa se era numa folha de papel qualquer, mas ele estava escrevendo. Aproximei-me e ele muito solícito pediu que eu sentasse e começamos a conversar sobre sua obra, principalmente o seu famoso poema Paulicéia Desvairada. Fiquei bisbilhotando o que ele havia escrito no papel e ao notar meu interesse deu para que eu lesse. Era um poema numa linguagem típica dos caipiras paulistas: “Quando da brisa, num açoite/ A flor da noite/ Se acurvô/ Foi se encontrá com a Maroca/meu amor...” &amp;nbsp;E foi então que ele disse que se tratava de uma letra que estava fazendo para uma canção de um amigo, o Ary Kerner. Mário, depois de beber mais um pouco de cerveja, soltou-se e declamou os versos para mim, ante o olhar espantado de alguns freqüentadores circunspectos do restaurante. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Enquanto conversávamos animadamente eis quem chega ao Gigetto: nada mais nada menos do que o futuro historiador paulista, Sérgio Buarque de Hollanda. Ele ainda era um sujeito magro, muito elegante com seu costume justo no corpo e um chapéu de palheta que levava à cabeça. Saudou-nos alegremente e disse ter gostado muito dos versos que o Mário havia lhe enviado na última semana para o Rio de Janeiro. Mário cuidou de apresentar-me ao seu amigo, mas ainda nem sabia meu nome: “Este é o senhor... “ Eu completei rapidamente dizendo meu nome e disse que estava tentando escrever uns versos e buscava na experiência do Mário de Andrade, algumas orientações e críticas. Nisso o Sergio, muito solícito, ofereceu-se, ele mesmo, para ler os meus versos e analisá-los. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- E o que faz na Paulicéia, Sérgio? Que bons ventos o trazem? Perguntou animadamente o Mário.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Vim resolver alguns negócios de família, mas devo retornar ao Rio, no final da semana. Contudo, antes quero encontrar com os amigos, ver uma ou outra peça de teatro, comprar alguns livros...&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Você continua um inveterado comprador de livros. Eu também não posso falar muito, pois a minha biblioteca está entupida e não tenho mais lugar para guardá-los.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Não se preocupem, disse eu, um dia vocês deixarão para uma biblioteca pública que irá guardá-los com muito carinho. Disse pensando no futuro que já conhecia como a famosa biblioteca Mario de Andrade, que na verdade não tem cuidado &amp;nbsp;muito bem do acervo, mas não poderia desanimá-lo. Quanto à biblioteca do Sérgio, sabia que estava bem guardada na Unicamp.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- E a saúde Mário? Ouvi dizer que você não tem andado muito bem. É algo sério?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Não sei se é sério. Isso só Deus sabe, pois os médicos entendem mais de cifrões do que de saúde. Mas sinto umas dores no peito que chegam e partem como a poesia.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ouvindo a conversa lembrei que o poeta Mário de Andrada morreria poucos anos depois, em 1944 e estávamos em 1938, ano da fundação do Restaurante Gigetto. Olhei com tristeza para o seu rosto sereno. Pensei em dar-lhe alguns conselhos, mas não sendo médico não sei se ele ouviria com alguma atenção, mas arrisquei: “Olha Mário, não gosto de dar palpites, mas pode ser o coração. Cigarros, muita gordura e vida sedentária podem entupir as coronárias e daí... O Mário cortou rapidamente a conversa dizendo “Viva a boa vida”, nada de dietas, nada de parar de fumar. São os prazeres que fazem a vida valer a pena”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- E o livro Raízes do Brasil&amp;nbsp; Sérgio, como está sendo recebido pela crítica?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Não sei não... Penso que o pessoal não entendeu bem a expressão “homem cordial”, com que defino o brasileiro. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Em pleno século XXI ainda há discussão sobre isso. Comentei sem querer, mas logo disse que era uma brincadeira e que quis dizer que provavelmente o livro provocaria polêmicas por muitos e muitos anos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Sérgio ficou interessado ao saber que eu havia lido seu livro e disse que gostaria de marcar um novo encontro para conversarmos um pouco mais sobre o assunto, pois nesta noite ele estava com um pouco de pressa, pois precisaria tomar o último bonde para se hospedar na casa de um velho amigo dos tempos de colégio.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;-&amp;nbsp; E o Vinicius e o Drummond? Tem visto os dois no Rio?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Ah sim, o Vinicius está mudando de estilo poético. Não é mais o poeta metafísico de antanho. Deu para escrever versos amorosos e sensuais. Mas são bons versos, não posso deixar de admitir. O nosso Vinícius tem uma sensibilidade rara, principalmente com relação ao sexo feminino. Quanto ao Drummond, aquele mineiro ensimesmado, que fala pouco, mas continua espreitando as saias das mulheres que vivem pela praia, coloridas pelo sol. Olhe só, parece que estou versando...&amp;nbsp; Vou anotar isso, quem sabe um dos meus futuros filhos resolva escrever versos e poderá aproveitar a idéia (risos).&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Mas ouvi dizer que a amizade do&amp;nbsp; Drummond com João Cabral anda estremecida. Eles que eram tão amigos. O que será que houve entre os dois? Perguntou Mario de Andrade.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Não sei não, meu caro amigo. Acho estranha essa conversa, pois o Drummond e a Dolores foram padrinhos de casamento do João. Estavam sempre a trocar correspondências. Bem... é certo que o Drummond, quando se trata de escrever cartas é mais econômico que o personagem avarento dos Mercadores de Veneza de Shakespeare.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Nisso entrou no restaurante o Oswald de Andrade com sua palheta branca, elegantemente vestido. Ao vê-lo na entrada, Mário de Andrade levantou-se, pediu desculpas para nós e disse que tinha um compromisso urgente. Foi aí que me lembrei de que havia certa animosidade entre os dois. Sérgio Buarque também se levantou para cumprimentar Oswald e eu resolvi sair para acompanhar Mário de Andrade até a porta. Cumprimentei Sérgio e combinamos um encontro na Confeitaria Colombo na próxima semana no Rio de Janeiro. Ao sairmos senti que tudo havia desaparecido. Mil carros modernos e velozes passando pela rua e ainda avistei bem longe, envolto por névoas, o andar apressado do Mário. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Infelizmente estou cá sem saber se sonhara caminhando ao descer a Rua Augusta, ainda fascinado pelo filme A meia noite em Paris ou se havia entrado no túnel do tempo. Não imagino o que possa ter acontecido, mas devo dizer que foi emocionante&amp;nbsp; aquele encontro surrealista com dois dos mais importantes intelectuais paulistas. Como o túnel do tempo é uma ficção, tributo mesmo esta crônica ao desvario da idade.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-202983867504210733?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/202983867504210733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/11/meia-noite-em-paris-e-meia-noite-na.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/202983867504210733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/202983867504210733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/11/meia-noite-em-paris-e-meia-noite-na.html' title='A MEIA NOITE EM PARIS E A MEIA NOITE NA PAULICEIA DESVAIRADO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-934161832788967069</id><published>2011-10-12T10:50:00.001-07:00</published><updated>2011-12-21T04:08:09.947-08:00</updated><title type='text'>O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;O que você acha do Conny? Antes que eu pudesse preparar a resposta, outro amigo entrou na conversa e afirmou categoricamente: &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;- Ele é bom e não me perguntem o porquê, mas sei que é ele é bom,&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;- Mas tem que ter algum motivo para ser bom, ora essa.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;- Ele é bom porque é torcedor do São Cristóvão.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;- Mas só porque torce para o São Cristóvão?&amp;nbsp; Esse não é um bom motivo para ser considerado um bom escritor.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;- Ele não está na Academia Brasileira de Letras? Então é bom e ainda mais que torce pelo São Cristóvão.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&amp;nbsp;Aqui em São Paulo ele torce pelo Santos, mas no Rio de Janeiro&amp;nbsp;é São Cristóvão e ponto final.&amp;nbsp;Não sabe muito bem porque, mas torce, sofre e chora.&amp;nbsp; &amp;nbsp;Bom ... saber ele sabe. Uma vez,&amp;nbsp; contou, &amp;nbsp;leu uma crônica do Conny em que ele&amp;nbsp;relata que um entregador de pizza apareceu na porta da casa do escritor com a camisa do São Cristóvão e ele curioso&amp;nbsp;perguntou se ele torcia mesmo para o time. Ele e o entregador de pizza eram&amp;nbsp;provavelmente os únicos torcedores do São Cristóvão no Rio de Janeiro. O cronista ficou&amp;nbsp;emocionado por encontrar alguém, vivinho, em carne e osso, que torcia pelo seu time do coração. Deu uma boa gorjeta e foi&amp;nbsp; comer a pizza que o seu &amp;nbsp;pessoal já estava esperando.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;E foi por isso que o nosso amigo, paulistano e torcedor do &amp;nbsp;Peixe lembra que depois de ler a crônica ficou meio mamado pelo time de segunda linha, que servia apenas de sparing para os times grandes do Rio. E é o único time que não troca a camisa. Pode jogar contra o Flamengo, o Vasco etc e a camisa é sempre a mesma. Quem quiser que troque a camisa, pois o São Cristóvão não troca. E não é por teimosia não, mas é porque tem apenas um jogo de uniforme. Ou joga com aquela ou joga pelado, não tem opção.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Depois dessa conversa meio maluca, fiquei pensando se valia mesmo a pena torcer por time grande. Foi aí que me lembrei do velho Estrela F.C. de Vila Marlene, São Caetano do Sul, onde eu morava quando criança. Quase todos os domingos ia assistir aos jogos do time da vila e torcia mesmo, vibrando em cada jogada. &amp;nbsp;Depois dos jogos, se vitoriosos, os jogadores voltavam a pé, uniformizados, para a sede, que ficava a dois quarteirões&amp;nbsp; do campo, com mais&amp;nbsp;um trofeu, orgulho dos jogadores.&amp;nbsp;Na sede, um barracão nos fundos de um armazém,&amp;nbsp;os troféus&amp;nbsp;eram expostos em uma&amp;nbsp; rústica estante de madeira. Na segunda-feira, voltando da escola,&amp;nbsp;gostava de admirar&amp;nbsp;os uniformes dependurados nos varais do quintal de uma lavadeira. Ficava orgulhoso de ver as camisas do meu time da vila balançando ao vento. Quantas glórias! &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Argemiro Piffer nosso vizinho de frente, era um zagueiro do time e gostava de tomar sol sem camisa, exibindo seu corpo sarado com uma águia tatuada no peito. Naqueles tempos era raro ver alguém tatuado e a garotada ficava curiosa&amp;nbsp;querendo saber como aquela tinta não saia quando ele tomava banho.&amp;nbsp;Grande Miro, torcedor do Corinthians, beque central do Estrela F.C. que me levou ao Pacaembu pela primeira vez para assistir um jogo do timão. Foi um dia de aventura para os meus 12 anos. Fomos de carona na boléia de um caminhão. &amp;nbsp;&amp;nbsp;Morreu moço o Miro&amp;nbsp;depois de um acidente inexplicável, deixando mulher e filhos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas&amp;nbsp;infelizmente o&amp;nbsp;Estrela acabou ou relaxou como se dizia na época.&amp;nbsp;As camisas ficaram gastas e imprestáveis e não apareceu nenhum patrocinador para comprar um jogo novo de camisas.&amp;nbsp;Os grandes craques do Estrela F.C. &amp;nbsp;também não tinham dinheiro para comprar nem chuteiras, quanto mais o uniforme. O seu Manuel, o português da padaria, às vezes pagava a lavadeira quando faltava dinheiro, pois sempre tinha alguém desempregado. De qualquer forma o futebol de várzea estava com os seus dias contados por obra da força demolidora da especulação imobiliária.&amp;nbsp;Mas enquanto durou o time, os nossos humildes &amp;nbsp;ídolos suavam a camisa, relavam-se no chão de terra batida e tinham como glória apenas o prestígio entre os homens do bairro e das crianças que os reconheciam nas ruas.&amp;nbsp;Para eles aquilo era demais.&amp;nbsp;Por isso eu também acho que ser torcedor do São Cristóvão é motivo de orgulho, pois não ganha campeonato, não aparece na televisão, mas está no coração do povo. Viva o São Cristóvão e todos os seus (poucos) torcedores.&lt;br /&gt;Quanto ao velho Cony&amp;nbsp;recordo-me do romance Travessia&amp;nbsp;&amp;nbsp;entre outros&amp;nbsp;que ele publicou ainda nos tempos de ditadura.&amp;nbsp;Travessia é um&amp;nbsp;bom livro, corajoso para a época, mas&amp;nbsp;a história da indenização que ele recebeu por ter sido oposição ao governo militar, confesso que não engoli, uma mancha na sua&amp;nbsp;biografia. Como disse o Millor, eles não fizeram oposição, mas um fundo de pensão.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-934161832788967069?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/934161832788967069/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/10/o-torcedor-do-sao-cristovao.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/934161832788967069'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/934161832788967069'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/10/o-torcedor-do-sao-cristovao.html' title='O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-738806905690811758</id><published>2011-10-03T07:59:00.000-07:00</published><updated>2011-10-13T05:10:53.083-07:00</updated><title type='text'>CATOLÉ E SUAS HISTÓRIAS</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Catolé é o apelido de Cleoton Fernando de Sena, nascido em Catolé do Rocha, Paraíba, que conheci através de amigos &lt;personname productid="em S￣o Caetano" w:st="on"&gt;em São Caetano&lt;/personname&gt; do Sul. Funcionário do Banco do Brasil transferiu-se ou foi transferido, não sei ao certo, para São Paulo, onde angariou um grande número de amigos pelo seu jeito simples, brincalhão e também pelas boas histórias que contava com bastante picardia. Catolé também tocava um bom violão, que animava as rodas de samba.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Sua história de vida é surpreendente, de origem muito humilde, foi internado em uma instituição para crianças carentes, chamada Pindobal, lá mesmo&amp;nbsp;na&amp;nbsp;Paraíba, cuja história ele resgatou, tempos depois, através de um vídeo que provava que é sim, possível, tirar crianças da rua e dar-lhes amparo e educação de qualidade. Catolé ao contrário do irmão que fez medicina, fez o curso superior em Belas Artes no Rio de Janeiro e conseguiu um bom emprego através de concurso no Banco do Brasil, onde fez uma longa carreira até a aposentadoria.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas Pindobal ficou na memória do Catolé como um paraíso perdido no tempo. No vídeo mostrou os dormitórios, as salas de aula, refeitório, pátios e os locais onde as crianças cultivavam seus próprios alimentos. Era uma imagem contundente do abandono de um projeto que deu certo na época e foi descartado pelo poder público.&amp;nbsp; Durante a apresentação que fez para os amigos, comentava indignado o abandono da instituição que conseguiu transformar pessoas como ele, em cidadãos dignos desse nome. Em alguns momentos percebia-se lágrimas no seu rosto, fruto das emoções que as lembranças provocavam.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Lembro-me de uma reunião na casa de um amigo em que o Catolé contou algumas histórias muito engraçadas. Uma delas era sobre um primo dele que veio de Sergipe para procurar emprego &lt;personname productid="em S￣o Paulo" w:st="on"&gt;em São Paulo&lt;/personname&gt;, ficando hospedado na casa de um tio. Passados três meses nada de emprego e as economias que o rapaz trouxe minguaram, restando apenas o dinheiro para a passagem de volta. O tio ao saber da decisão do jovem tratou logo de animá-lo e não aceitou que um parente seu voltasse fracassado para a terrinha. “Meu filho vou lhe ensinar como é que se procura emprego aqui &lt;personname productid="em S￣o Paulo" w:st="on"&gt;em São Paulo&lt;/personname&gt;”, sentenciou o tio, morador há muitos anos na cidade. Foi então que o tio orientou o rapaz para que pegasse o jornal e não se preocupasse com a experiência requerida. “Basta dizer que tem experiência e pronto. Lá dentro você aprende com o tempo”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Assim, o moço viu um anúncio no jornal: “Indústria eletrônica precisa de nissei com prática” ele não teve dúvidas e no dia seguinte, bem cedo, lá estava na fila de candidatos ao emprego, destacando-se pelo seu porte alto entre os nisseis. O selecionador ao ver aquela figura estranha na fila de candidatos, perguntou curioso: “Você é nissei mesmo?” “Sou sim senhor e tenho muita prática”, respondeu convicto.&lt;br /&gt;Mas Catolé, para tristeza dos muitos amigos que deixou na terra da garoa, voltou para o Nordeste onde trabalhou até se aposentar. E foi no Rio Grande do Norte que passou os seus últimos anos de vida e onde construiu um aconchegante chalé para receber os amigos e parentes.&amp;nbsp; Mas uma doença que não foi convidada alojou-se sorrateiramente em seu corpo e levou o nosso Catolé para outra dimensão. A dimensão da saudade eterna. Eterna enquanto durar a vida dos seus muitos amigos que ele deixou por estas bandas que vão sempre se lembrar dos seus sambas, das suas histórias e do seu jeito simples e verdadeiro.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-738806905690811758?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/738806905690811758/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/10/catole-e-suas-historias.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/738806905690811758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/738806905690811758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/10/catole-e-suas-historias.html' title='CATOLÉ E SUAS HISTÓRIAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7938142317801820239</id><published>2011-09-27T07:29:00.001-07:00</published><updated>2011-10-01T12:36:31.677-07:00</updated><title type='text'>A DESPEDIDA</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;A primavera havia chegado há poucos dias, mas a garoa fina e o frio continuavam. A festa estava mais para um bom vinho, mas quem é que poderia prever esse tempo maluco de uma região subtropical de transição. Mas a cerveja era das boas, o espetinho estava caprichado e o pernil estava exuberante. Mas boa mesmo era a conversa, conversa de uma juventude bela e sorridente, conversas de velhos resgatando o passado e lembrando que também não tem muito futuro. A vida é assim mesmo. &amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Numa roda de homens com os cabelos grisalhos e brancos, um deles falou em alto e bom tom: “De repente a gente descobre que está velho! É assim mesmo, um dia você acorda e sente que as pernas não funcionam tão bem como antes, além de outras coisas. Ontem, incomodado às 7h por um barulho que não me deixava dormir, levantei furioso para xingar os operários que estavam martelando do lado do meu quarto, no terreno vizinho. Coloquei a escada para dar uma bronca, a escada escorregou e desabei. Fiquei estendido no chão até que alguém&amp;nbsp; me socorresse. &amp;nbsp;Foi aí que percebi que não sou mais o moço que pensava ainda ser; &amp;nbsp;caiu a ficha”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Aquela conversa pode não ter sido muito agradável, pois ninguém gosta de ser lembrado que está ficando velho, mas o &amp;nbsp;amigo estava conformado e parecia não se preocupar muito com o passar do tempo. Porém, é bom ter o conforto de antigos companheiros para compartilhar a passagem do tempo. Pior é envelhecer sozinho, solitário. Lembrei-me das palavras de uma amiga na passagem dos seus oitenta anos: “Nada me faltará, pois tenho amigos”. Que palavras bonitas, que chegam a dar um calorzinho no coração.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;A festa era a despedida da filha de um velho e querido amigo. &amp;nbsp;A menina vai para a Austrália com o namorado e vai ficar por lá pelo menos um ano. O nosso amigo estava feliz pela filha ter feito a generosidade de convidar alguns dos seus velhos amigos para que não se sentisse isolado no meio da garotada. Ela vai para o outro lado do mundo. Quando estiver dormindo estaremos acordados e vice-versa. É um país imenso, maior do que o Brasil e tem apenas a população equivalente a do Estado de São Paulo. São novos horizontes, novas culturas, novas expectativas, outra língua e outros mais.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Os filhos crescem, vão cuidando das suas vidas, ganhando independência e vão deixando os velhos em seu mundo, em seu passado. Um mundo que mudou, um mundo diferente daquele que existia em outros tempos. &amp;nbsp;Os valores são outros, a música é outra, os medos são outros. São novos ditadores, novas opressões e novas incertezas. Mas nosso amigo estava feliz, apesar da partida da filha; fez o seu tradicional churro, riu, cantou, brincou. Mas será que na solidão do seu quarto não chorará baixinho para que ninguém ouça? Quem sabe. Lágrimas foram feitas para chorar e não para guardar.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7938142317801820239?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7938142317801820239/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/09/despedida.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7938142317801820239'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7938142317801820239'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/09/despedida.html' title='A DESPEDIDA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-3945982101757869750</id><published>2011-09-13T06:11:00.000-07:00</published><updated>2011-09-13T06:11:05.929-07:00</updated><title type='text'>O VELHO ADONIRAM</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Adoniram Barbosa ou o João Rubinato nasceu em 1910, na cidade de Valinhos, interior do de São Paulo e mudou-se para Santo André no ABC paulista em 1924, onde passou alguns anos trabalhando como operário e biscateiro antes de ir para o bairro do Bexiga que o revelou para o país e talvez para o mundo. Estaria com cem anos se vivo ainda estivesse. Ainda bem, pois já imaginaram a aporrinhação em cima do sambista? Entrevistas para a televisão, rádio, jornais, revistas e curiosos. O genial velhinho ficaria de saco-cheio e provavelmente todo esse assédio não lhe renderia nenhum trocado para aliviar o seu orçamento. Por isso ele desabafou certa vez quando lhe perguntaram como se sentia sendo tão homenageado: “Homenagem não paga as contas”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E por falar em homenagens, são várias que estão pipocando por aí para lembrar o maior sambista paulista, que com a sua irreverência, resolveu desmentir o Vinicius de Moraes que teria dito que São Paulo era o túmulo do samba. Com o samba Trem das Onze, ganhou um festival de samba no Rio de Janeiro, em comemoração ao IV centenário da cidade. O Vinicius teve que levar para o túmulo a fama de agourento da nossa paulicéia desvairada. Pessoas famosas não podem falar coisas que possam comprometê-las no futuro. Quem não se lembra do Gerson e aquela propaganda odiosa? Pois é, o publicitário bolou uma campanha e sobrou para o jogador o ônus de carregá-la nos ombros até o final dos seus dias. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E por essas e outras fui assistir ao show do Carlinhos Vergueiro, acompanhado pela “cara-metade” e o amigo sambista e compositor Zeca da Silva, na cidade de Santo André, onde o Adoniram morou alguns anos. Esperávamos a casa cheia e por isso tratamos de chegar cedo para evitar a disputa indesejável de poltronas com pessoas mal educadas. Qual o quê! Uma platéia quase vazia aplaudiu e vibrou com o velho e bom sambista Carlinhos Vergueiro, dono de uma vitalidade incrível, que cantou e contou histórias sobre o homenageado, com o qual conviveu e se tornou parceiro em alguns sambas. Numa delas, ele relata outra versão da história da letra de Iracema. Segundo ele, o Adoniran estava caído por uma moça que não lhe dava a menor chance. Desiludido, avisou a tal que iria matá-la (simbolicamente, é claro) compondo o samba em que sua diva morre atropelada. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Adoniram foi mais do que um sambista, foi também um cronista da Paulicéia. Vivendo e circulando entre os bairros do Bexiga, Mooca e Brás, ele captou o jeito típico do paulistano boêmio, gozador e também sofredor. Com letras simples e usando um português muito distante do idioma de Camões, repleto de italianismos e erros de concordância, ele conquistou o coração dos paulistas e também dos imigrantes. São histórias do homem comum, do trabalhador, do desempregado, do sem teto, que busca sobreviver na grande capital. Saudosa Maloca, que retrata o eterno problema de moradia com as invasões de espaços públicos e particulares pelos sem-teto, revela uma crítica social, mas também um conformismo diante do sistema econômico. Os velhos palacetes assobradados abandonados ainda existem e de vez em quando lemos nos jornais que foram invadidos ou desocupados à força. O edipiano Trem das Onze que passava no Jaçanã apenas para rimar com amanhã lembra o problema do transporte público na maior cidade do país e se tornou a música símbolo dos paulistanos. A Iracema que morre atropelada por atravessar na contramão é mais uma cena do cotidiano paulistano, com os milhares de atropelamentos, interrompendo vidas de crianças, jovens e adultos de uma forma violenta, deixando rastros de tristezas e saudades.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas há outra história sobre a carreira de Adoniran Barbosa, contada pelo Walter Silva, o “Pica-Pau”. Adoniran era bem diferente daquela figura brincalhona, irônica e engraçada que conhecemos. Teria sido um sujeito mais sério, que cantava músicas de Noel, como Filosofia, que ele defendeu num programa de calouros. O Adoniran que fez sucesso na paulicéia e depois no Brasil foi criado pelo produtor Oswaldo Molles para um programa de rádio nos anos cinquenta. O personagem foi o “Charutinho”, que ele incorporou até o final dos seus dias. Walter Silva ainda afirmou que o português errado dos sambas foi, muitas vezes, obra dos “Demônios da Garoa”, que imprimiam um tom humorístico às suas músicas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Adoniran, com português errado propositalmente ou não, deixou sua marca no samba e na cultura paulistana. Até hoje muitos cariocas acreditam que os paulistas falam como nas suas canções; mas mesmo sendo um descendente de italianos meio acaipirado, colocou a paulicéia no panteão do samba. E sobre falar errado, é dele a frase: “A pessoa, pra falar errado, precisa saber falar errado. Se não souber é melhor não falar errado”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-3945982101757869750?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/3945982101757869750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/09/o-velho-adoniram.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3945982101757869750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3945982101757869750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/09/o-velho-adoniram.html' title='O VELHO ADONIRAM'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1584887194640485317</id><published>2011-09-13T06:02:00.000-07:00</published><updated>2011-09-13T06:02:59.013-07:00</updated><title type='text'>A PRIMEIRA TELEVISÃO</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A primeira televisão a gente nunca esquece, não é mesmo? É evidente que eu me refiro àquelas pessoas com mais de cinqüenta anos que viram o aparelhinho entrar pela primeira vez &lt;personname productid="em casa. Meus" w:st="on"&gt;em casa. Meus&lt;/personname&gt; pais resistiram muito em comprar uma TV por acharem que o rádio já estava ótimo. Além disso, os aparelhos da época ficavam mais nas oficinas de conserto do que na sala de visitas. Isso era visível quando o carro da Eletrônica Kodama parava em nossa rua para levar ou trazer aparelhos com problemas. O japonês era o melhor técnico da praça, pois consertava tão bem os aparelhos que ficavam funcionando até três meses, o que era um recorde. Naqueles tempos ter uma televisão significava ter mais um filho para sustentar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Uma senhora que morava em frente à nossa casa comprou a primeira TV da rua e como tínhamos uma intimidade maior com ela, eu e meu irmão mais novo íamos lá assistir o Zorro, A turma do Sete e até o Alô Doçura, com o John Herbert e a Eva Wilma. Programão! E foi por causa da televisão da vizinha que meus pais resolveram comprar uma também, pois detestavam que a gente fosse à casa dos vizinhos para incomodá-los. A nossa primeira foi uma Invictus, uma perfeita bomba se considerarmos os padrões de hoje. Em todo momento ela desregulava e precisávamos ficar girando os botõezinhos da vertical e da horizontal. Normalmente na melhor parte do filme ou programa, a faixa horizontal disparava.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Havia também a disputa por programas. Meu pai adorava o&lt;i&gt; telecatch&lt;/i&gt; aos sábados e a garotada preferia, obviamente, o Bonanza, um faroeste sobre uma família de fazendeiros que fez muito sucesso nos anos sessenta. Era o máximo, desde que meu pai não ficasse com o saco-cheio da lengalenga do Bonanza e resolvesse dar uma espiadela na luta livre. Era um saco. Ninguém saía da sala&amp;nbsp; por uma questão de respeito ao velho, mas que dava vontade, isso dava.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Lá em casa se ouvia falar sobre a televisão há muito tempo, mesmo antes das primeiras aparecerem no bairro. Meu avô falava nela desde os anos quarenta, quando leu umas notícias numa revista estrangeira que ele assinava. Meu pai contava que quando ele falava sobre a televisão o pessoal do interior pensava que ele tinha ficado louco. “Onde já se viu ver as pessoas de longe? Isso é coisa de velho caduco”. Meu amigo Sinézio Dozzi Tezza contava que em Descalvado o prefeito colocou um aparelho na praça para o povo assistir e ele com seus amigos subiam numa árvore e ficavam assistindo com os olhos fixos no aparelho. Para espantar “coisa ruim” eles faziam figa nos dedos, pois os mais velhos diziam que era coisa do demônio.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas a televisão, apesar das suas múltiplas vantagens em termos de lazer e informação, acabou destruindo uma extensa rede social. Os gibis foram perdendo o seu glamour, já que podíamos ver os nossos heróis diretamente na telinha, “vendo a vida mais vivida, que vem lá da televisão”, como diria o poeta. Nossos vizinhos sempre apareciam durante a semana ou no final para um cafezinho e falar de política ou sobre os últimos acontecimentos. Com a telinha se espalhando pelo bairro, os contatos diminuíram tanto que as pessoas mal se falavam. A televisão isolou as famílias no aconchego dos lares. O cinema do bairro, aos poucos foi perdendo o público e isso aconteceu também depois com os cinemas centrais. A conversa quando se encontravam não era mais sobre a família, as novidades, as receitas, as viagens. Os assuntos mais importantes vinham lá da televisão. A imagem passou a ser mais importante do que a realidade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1584887194640485317?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1584887194640485317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/09/primeira-televisao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1584887194640485317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1584887194640485317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/09/primeira-televisao.html' title='A PRIMEIRA TELEVISÃO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2010460121253952857</id><published>2011-03-05T15:43:00.000-08:00</published><updated>2011-03-05T15:45:26.912-08:00</updated><title type='text'>UMA MENINA CHAMADA MARIA QUE ABALOU O QUARTEL</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Foi no longínquo 1967 e Maria estava com pouco mais de dezesseis anos; não era bonita, nem feia, era pobre e morava, provavelmente, em algum dos muitos &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;cortiços de São Caetano do Sul, no ABC paulista. Sem muito que fazer, &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;circulava pelas imediações do Tiro de Guerra paquerando os jovens bonitos e sarados de classe média. Ninguém lhe&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;dava atenção, mas ela continuava insistindo em passearr por ali e, às vezes, ficava&amp;nbsp;no portão&amp;nbsp;observando os exercícios militares. Eram duas horas de atividades diárias, com um pequeno intervalo para um cafezinho e um cigarro, para quem fumava. Terminadas as instruções, todos saiam às pressas para o trabalho ou para estudar e nunca ninguém prestava atenção na pobre Maria.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas Maria apareceu por lá numa quente e enluarada noite de sábado. Os rapazes estavam de plantão. Seriam doze longas horas de fastio. Cada Companhia tinha a sua escala e dez ou doze rapazes eram sorteados para a triste tarefa. Como eram da mesma Companhia, todos se conheciam, o que criava condições para alguma cumplicidade com o cabo da guarda, responsável perante o sargento pela disciplina do grupo. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Com 18 anos e com alguma rara exceção, eram todos imaturos, e se deliciavam em fazer brincadeiras durante o período como urinar nas botas dos companheiros que dormiam durante o descanso. Soube que numa outra ocasião, desceram até o centro da cidade, todos carregando os velhos e inúteis fuzis de instrução. Entraram em bares e causaram bastante alvoroço, principalmente porque o país estava &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;em plena ditadura militar. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Neste&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;fatídico sábado estavam de plantão alguns garotos, muitos &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;de tradicionais famílias do local e já passava das 23 horas quando alguém convidou Maria para entrar no quartel. O sargento residente não estava, o que facilitou as coisas. A pobre menina talvez tivesse pensado que fosse passar alguns momentos com aquele moço bonito que a convidara, mas mal sabia o que a esperava. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Num aposento do andar superior, um após outro penetrava a pobre menina que não podia gritar ou reclamar, enquanto os demais ficavam de plantão para qualquer emergência. Um recruta dava o sinal para o próximo. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Terminada a farra, Maria, que sonhou uma história de amor, estava destruída, sem forças nem para andar. Colocaram-na em um carro e a abandonaram numa rua alguns quarteirões distante do quartel. Estaria tudo resolvido se uma viatura da policia não houvesse passado por lá e encontrasse a menina desmaiada na calçada. Levada para o pronto-socorro, o médico diagnosticou o caso como estupro. Depois de medicada, os policiais a levaram até o quartel onde identificou todos os rapazes, incluindo aqueles que estavam dormindo, pois não tinha condições de se lembrar dos rostos, todos muito parecidos com os cabelos com corte à americana.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;No domingo, durante o intervalo, o comentário sobre o caso se espalhava por toda a guarnição. Os sargentos estavam tensos, os colegas envolvidos mais ainda. As conseqüências pareciam trágicas para todos eles. Dois deles eram noivos, outros tinham compromissos sérios com boas moças pertencentes à famílias tradicionais da cidade. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Alguns trabalhavam em bancos ou empresas da região. Recordo-me de que havia encontrado alguns deles em um baile próximo ao quartel. Estavam planejando ir para o quartel depois do baile para&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;encontrar com a turma e nem imaginavam, o que poderia acontecer. Também esses participaram do caso, com o agravante de que não estavam de serviço na Guarnição militar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Todos eles afirmaram que a garota era uma vadia e que entrou no quartel porque quis e não foi forçada a nada.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Mas a notícia estava nas primeiras páginas dos jornais da segunda-feira e nada seria capaz de amenizar o impacto causado. O fato da garota não ter dezoito anos complicou ainda mais a situação. Todos seriam julgados por um tribunal militar por estarem engajados ou seriam expulsos e julgados pela polícia civil? A expulsão do quartel era óbvia, mas o crime continuava sendo militar. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;No domingo seguinte o comandante fez um discurso pesado, exaltando a moralidade e a disciplina militar. Os colegas envolvidos foram destacados do grupo e já sem fardas foram formalmente expulsos. Todos esperavam que um camburão da polícia estaria do lado de fora para levá-los presos, mas nada disso aconteceu. Todos voltaram para as suas casas e responderam o processo &lt;personname productid="em liberdade. O" w:st="on"&gt;em liberdade. O&lt;/personname&gt; processo se arrastou por mais de um ano e no final&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;os mais implicados foram fazer o serviço militar &lt;personname productid="em outros Estados" w:st="on"&gt;em outros Estados&lt;/personname&gt; os demais foram desligados por mau comportamento. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Algum tempo depois, já concluído o serviço militar encontrei com um deles. Tínhamos estudado no mesmo colégio e era uma pessoa bastante educada e simpática. Fomos a uma festa juntos e algumas vezes falamos sobre o episódio. Percebi que isso provocava um grande mal estar. A família da namorada o acusou de tarado e foi proibido de vê-la.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Alguns anos depois o encontrei novamente, desta vez estava numa situação deplorável. Embriagado, estava parado na porta de um bar perturbando as pessoas que passavam com palavras de baixo calão. Parei diante dele e o cumprimentei. Ao reconhecer-me ficou um pouco envergonhado por seu estado lastimável. Aos poucos consegui convencê-lo a ir até um local mais tranqüilo para tomarmos uma bebida. Durante o caminho falou sobre a merda que se transformou sua vida depois do episódio da garota. “Eu não tive culpa, todo mundo estava trepando com ela. O que eu poderia fazer?”, repetia o tempo todo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;E a pobre Maria, onde andará? No que transformou sua vida, seus sonhos e esperanças? E o restante da turma? Quase todos eles se casaram, tiveram filhos e são cidadãos respeitáveis, mas será que ainda se lembram da menina? Provavelmente não. Um deles encontrei num vôo para Manaus, aonde ele ia a trabalho como eu. Durante a viagem, falamos dos velhos tempos de serviço militar, mas sobre a pobre Maria, ele não pronunciou uma única palavra. O quente e enluarado sábado caiu no vazio do esquecimento.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2010460121253952857?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2010460121253952857/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/03/uma-menina-chamada-maria-que-abalou-o.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2010460121253952857'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2010460121253952857'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/03/uma-menina-chamada-maria-que-abalou-o.html' title='UMA MENINA CHAMADA MARIA QUE ABALOU O QUARTEL'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-178930042620410121</id><published>2011-03-01T07:25:00.000-08:00</published><updated>2011-03-16T06:23:40.474-07:00</updated><title type='text'>A BENGALA</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Francisco tinha uma bela bengala japonesa que herdou do seu avô. Era de cerejeira com cabo de prata. Com quase setenta anos de idade, ele circulava com ela orgulhoso pelos corredores da empresa. Não que precisasse da bengala para se locomover, mas por um pouco de esnobismo. Mas isso não significava que era um esnobe, apesar do sobrenome pomposo que revelava uma origem nada modesta. Ele apenas tinha saudades dos esnobismo dos velhos tempos do Rio de Janeiro quando seu avô paterno circulava por Copacabana usando elegantemente seu chapéu Panamá &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;e a bengala. Algumas vezes, contava ele, o avô o levava para saborear algumas guloseimas na Confeitaria Colombo. Era um acontecimento inesquecível, que gostava de relembrar sempre que me encontrava. Contava, também, que às vezes, o avô o deixava brincar com a bengala desde que não se afastasse muito do seu olhar, pois era muito ciumento com ela. Mas disse-lhe, claramente, que seria sua depois que partisse. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;E assim o seu Chico empurrava com lentidão os seus dias; aguardava ansioso a sua aposentadoria, quando então poderia retornar ao Rio e curtir o que havia restado da velha cidade maravilhosa. Quando saia para visitar clientes, não deixava de levar a sua velha bengala que teria quase duzentos anos, justificando que era uma boa defesa em caso do ataque de algum malandro que resolvesse se aproveitar da situação por ele ser idoso. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;Alguns funcionários mais jovens já reclamavam do velho por ser difícil trabalhar com ele, que não produzia o suficiente, que estava empregado por ser protegido por um diretor. Essa desconfiança era até plausível, pois os dois pareciam ter algum laço de parentesco, principalmente pelo jeito de falar e de andar. Protegido ou não ele não perdia a fleuma e circulava elegante com a velha bengala trazida do país do sol nascente e, vez por outra, pitava um velho cachimbo, que dizia ser um inglês autêntico.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;Num dia desses esqueceu a velha bengala em um dos veículos utilizados pelos vendedores da empresa. Ficou desesperado, pois não conseguia se lembrar onde deixara a sua relíquia. Passou o dia procurando e perguntando em todos os departamentos se alguém a havia visto. Nem sinal. Ainda o encontrei no corredor lamentando a perda com os olhos marejados.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O mistério da bengala desaparecida durou alguns dias, tornando-se um caso que subiu ao topo da hierarquia da empresa. Finalmente, o mistério foi desvendado. Um vendedor, por acaso, japonês, como a bengala, encontrou-a &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;no carro que ia usar e, por absoluta falta de sensibilidade, a jogou no recipiente de lixo juntamente com alguns jornais velhos que estavam no banco traseiro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;A história circulou pelos escritórios e todos se sensibilizaram com o velho Chico que perdera sua velha bengala que o ligava aos seus ancestrais. Lamentou&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/" name="_GoBack"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt; por vários dias, sempre contando a alguém a história&amp;nbsp;do sumiço da bengala&amp;nbsp;e sobre a maldade do colega. Classificara a atitude como insensível e desrespeitosa para com os pertences alheios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;Mas não tardou e &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;a sua aposentadoria finalmente chegou; &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;entretanto, não voltaria para o Rio de Janeiro para passear na velha Copacabana no final da tarde e aproveitar os últimos raios de sol, como planejara. A história da bengala tirou a alegria do velho, que se fechou numa tristeza de fazer pena. Num dia, que não terminou para ele, ficou debruçado sobre a mesa de trabalho e nunca mais acordou. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Na manhã seguinte o faxineiro foi avisá-lo &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;que encontrara a velha bengala. Estava no depósito que ficava ao lado da garagem, junto com vassouras e material de limpeza. Alguém a achou e &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;se esqueceu de perguntar de quem era. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Mas para o seu Chico era tarde demais. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-178930042620410121?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/178930042620410121/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/03/bengala.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/178930042620410121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/178930042620410121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/03/bengala.html' title='A BENGALA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1991225862542394530</id><published>2011-02-01T13:01:00.001-08:00</published><updated>2011-02-01T13:04:07.068-08:00</updated><title type='text'>“O ROUBO DO CELULAR”</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Contou-me um velho camarada que acordou disposto no último sábado e resolveu fazer uma visita surpresa à uma velha amizade em Piedade, cidade ao sul da capital paulista. Convocou o filho como motorista, pois é uma viagem e tanto para os seus quase 70 anos. A cidade, para quem não conhece, é bastante pacata, um povo hospitaleiro e gentil. É a própria cidadezinha qualquer que o poeta Drummond imortalizou nos seus versos. Ninguém por lá tem muita pressa, sinal de que a febre do “time is Money” ainda não chegou com tudo por aqueles recantos. As coisas em Piedade tem um ritmo próprio nem muito apressado, nem muito devagar. Trombadinhas e assaltantes são coisas estranhas e quando acontece, rapidamente, o delegado descobre que não é de Piedade, mas de alguma outra cidade vizinha ou gente da capital.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;E foi pensando no bucolismo da velha Piedade, que meu amigo acompanhado do filho aportou no lugarejo, passando antes num restaurante para não chegar de barriga vazia na casa do amigo, que não estava esperando a visita. É evidente que se chegasse com fome, a amável dona da casa fritaria uns ovos, esquentaria o feijão com arroz e estava tudo bem como reza a tradicional hospitalidade do nosso interior; mas meu amigo é orgulhoso e não gosta de dar trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;No restaurante saboreou um frango grelhado com salada e deu uma bicada na cerveja. Conversa vai conversa vem, deixou seus pertences na mesa aos cuidados do filho e foi se aliviar no banheiro (Não sei por que a gente tem mania de chamar de banheiro, um local que nunca tem chuveiro). Terminado o almoço, acertadas as contas, pegaram o carro e no caminho se deu conta de que o celular não estava com ele. O filho não reparou o celular na mesa. “Fui roubado” exclamou&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;decepcionado. “Até aqui em Piedade já tem ladrão de celular! Está tudo perdido”, foi reclamado até o destino.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Na&amp;nbsp;casa do amigo contou a história e este tratou logo de acalmá-lo lembrando que a dona do restaurante era uma velha conhecida e se o celular foi roubado lá, ela haveria de encontrar o larápio e o objeto surrupiado. “Aqui no interior a gente sabe de tudo”, disse ele com a tranqüilidade que lhe é peculiar. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Depois de colocarem a conversa em dia, relembrando as&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;antigas aventuras e desventuras, as notícias dos amigos, tocaram viola e cantaram em dueto velhas modas caipiras. Terminada a visita, foram os três à cidade e passaram no restaurante para ver se a dona tinha notícias do telefone móvel, como se diz em Portugal.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Lá chegando,&amp;nbsp;o amigo de Piedade explicou o acontecido para a dona do restaurante, que muito zangada, disparou:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt 18pt; text-align: justify;"&gt;- Ah quer dizer que foi o f.d.p. que foi cagar e derrubou o celular no vaso é seu amigo? Precisei chamar um encanador para consertar o estrago. Quero saber quem vai pagar o meu prejuízo?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O piedadense virou-se para procurar o seu amigo da capital e não viu nem rastro. Como a amiga falou muito alto ficou a impressão de que era uma discussão com ele. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Precisou se desculpar com ela e saiu sorrateiramente em meio ao movimento da casa antes que encontrasse algum conhecido. O meu amigo e seu filho, quando ouviram a conversa e já sabendo que o celular já era, deram meia volta e saíram de fininho antes que a “obra” se tornasse pública e, além disso, poderia correr o risco de pagarem a conta do encanador. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;No retorno à São Paulo foi pensando no celular e na tecnologia que permitia que &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;a sua mulher, os clientes e os chatos acompanhassem os seus passos em tempo integral, onde quer que fosse. “É, o celular está resolvendo problemas que eu não tinha antes...”, matutou. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Como o filho havia esquecido o dele em casa, estava feliz da vida, pois não recebeu nenhuma ligação desde que o maldito celular tinha ido para o esgoto. E assim aproveitou a viagem para apreciar o verde entre Piedade e Ibiúna que se espalhava até onde a vista alcançava. “Verde que te quero verde...”. E assim, recostou-se preguiçoso nos versos do poeta de Andaluzia e só acordou com o barulho infernal do trânsito de São Paulo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O seu velho companheiro de Piedade logo &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;se deu conta de que o amigo fez uma “bela cagada”. Além de perder o celular, que não devia ser dos mais baratos, ainda o deixou em maus lençóis na cidade. Voltou para casa pensando no partido-alto logo mais a noite do bar do Mineiro em que o assunto com certeza estaria &lt;personname productid="em pauta. Em" w:st="on"&gt;em pauta. Em&lt;/personname&gt; cidade pequena as notícias andam mais rápido do que na internet. Vai ser um mico daqueles. “É... quem mandou ter amigo moderno da capital?”, resmungou desacorçoado, enquanto acendia um cigarro de palha.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1991225862542394530?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1991225862542394530/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/02/o-roubo-do-celular.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1991225862542394530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1991225862542394530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/02/o-roubo-do-celular.html' title='“O ROUBO DO CELULAR”'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2440397123440609024</id><published>2011-01-22T13:07:00.000-08:00</published><updated>2011-04-19T05:00:40.984-07:00</updated><title type='text'>O FRANGO-PARATI</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;“Quem for a Ilha do Cardoso, paraíso ecológico do litoral sul de São Paulo e não &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;saborear o parati frito da bodega do seu Malaquias, na enseada da Baleia, podes crer, não conheceu a ilha. O sabor do peixe é inconfundível e o jeitinho do proprietário em prepará-lo o torna uma das melhores iguarias da culinária caiçara”. Meu amigo Dedo, antigo freqüentador da ilha sempre cantou em prosa e verso as virtudes do parati frito do seu Malaca e na última vez que fui para lá resolvi tirar a prova. Só que é longe, muito longe de onde estávamos hospedados, se é que se pode dizer hospedados na ilha. Na Ilha do Cardoso a gente não se hospeda, a gente se ajeita num canto, se acomoda. Para ficar na ilha a pessoa não pode ser luxenta, enjoada, fresca... Tem estar pronto para o que der e vier. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Como já disse&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;a bodega do seu Malaquias fica longe e bota longe nisso. São quase doze quilômetros caminhando pelas praias. Assim foram três horas de andanças, contemplando o mar, a natureza quase virgem, mas chegamos à Enseada da Baleia com a fome e a sede de anteontem. Eu já estava ouvindo o barulhinho da fervura do azeite fritando e a minha imaginação começou a colocar até o cheiro de peixe frito no ar. Era um cheiro bom, gostoso, caseiro. Foi o que aconteceu comigo na chegada à Enseada da Baleia.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas lá tivemos uma triste surpresa. O velho Malaquias havia falecido e &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;o seu neto estava tocando o negócio. O meu velho companheiro sentiu que a bodega não era a mesma sem a maestria e a presença do seu Malaquias. Lá se comia e se bebia fiado com base na amizade e confiança. Ele gostava de ver a freguesia alegre e festejando. Nada de cara feia. O bar era muito simples, mas gostoso. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;O destaque da bodega é uma foto dele com o Lula durante a campanha eleitoral de 2002, tomando uma caninha no balcão. “Quero ver o que este comunista vai aprontar lá em Brasília”, disparou&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;o Malaca depois que soube da vitória do Lula nas urnas.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Fomos chegando e perguntando se tinha alguma coisa para comer. Peixe fresco? Não. Camarão? Qual o quê. O moço estava mais preocupado em fazer chamego para a namorada do que em atender a freguesia. Só tinha mesmo as geladinhas de sempre.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A minha fome era tanta que sentia um vazio maior do que o corpo. Como não tenho gordura de reserva, comecei até sentir um mal estar. Foi então que uma moça de Sorocaba que acompanhava a gente se ofereceu para buscar alguma coisa, quem sabe parati frito numa casa vizinha. Foi num pé e voltou em outro com uma travessa fumegante e cheirosa. Não tive dúvidas. Ataquei o parati frito. Era um sabor delicioso, soberbo, senti o tempero inebriando a alma. Não tinha &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;chef &lt;/i&gt;francês que faria coisa melhor. Era uma iguaria para ser servida em jantar de posse de presidente. Meu amigo já ia abrindo a latinha de uma “loura” geladinha quando alertei:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;- Parceiro, experimente esse parati frito antes de abrir a geladinha. Você vai sentir o sabor da ceia dos deuses.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Foi aí que a moça que foi buscar a comida, avisou: “Pera aí Zeca, não é parati frito não, é frango mesmo”. Aquilo doeu fundo. Eu que sempre abominei carne de frango ou de qualquer outro &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;bicho que voa. Como é que não percebi o gosto. Como é que vai &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;ficar minha reputação de inimigo das penosas diante dos amigos que precisam mudar o cardápio na &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;última hora quando apareço para fazer uma boquinha? Uma velha amiga chegou a fazer uma tremenda encrenca numa festa&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;porque resolveu mudar o cardápio na última hora porque tinha frango. Como é que eu vou ficar diante dos amigos? Vou pagar o maior mico da minha vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas o meu companheiro de viagem, sacando a minha profunda decepção e desconforto, saiu em meu socorro:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;- Olha Zeca, pode não ser parati, mas que eu vi uns franguinhos diferentes no quintal eu vi. Deve ser um clone de peixe com frango, pois os bichinhos não tinham penas, mas escamas. Acho que deve ser um tal de frango-parati que anda na boca do povo &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;pela ilha.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Não levei muito a sério a explicação do meu amigo porque ele já tinha devorado umas cinco latinhas e de estômago vazio, mas talvez possa mesmo salvar a minha&amp;nbsp;pele. De qualquer forma para quem quiser me convidar para um rega bofe, vou adiantando: frango eu até como, mas só se for frango-parati, que só tem na Ilha do Cardoso. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2440397123440609024?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2440397123440609024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/01/o-frango-parati.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2440397123440609024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2440397123440609024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/01/o-frango-parati.html' title='O FRANGO-PARATI'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4755003926522784080</id><published>2011-01-13T12:52:00.000-08:00</published><updated>2011-12-21T09:50:56.189-08:00</updated><title type='text'>O SABOR DA GALINHA - D’ANGOLA</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Nunca mais saboreei galinha-d’angola depois que abandonei o hábito de passar as férias no interior, na casa de parentes. Na verdade nem me lembro mais do sabor dessa galinha. &amp;nbsp;Imagino&amp;nbsp; que é um pouco mais dura do que o frango comprado no mercado e tem um leve&amp;nbsp; sabor de caça (será?).&amp;nbsp; As galinhas-d’angola eram criadas nas fazendas, soltas e viviam em bandos; elas conseguem voar um pouco mais do que as galinhas comuns, empoleirando nas árvores próximas as casas. As galinhas d’angola vieram mesmo do continente africano, trazidas pelos portugueses durante a colonização e se espalharam pelo país de norte a sul e são também conhecidas por sakué ou guiné.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Quando menino ia passar as férias na fazenda de um tio no interior de São Paulo e uma das coisas que a minha memória auditiva gravou para sempre foi o “to-fraco, to-fraco”. &amp;nbsp;Fazenda sem esse som para mim não é fazenda, pois não consegue despertar em mim as sensações de férias, de natureza, de aventura, de liberdade. Minha mãe, logo depois de instalada na fazenda, já dizia: “Ah que vontade de comer galinha-d’angola”. Meu tio prometia que para o jantar ele iria providenciar. Assim, quando ia entardecendo, ele pegava a sua velha espingarda e saia para o quintal. As crianças, por medida de segurança, eram todas recolhidas na casa grande. Ouvia-se ao longe os estampidos e barulho de coisa caindo pelos lados do abacateiro. Logo depois o velho aparecia com duas galinhas-d’angola e as entregava para as mulheres na cozinha. A pontaria dele era certeira. Um tiro para cada uma gabava-se ele.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;No jantar a galinha era servida ao molho pardo ou simplesmente cozida para o regalo de minha mãe. “Não há galinha melhor do que esta. Ah! se eu pudesse criaria galinhas d’angola em casa”. É claro que isso era impossível, pois essas galinhas são meio selvagens, vivem em bandos e poderiam perturbar a vizinhança. São também mães pouco cuidadosas, não se importando muito com seus filhotes. Elas põem seus ovos sob várias camadas de palha e somente os de cima são chocados, por isso é difícil de encontrar seus ovos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Foi&amp;nbsp; ouvindo essas histórias que resolvi, nos devaneios dos meus oito anos de idade, caçar ovos de galinha de angola. Campeei toda manhã pelas proximidades da casa da fazenda até descobrir uma galinha botando. Aproximei-me cuidadosamente e fiquei a espreita até que ela saísse para apanhar os ovos, colocá-los no boné e aparecer como um heroi diante dos meus primos e&amp;nbsp;primas.&amp;nbsp; Como&amp;nbsp;a galinha&amp;nbsp;estava demorando, resolvi pegar um pau para espantá-la. Mas o pau que vi se mexeu ao tocá-lo. Não era pau coisa nenhuma, mas uma grande cobra. Escapei por pouco graças ao barulho da galinha que deixou o réptil em dúvida para qual lado daria o seu bote.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Achou os ovos? Perguntou minha prima. Ainda assustado não quis nem conversa e dei uma desculpa qualquer. Naquele dia e no que se seguiu fiquei ainda assombrado com a possibilidade de ter morrido picado por uma cobra venenosa, cujas histórias há muito ouvia falar. Contava-se que um empregado da fazenda foi picado por uma jararaca e como naquele tempo não havia carro, até arrear o cavalo e atrelá-lo à carroça, não houve tempo para chegar até a cidade,&amp;nbsp;distante dezoito&lt;metricconverter productid="18 quil�metros" w:st="on"&gt;&amp;nbsp;quilômetros&lt;/metricconverter&gt; da fazenda. O pobre homem morreu no caminho deixando mulher e filhos pequenos. Mas no jantar ninguém entendeu porque eu não comi da galinha,&amp;nbsp; mas&amp;nbsp; também não contei. Há razões que a própria razão desconhece.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Num dia desses, acompanhado&amp;nbsp;da família,&amp;nbsp;tentei resgatar o sabor da galinha de angola e fomos a um restaurante especializado em pratos africanos. A decoração era esmerada, com objetos e fotografias do velho continente. Os talheres, pratos e copos eram todos de madeira africana, conforme rezava o cardápio. &amp;nbsp;Sentamos e fomos gentilmente atendidos por uma garçonete negra vestida a caráter. “Vocês tem galinha-d’angola?” Perguntei ansioso. Ela respondeu afirmativamente e fizemos o pedido.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Logo depois a moça retornou dizendo: “Infelizmente a galinha-d’angola acabou. Vocês aceitariam outro prato? Temos...” &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Apesar da gentileza da moça, recusamos &amp;nbsp;a oferta e desistimos de comer no restaurante africano, pois o objetivo era mesmo comer a tal galinha, que eu cantava em prosa e verso.&amp;nbsp;Acabamos indo para uma casa de massas, por sugestão de minha mulher. Lá enquanto degustávamos uma deliciosa pasta à bolonhesa, fiquei refletindo sobre a distância cultural&amp;nbsp; entre a Itália, África e a galinha-d’angola preparada pela dona Isabel, mulher do meu tio, uma portuguesa trasmontana, que usou&amp;nbsp; temperos tipicamente brasileiros. Assim me dei conta de que o Brasil de minha infância está se acabando e o sabor da galinha-d’angola foi substituído por um molho tipicamente italiano.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4755003926522784080?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4755003926522784080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/01/o-sabor-da-galinha-dangola.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4755003926522784080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4755003926522784080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/01/o-sabor-da-galinha-dangola.html' title='O SABOR DA GALINHA - D’ANGOLA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-9035529967377164247</id><published>2011-01-02T12:35:00.000-08:00</published><updated>2011-01-02T12:35:07.063-08:00</updated><title type='text'>A TERCEIRA MARGEM DO RIO</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;A metáfora de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, uma obra prima do conto brasileiro, é o esquecimento ou alheamento de tudo. Uma tentativa de buscar um mundo de sonhos, de afastamento das coisas reais para viver numa outra dimensão. É a história de um homem que, sem mais, nem menos, para o estranhamento da mulher, dos filhos e dos amigos, manda fazer uma canoa, despede-se e parte para uma viagem sem retorno. Uma viagem que não é uma viagem. É um desligamento da vida, das coisas materiais, das relações pessoais.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Ele estava ali, a vista, mas distante de tudo e de todos. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;A alienação &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;é constante na literatura. &lt;personname productid="Em Rei Lear" w:st="on"&gt;Em Rei Lear&lt;/personname&gt;, de Shakespeare, o pai resolve, em vida, repartir seu reino entre suas filhas. Uma delas, a sua preferida,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;considera a sua&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;decisão insensata. Ofendido por isso, ele a deserda. No final , já demente, &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;é abandonado pelas filhas herdeiras e é amparado pela filha deserdada. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Dom Quixote de &lt;personname productid="La Mancha" w:st="on"&gt;La Mancha&lt;/personname&gt;, ao embriagar-se das novelas de cavalarias no século XVI e resolver sair pelo mundo como um cavaleiro andante, também buscou a sua terceira margem do rio para se desvincular do mundo real que o oprimia. Dom Quixote, como personagem, vivia entre o real e o imaginário e por vezes interpretando o real através das suas fantasias.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Cervantes faz uma profunda ironia com o seu personagem, pois em nossos dias, muita gente vê, tal como na época do autor, monstros em moinhos de ventos. Pessoas que se dizem abduzidas por seres extraterrenos, com visões de naves espaciais que nunca foram comprovadas. A loucura pode ser vista como positiva, quando o louco reproduz os interesses de segmentos da sociedade. Assim, muitos loucos estão na mídia, fazendo proselitismo de suas idéias religiosas, políticas ou mesmo artísticas. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O personagem de Cervantes tem um comportamento intelectualmente racional quando procura explicar a importância dos cavaleiros andantes na defesa da ordem, dos injustiçados e das donzelas desamparadas, mas quando vê o real a partir da ficção, cai em descrédito.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O seu fiel escudeiro, um mentecapto interesseiro, que mesmo tendo consciência de que o seu amo está mais para a loucura do que para a sanidade, continua insistindo em acompanhá-lo, na perspectiva de que possa algum dia receber alguma recompensa.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O escudeiro é também esperto o suficiente para enganar Quixote para evitar que este faça mais loucuras. Mas é também um insano obcecado pela ambição.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Outra obra genial que trata da loucura ou da perda do discernimento é o Alienista de Machado de Assis. O médico Simão Bacamarte, de tanto ver insanidade nos outros, acaba percebendo-se também insano. O gênio de Machado deixa &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;então a dúvida &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;se a insanidade e a normalidade não estariam tão próximas que às vezes podem se confundir na complexidade das relações humanas.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Quixote, Bacamarte e o Velho da “terceira margem do rio”, &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;não seriam personagens que vivem entre nós nas escolas, nas empresas, na política, no governo, nas ruas, nos bares? A normalidade parece ser relativa e assim pode depender do ponto de vista. Quantas vezes não refletimos sobre a sanidade de conhecidos,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;parentes e amigos? Não seria também uma atitude de modéstia refletir sobre nossos próprios atos? Isso, convenhamos, &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;é bem mais complicado, pois nossa vaidade não deixa chegar ao ponto de admitirmos que nem sempre somos normais. Normais? Afinal o que é normalidade?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-9035529967377164247?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/9035529967377164247/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/01/terceira-margem-do-rio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9035529967377164247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9035529967377164247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2011/01/terceira-margem-do-rio.html' title='A TERCEIRA MARGEM DO RIO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4777433592073206858</id><published>2010-12-21T06:26:00.000-08:00</published><updated>2011-07-25T12:40:08.701-07:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA NATALINA</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Pelo que eu me lembro, tinha vivido uns oito ou nove anos, mas foi um natal que continua colado em minha memória, como se fosse o único. Estávamos em dificuldades, principalmente porque meu pai resolveu ampliar a casa e desembocamos no Natal num canteiro de obras; o piso de terra e poeira por todos os lados. O pedreiro contratado e pago antecipadamente desapareceu, sem dar notícias. Nem móveis havia mais, pois parte deles ficou em outra casa. Papai, ajudado por mamãe tratou de montar uma mesa improvisada com uns cavaletes e tábuas da obra. Os bancos em volta da mesa eram tábuas sobre pilhas de tijolos e por isso era preciso muito cuidado para que não caíssem. Mamãe colocou um velho lençol branco sobre a enorme mesa e começou a colocar as iguarias de Natal. Era uma mesa simples, mas farta. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Neste dia meu pai chamara um senhor que morava próximo para ajudá-lo, pois até no dia de Natal ele trabalhara duro para colocar a casa em ordem, pois estava sem recursos para pagar um profissional. Esse senhor, um homem muito pobre e mal vestido carregava entulhos de um lado para outro e passou diante de nossa mesa de Natal. Parou e lançou um olhar para mesa, que para ele deveria ser a maior fartura do mundo. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Logo depois minha mãe convocou todos para almoço e lá fomos à mesa para degustar a lauta refeição. Já sentados, meu pai lembrou-se do seu Antenor que estava do lado de fora trabalhando e o convidou para o almoço. &amp;nbsp;“Não, muito obrigado, mas eu não posso aceitar”. Como não seu Antenor? Respondeu meu pai ofendido com a negativa. “Como eu posso comer aqui se os meus filhos não tem nem o que comer?” Pois então vá buscar a sua família, respondeu papai prontamente depois de consultar minha mãe com os olhos. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Ficamos angustiados, pois precisaríamos dividir nosso almoço de Natal com pessoas que não conhecíamos e também poderia ser uma família muito numerosa e a comida talvez não fosse suficiente para todos. Os nossos olhares de crianças desaprovavam o gesto magnânimo de nosso pai, mas quem ousaria contestar sua autoridade? Era mais fácil passarmos o Natal a pão e água para o regalo dos convidados do que fazê-lo mudar de opinião.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O seu Antenor mostrou um sorriso tímido e feliz e não se fez de rogado; rapidamente, foi buscar sua família. Para o nosso alívio não era tão grande, apenas duas crianças pequenas e a mulher. Ajeitamo-nos para dar lugar aos novos&amp;nbsp; comensais&amp;nbsp; e depois da oração de agradecimento dirigida por minha mãe iniciamos o almoço de Natal. Meu pai não era dado a rezas e creio e pelo que me lembro nunca foi de ir à igreja, apesar de desfrutar de uma velha e sincera amizade &amp;nbsp;com o pároco do bairro. Sempre alegava que tinha coisas a fazer, desculpando-se por não ir às missas, casamentos e batizados. Mas nunca contradizia mamãe, uma mulher profundamente católica, que obrigava &amp;nbsp;os filhos a freqüentarem a igreja, mesmo que para isso precisasse nos ameaçar com castigos. Por isso, quando alguém dava risadinhas durante as orações éramos olhados com severidade por papai que não admitia um mínimo sinal de desrespeito. Lembro-me de que ele também resolveu dizer algumas palavras após as orações. Agradeceu a Deus pela mesa farta e pela possibilidade de compartilhá-la com uma família necessitada.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O Natal como uma festa cristã representa o momento de compartilhamento do “pão” com os outros. É o sentido mais profundo de comunidade, onde todos participam da mesa,&amp;nbsp; num sentimento de pertença à espécie humana, independentemente de classes, etnias ou grupos sociais. Meu pai, mesmo sem ter uma vida religiosa formal deu-nos um exemplo de humanismo cristão e de doação, mesmo na dificuldade.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4777433592073206858?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4777433592073206858/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/12/uma-historia-natalina.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4777433592073206858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4777433592073206858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/12/uma-historia-natalina.html' title='UMA HISTÓRIA NATALINA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2580288994858959340</id><published>2010-11-26T15:37:00.000-08:00</published><updated>2011-01-13T12:40:23.288-08:00</updated><title type='text'>ALBUM DE RETRATOS  E O VELHO RIO DE JANEIRO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;﻿ &lt;br /&gt;﻿﻿ ﻿ &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;﻿ &lt;br /&gt;﻿ &lt;br /&gt;﻿﻿﻿ &lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBIo8AO5mI/AAAAAAAAAJY/lTDNvuB4rOo/s1600/DSC07875.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="150" ox="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBIo8AO5mI/AAAAAAAAAJY/lTDNvuB4rOo/s200/DSC07875.JPG" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Catete&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;﻿ &lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;﻿﻿ &lt;/div&gt;﻿﻿﻿﻿﻿﻿﻿﻿ &lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBKEEhoZ4I/AAAAAAAAAJg/FNfDRg82lfs/s1600/DSC07878.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="150" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBKEEhoZ4I/AAAAAAAAAJg/FNfDRg82lfs/s200/DSC07878.JPG" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Estrada da Gávea&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;﻿﻿﻿﻿﻿﻿﻿﻿ &lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;﻿ &lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;﻿&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;﻿﻿﻿﻿ &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;﻿﻿﻿﻿ &lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Revendo um velho álbum de retratos da família, encontrei&amp;nbsp;&amp;nbsp;uma foto&amp;nbsp;desgastada pelo tempo do meu tio Elisiário Ladeia Lobo no longínquo ano de 1929. Era mês de julho e ele&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;posava numa fotografia para enviar de lembranças para a família que residia em Araçatuba, São Paulo. Com sua letra miúda e caprichada, ele escreveu: “Para o meu bom pai, uma lembrança do seu filho na Avenida Atlântica, capital da República”. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Ele trabalhava como guarda-livros em um banco e morava na residência de um médico parente de minha avó. Guarda-livros era o nome que se dava para os contadores antigamente. Quando se contava a história lá em casa eu ficava imaginando que&amp;nbsp;ele passava os dias tomando conta de livros, um bibliotecário. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;E lá estava meu tio em branco e preto curtindo as praias cariocas&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;enquanto o crack da&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;bolsa de Nova Iorque liquidava com &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;grandes fortunas. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Milionários davam tiros nos ouvidos ante a perspectiva de ficarem pobres de uma hora para outra. No Brasil a crise ainda demorou a provocar os seus efeitos que somente ocorreram uns dois anos depois, mas uma revolução estava próxima. A política do Café com Leite &lt;personname productid="em que Minas" w:st="on"&gt;em que Minas&lt;/personname&gt; e São Paulo se revezavam no poder máximo da República estava com os dias contados. A Aliança Liberal estava se preparando para tomar o poder. Washington Luís, o “paulista de Macaé”, ainda saía a pé, de fraque e cartola, pelas ruas do Rio de Janeiro, sem o aparato de segurança que acompanha hoje um presidente. Meu tio, em cartas, contava que via sempre&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;o presidente nas proximidades do Palácio do Catete. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Washington Luís apoiou um candidato de São Paulo, deixando os mineiros revoltados, pois seria a vez deles. Getúlio, candidato da oposição, perdeu as eleições, que na época eram constantemente fraudadas. Não havia voto secreto e nem justiça eleitoral. Meu tio votou em Getúlio esperou que ele chegasse ao Rio e fosse aclamado pelo povo.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Getúlio teria amarrado os cavalos no obelisco do Rio de Janeiro, humilhando a República Velha, mas meu tio não viu, estava trabalhando.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Contou que notou pouca movimentação no Rio naquele distante&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;24 de outubro. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Minha avó preocupada com a sua segurança queria saber notícias do filho em perigo, mas meu avô, sempre bem informado pelos jornais, mesmo atrasados, dizia que era uma revolução de compadres. Ele estava certo, foi uma revolução sem tiros. A morte de João Pessoa, vice de Getúlio, na Paraíba, que foi o estopim da revolução, teria sido por&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;motivos passionais.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas a nomeação de João Alberto, um pernambucano, como interventor &lt;personname productid="em S￣o Paulo" w:st="on"&gt;em São Paulo&lt;/personname&gt; e o adiamento de uma nova constituição, deixaram os paulistas revoltados e desencadeou a guerra. Ecléa Bosi, em seu livro &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Memória de velhos&lt;/i&gt;, trás depoimentos indicando que os pobres acreditavam mais em Getúlio do que nos velhos barões do café. A história de que São Paulo queria se separar do Brasil foi uma bobagem que, provavelmente, Getúlio estimulou para isolar os paulistas, o que de fato conseguiu. Isolado, sem o apoio do seu maior parceiro, o Estado de Minas, São Paulo teve de arcar sozinho com uma guerra desigual, pois as forças federais estavam bem melhor equipadas e com um contingente seguramente maior, apesar da mobilização de todas as classes sociais do estado. Getúlio, ao adiar sine die uma nova constituição, justificava que precisava consolidar a revolução e evitar retrocessos por parte das elites arcaicas que se opunham as mudanças. É inegável que o Getúlio teve um papel importante na modernização do país, mas foi a custa de uma longa ditadura e um estado forte que se eternizou na sociedade brasileira.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Quanto ao meu tio nunca soube &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;se foi engajado ou se engajou espontaneamente nas forças federais. A verdadeira história ele deve ter levado para o túmulo. A guerra civil durou pouco tempo, mas foi o suficiente para que muitos morressem ou ficassem inválidos nas frentes de batalha e minha avó quase morresse de preocupação. Terminado o confronto militar ele voltou para casa. Era outro homem. Vivia assombrado pela guerra, ouvindo tiros de fuzis e canhões no meio da noite. Saia em disparada de cuecas pelo quintal gritando. Depois de algum tempo recuperava o controle e voltava a ser novamente um homem gentil e educado.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Pelos relatos da família, ele nunca mais teve uma vida normal. Não conseguiu mais trabalhar e passou a vida viajando de um lugar para outro sem paradeiro. Desaparecia durante longos meses ou mesmo anos, enviando para consolo da família algumas cartas e fotografias. Num dos desaparecimentos foi localizado &lt;personname productid="em Buenos Aires. As" w:st="on"&gt;&lt;personname productid="em Buenos Aires." w:st="on"&gt;em Buenos Aires.&lt;/personname&gt; As&lt;/personname&gt; cartas trocadas com o consulado brasileiro por meus avós indicavam que ele tivera um surto e não sabia mais quem era.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBGO38vKXI/AAAAAAAAAJM/s5WBPhpgXrI/s1600/DSC07873.JPG" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBGO38vKXI/AAAAAAAAAJM/s5WBPhpgXrI/s200/DSC07873.JPG" width="150" /&gt;&lt;/a&gt;A última notícia que a família teve dele, veio do Paraguai, de&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;onde escreveu dizendo que estava a negócios. Depois da morte dos meus avós, nunca mais escreveu ou deu notícias. Solteiro, desapareceu no mundo, sem deixar rastros. Ao rever as fotos, inclusive de cartões postais, recordo-me ainda menino olhando estas mesmas imagens. Ele era o “Meu tio da América”, um romântico aventureiro com muitas aventuras e desventuras, que construiu em meu imaginário um mundo um mundo que não existe mais.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBI82DJ2PI/AAAAAAAAAJc/mlPCowP_6gw/s1600/DSC07876.JPG" imageanchor="1" style="cssfloat: left; margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="150" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBI82DJ2PI/AAAAAAAAAJc/mlPCowP_6gw/s200/DSC07876.JPG" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;Arcos de Santa Tereza&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2580288994858959340?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2580288994858959340/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/album-de-retratos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2580288994858959340'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2580288994858959340'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/album-de-retratos.html' title='ALBUM DE RETRATOS  E O VELHO RIO DE JANEIRO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBIo8AO5mI/AAAAAAAAAJY/lTDNvuB4rOo/s72-c/DSC07875.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6323946246880883896</id><published>2010-11-15T05:42:00.000-08:00</published><updated>2012-01-25T11:41:55.875-08:00</updated><title type='text'>UM SUJEITO DE BEM COM A VIDA</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBENS26bLI/AAAAAAAAAJE/OmBYA0D3Y6g/s1600/DSC07870.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBENS26bLI/AAAAAAAAAJE/OmBYA0D3Y6g/s320/DSC07870.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Algumas pessoas se tornam lendárias em nossas memórias, principalmente aquelas que conhecemos em nossa juventude. É o caso do Ademir Bellucci, amigo dos tempos de faculdade. Era um sujeito de boa pinta, louro de olhos azuis, que fazia algum sucesso com as mulheres apesar de ser deficiente físico. Ele perdeu a mão quando garoto trabalhando em um açougue em sua cidade natal. Nunca se queixou com relação ao problema e ao contrário, gostava de brincar com a deficiência sem o menor constrangimento. Se alguém contava uma anedota de maneta, ele mostrava&amp;nbsp; o toco de braço e brincava com a própria desgraça. Fez isso com um amigo, o Erasmo, que chorou copiosamente ao ver que ele era maneta. As pessoas é que ficavam profundamente constrangidas com o seu defeito físico e muitas vezes ele, sem maldade, &amp;nbsp;tirava proveito dessa condição. Quando trabalhava no departamento de Estatística do Estado como estagiário, mostrava o toco e a chefe toda emocional, chegava às lágrimas quando ele contava, pela enésima vez, como aconteceu o acidente. Com isso ele sempre conseguia sair mais cedo e sem desconto nos seus vencimentos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Quando ia a um restaurante chamava o garçom e solicitava que cortasse o bife para ele. O garçom, via de regra, reagia alegando que não tinha tempo para isso com tanta gente para atender. Aí entrava o braço sem a mão&amp;nbsp; &lt;personname productid="em cena. O" w:st="on"&gt;em cena. O&lt;/personname&gt; pobre garçom pedia perdão e com lágrimas nos olhos cortava o seu bife em pequenos pedaços para que ele não tivesse dificuldades em tomar a refeição.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Mas ele não fazia sucesso apenas com as mulheres. Certa vez, um rapaz, que depois se descobriu que jogava no outro time,&amp;nbsp; se apaixonou perdidamente por ele, chegando a&amp;nbsp; se declarar ao despedir-se após deixá-lo em casa, após um encontro com a turma em um bar.&amp;nbsp; Ele não achou graça nenhuma na história e entrou em pânico, pois nunca havia imaginado que o colega fosse gay. Sendo um rapaz simples do interior, aquilo foi um choque profundo. Não teve dúvidas, foi contar para uma amiga e confidente o ocorrido, pedindo por todos os santos que ela mantivesse o segredo. Acontece que depois de alguns dias, ele mesmo não suportou a guarda do segredo e acabou espalhando a informação para mais algumas pessoas. Em pouco tempo o assunto virou tema das rodas de amigos. Entretanto, para sua surpresa, descobriu-se que era tudo armação, pois o colega era um gozador de mão cheia.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Fiquei muito tempo sem vê-lo, até que um dia, ao passar num açougue próximo do trabalho dei de cara com ele cortando bifes. Fiquei surpreso ao saber que abandonara a profissão e retornara a ocupação que lhe trouxe tantos problemas. Ele contou que tinha mais dois açougues, pois chegara a conclusão que trabalhar de empregado não tinha futuro e resolveu ser empresário e que no capitalismo o melhor mesmo é ser capitalista..&amp;nbsp; Ele se casou com uma moça muito simpática e inteligente, filha de um coronel da polícia militar. A resistência do pai da moça era grande, mas acabou cedendo à determinação da filha. Tiveram três filhos e por fim ele e o sogro se tornaram grandes amigos. Na época, ainda em plena ditadura militar, ele e a namorada participavam de grupos políticos que lutavam pela redemocratização do país e como o pai da namorada era&amp;nbsp; militar e conservador, todos temiam pela sua segurança. Mas felizmente nada aconteceu e a festa de casamento ocorreu na confortável casa do coronel com a presença de várias patentes e muito policiamento nos arredores. A família do Bellucci, gente muito humilde de Santo Anastácio, ficara distante das rodas elegantes da festa, mas ele não se sentia nem um pouco constrangido e circulava feliz entre a família da Guga e o povo humilde do interior, que eram seus familiares. “São as diferenças de classe”, dizia ele brincando.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Depois de alguns anos tive outra surpresa. Passando por Bragança Paulista, uma pequena cidade no interior, entrei numa loja de tintas para pedir&amp;nbsp; uma informação e vejo aquela mesma figura dos tempos de estudante atrás de um balcão. Já não usava barba, mas continuava com os cabelos vastos e desalinhados, sempre com a mão direita ligeiramente escondida nas costas.&amp;nbsp; Estava com minha mulher e filha, que avisadas vieram ao histórico encontro. No balcão colocamos em dia as novidades sobre os amigos comuns e familiares.&amp;nbsp; Já não era o jovem radical que queria derrubar o governo e implantar a ditadura do proletariado. Bem mais maduro, falava de negócios e investimentos, indicando que a loja estava indo bem e que em breve pretendia abrir uma filial numa cidade próxima. Marcamos um encontro no sítio onde estava morando,&amp;nbsp; para um fim de semana com muito churrasco e cerveja. O endereço e o mapa vieram comigo, mas nunca deu certo e quem sabe, mais uma vez, por acaso ou por alguma estranha artimanha do destino a gente acabe se encontrando novamente. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6323946246880883896?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6323946246880883896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/um-sujeito-de-bem-com-vida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6323946246880883896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6323946246880883896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/um-sujeito-de-bem-com-vida.html' title='UM SUJEITO DE BEM COM A VIDA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBENS26bLI/AAAAAAAAAJE/OmBYA0D3Y6g/s72-c/DSC07870.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5655191702234859461</id><published>2010-11-15T05:05:00.000-08:00</published><updated>2011-04-19T05:04:32.594-07:00</updated><title type='text'>NEGÓCIOS E OPORTUNIDADES</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Numa manhã ensolarada de primavera a campainha tocou. Era um casal bem apresentável. Ele de terno e gravata e ela vestida com uma saia e blusa bem combinadas. Pensei tratar-se de pregadores evangélicos, o que é muito comum nos fins de semana em meu bairro. Pediram-me um minuto de atenção. Dispus-me, educadamente, a ouví-los, considerando que estava de bom humor por causa do belo dia e pelas flores exuberantes do quintal. “Estamos fazendo uma oferta especial para pessoas de alto nível como o cidadão. Trata-se de um excelente lote no cemitério da Eternidade. É uma oportunidade única para pessoas que pensam no futuro”. Ao ouvir aquele discurso empolado e falso, desatei a rir. Tentei me conter, mas sem sucesso. O casal não entendeu nada e como não conseguia parar de rir, os dois deixaram um prospecto e foram embora, visivelmente irritados com a minha falta de cortesia.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Na realidade a frase do vendedor não tinha &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;nada de engraçado, mas o fato é que me lembrei de uma pitoresca&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;história contada por um tio, que era fazendeiro no interior de São Paulo. Contou-me ele, há bons tempos, que um dos colonos da fazenda apareceu para pedir-lhe um empréstimo para pagar um bom terreno que havia comprado. Meu tio quis saber mais detalhes sobre a compra, já que seu colono, um homem trabalhador e responsável, em breve o deixaria para trabalhar em sua própria terra. Mas para seu espanto, o inocente colono explicou que o terreno ficava a nada mais nada menos do que &lt;metricconverter productid="384.405 quil�metros" w:st="on"&gt;384.405 quilômetros&lt;/metricconverter&gt; da terra, mais precisamente, na lua. A história se passou em 1969, logo depois da primeira viagem&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;do homem ao satélite e um malandro resolveu aproveitar a oportunidade para fazer “bons negócios” com a repercussão do acontecimento.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Percebe o leitor que fiz uma analogia maluca entre um terreno no cemitério e um hipotético terreno na lua, o que não é de toda descabível. Um promete uma propriedade em um satélite estéril, sem atmosfera e sem água em estado líquido, cuja exploração era e ainda é impossível. O outro oferecia um terreno em que o futuro proprietário jamais tomaria posse &lt;personname productid="em vida. Um" w:st="on"&gt;em vida. Um&lt;/personname&gt; investimento para um futuro sem futuro.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Meu tio, um protestante cético com relação à ciência e a tecnologia, não teve dúvidas. Pegou a sua velha espingarda de caça e, com a autoridade que lhe era conferida por ser inspetor de quarteirão, expulsou o malandro, não sem antes fazer com que devolvesse o que já tinha arrecado dos demais.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Quanto a mim, conformei-me&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;que o negócio proposto pelo casal, apesar de funesto, era perfeitamente legal, já que numa sociedade capitalista, precisamos pagar por um pequeno pedaço de terra se quisermos ter um descanso relativamente eterno. Caso contrário a ossada é removida depois de algum tempo e despejada num depósito coletivo, chamado ossuário. Como nunca me preocupei com o que será feito do meu corpo após a morte, já deixei expressa a minha vontade de ser cremado com corpo, alma e tudo o mais que tiver direito para não correr o risco de voltar por aqui e incomodar amigos e parentes.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5655191702234859461?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5655191702234859461/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/negocios-e-oportunidades.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5655191702234859461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5655191702234859461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/negocios-e-oportunidades.html' title='NEGÓCIOS E OPORTUNIDADES'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2500567881919200297</id><published>2010-11-07T14:03:00.000-08:00</published><updated>2010-11-14T11:04:25.949-08:00</updated><title type='text'>A  DESPEDIDA DO POETA   (Delcy Thenório 1926-2010)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3Z689W90I/AAAAAAAAAIc/tf0T4T8rEXU/s1600/Delcy+e+Dedo.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="277" px="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3Z689W90I/AAAAAAAAAIc/tf0T4T8rEXU/s320/Delcy+e+Dedo.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Delcy Thenório com seu filho Edélcio Thenório&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O último encontro que tive com o poeta &amp;nbsp;Delcy Thenório, foi em sua casa em Santo André, para um café, tradição&amp;nbsp;da família&amp;nbsp;nos domingos à tarde. Foi um longo e prazeroso encontro. Conversou-se sobre tudo, até mesmo como preparar um bom café e quase todos os presentes se apresentaram como bons baristas, cada um com o seu jeito peculiar de preparar a bebida que é a preferência nacional. Até o Zeca, que todos sabem não conhecer os segredos de um bom café, deu lá os seus palpites. Boas anedotas correram soltas, sob o olhar distante da Antonieta que fingia entendê-las e esboçava um sorriso complacente. Falou-se muito de poesia e é claro, dos versos do Delcy, cuja sagacidade provocava gargalhadas descontraídas. Até o Elcio, seu filho, um bom vivant, presenteou-nos com um belo poema que compôs sobre a velha Itália. Surpreendeu a todos, ficando a leve suspeita de que os pendores poéticos são hereditários. É claro que não é a poesia em si, mas a sensibilidade para a vida, a capacidade de ver os acontecimentos, as pessoas e a natureza através de outro olhar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sei por qual razão surgiu um assunto nada agradável, a finitude da vida. Delcy, solto, alegre, descompromissado com as coisas materiais, falou sobre isso com uma descontração de fazer inveja. Disse, na ocasião, que a morte não tinha significado maior. Ele tinha o conforto de acreditar que o seu corpo era apenas algo que poderia ser jogado em qualquer lugar, pois para ele havia algo maior que continuava eternamente, independente do tempo dos homens. Confesso que senti inveja de sua convicção e pensei no conselho do Montaigne de que não devemos perder tempo aprendendo a morrer, pois quando chegar a hora vamos saber morrer direito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa longa e agradável tarde do último inverno seria uma despedida, não definitiva, para uma mudança. Delcy, logo depois, mudaria para Piedade, terra dos seus antepassados, onde viveria seus últimos anos ao lado do seu filho Edélcio e sua nora Ângela. O motivo da mudança era a saúde debilitada de sua Antonieta, que precisava de cuidados especiais, para os quais ele já não tinha mais condições físicas de prover. Seria uma nova fase de sua modesta e profícua existência, onde poderia resgatar a inspiração para voltar a escrever os seus versos e crônicas do cotidiano. Os ares de Piedade, com suas verdes colinas, os cantares descompromissados dos pássaros, sua gente simples e hospitaleira seriam seu regalo para alguns bons anos, mesmo convicto de que a vida é expressamente provisória.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dias atrás Delcy recebeu, em Piedade, um belo presente. Edson da Silva, o Zeca musicou seu poema “Quase” , inspirando-se no sambista paulistano, Adoniram Barbosa. Foi a união perfeita de um samba com sotaque da Mooca com os versos bem humorados do nosso poeta. Um presente que ele recebeu com muita alegria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas viver é muito perigoso, já dizia o Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. E foi assim que recebi um telegrama virtual do velho amigo Edélcio Thenório: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Sinto informar que faleceu hoje às 17 horas meu pai José Delcy Thenório, aos 84 anos, aqui em casa, por motivo natural. Viveu uma vida serena e impecável. Agradeço profundamente a Deus por ter sido seu filho”. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Delcy aproveitara a gostosa tarde da última sexta-feira para colher jabuticabas em um sítio vizinho na companhia de sua nora e netos. Aproveitou o passeio como se fosse o último e regalou-se com o doce azul da fruta que só dá no Brasil e foi com essa doçura que ainda impregnava seus lábios que partiu em silêncio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quero crer que em seus últimos instantes de vida tenha vindo à sua memória seus versos sobre a morte: “Não quero que vocês chorem/Rogo até que comemorem/Com estrondosas risadas/Na frigidez do velório/Rebusquem no repertório/As mais picantes piadas”. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E assim, num triste e chuvoso sábado, fui para Piedade com mais quatro amigos (Sinésio, Zeca, Saulo e Zorba) para nos despedirmos do poeta e dar conforto aos seus filhos, netos e noras. No caminho, tal qual era a recomendação do poeta, contamos muitas piadas e lembramos com carinho da grandeza do ser humano Delcy Thenório. No velório encontramos, também, o Erasmo, que se uniu a nós para co-memorar o poeta e a poesia. Lembramos também de algumas passagens de sua vida, sempre pautada pela integridade, honestidade e retidão de caráter. Soube-se que em uma de suas passagens por Sorocaba, onde a sua Antonieta está internada, recusou-se a quebrar as regras por estar fora do horário de visitas. De nada adiantou argumentar que a instituição havia liberado para que ele a visitasse em qualquer horário. “Prefiro não ter privilégios, mesmo em tal circunstância”, disse ele. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;José Delcy Thenório, autodidata, profissional zeloso e competente e, acima de tudo, poeta, cumpriu sua missão. Plantou árvores, amou, teve filhos e netos, escreveu um livro e deixou a vida com um imenso rastro de saudades. E para dar provas de que ele queria era mesmo alegria em sua despedida, dois pássaros, um “chan-chan” e o outro um “quero-quero” deram as boas vindas ao poeta no cemitério do Jardim Eterno, com seu cantar alegre e sem compromisso com coisas sérias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O resto é silêncio...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2500567881919200297?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2500567881919200297/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/morte-do-poeta.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2500567881919200297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2500567881919200297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/morte-do-poeta.html' title='A  DESPEDIDA DO POETA   (Delcy Thenório 1926-2010)'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3Z689W90I/AAAAAAAAAIc/tf0T4T8rEXU/s72-c/Delcy+e+Dedo.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7066536799095259141</id><published>2010-11-03T09:48:00.000-07:00</published><updated>2011-01-03T11:27:43.536-08:00</updated><title type='text'>CAFÉ LUÁ</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3XefvIu2I/AAAAAAAAAIY/m7mong46OWc/s1600/06112010.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" px="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3XefvIu2I/AAAAAAAAAIY/m7mong46OWc/s320/06112010.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;Trinta anos sem o Café Luá&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O pessoal da velha guarda do ABC deve lembrar com saudade do velho Café Luá, na Rua Manoel Coelho, em São Caetano, no final dos anos 70. Era um misto de um café parisiense com bar carioca dos tempos da bossa nova. A arquitetura do espaço era bem concebida, com um mezanino de onde se podia avistar o palco, onde sempre bons músicos estavam lá para proporcionar aos freqüentadores o que havia de melhor na música popular brasileira. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os cafés servidos eram sofisticados e com uma imensa variedade, atendendo aos gostos mais refinados. E não faltavam os chás que podiam ser degustados pelos abstêmios ou após uma noitada pesada quando a madrugada dava os seus últimos suspiros antes dos primeiros raios de sol penetrarem pelas amplas janelas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Zeca, sócio e idealizador do espaço era um perfeito anfitrião, estando sempre a postos para recepcionar os velhos amigos. Como o lema do Café Luá era “Até o último freguês”, isso lhe custou sérios problemas. O primeiro foi com a sua namorada, pois o Lua passou a ser um rival de peso. O segundo foi sua saúde. Zeca ficou cadavérico, parecendo um esqueleto ambulante, pois continuou suas atividades profissionais em uma multinacional. Assim, mal tinha tempo para dormir. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O velho Café Luá foi fruto de um sonho concretizado, mesmo que de forma efêmera. Zeca da Silva, depois de ter concluído a faculdade, acreditava que era preciso manter a turma unida, cantando, compondo e conversando naqueles tempos sombrios. Esse relacionamento não podia acabar depois da formatura. Era preciso aglutinar, criar laços cada vez mais profundos para que pudéssemos fazer a travessia sempre unidos, mantendo os mesmos valores que havia gerado o grupo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Recordo-me que em uma das muitas festas de aniversário o Zeca chamou alguns amigos de lado e falou sobre a sua idéia de criar um espaço cultural, onde a turma se encontraria sempre, sem precisar marcar hora ou data. Seria um espaço livre, de todos, com um violão e uma cervejinha sempre gelada. Seria sempre uma festa ou um sarau dois ou três dias por semana. A idéia entusiasmou todo o grupo que também compartilhava com a preocupação do Zeca. Tanto foi real que saímos à procura de um imóvel para alugar. Num dos imóveis visitados e quase alugado, o proprietário perguntou se a finalidade seria comercia, pois achou estranho aquele bando de jovens procurando um imóvel. O Milton Eto, ingenuamente, disse que era para a turma se reunir, cantar e discutir política. Como estávamos em plena ditadura militar, não é difícil adivinhar que o dono da corretora encerrou a conversa ali mesmo. Por outro lado, a racionalidade também começou a pesar. Como vai ser a cobrança? E se alguém não pagar, como é que fica? Quem será o responsável pelo aluguel? A idéia, por estas e outras razões não foi adiante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas o Zeca não desistiu e partiu para outro projeto: um bar no estilo dos bares cariocas dos anos cinqüenta, onde emergiram grandes talentos da música popular brasileira como Tom Jobim, Johnny Alf, Vinicius etc. Era uma tentativa de reviver, nos anos 70, o mesmo clima boêmio do Rio de Janeiro em uma cidade do ABC paulista. Será que daria certo? Ele pagou para ver e com um sócio partiu para a ação. Alugaram uma velha casa, que foi totalmente reformada e estruturada para dar lugar ao projeto boêmio. Estava criado o Café Lua, um dos mais sofisticados redutos boêmios que já existiu no ABC.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mais importante de tudo era o espaço destinado aos músicos, principalmente os amigos que teriam um lugarzinho para tocar e cantar sem a necessidade de convite. Essa era a essência do projeto do seu idealizador, que resgataria assim o seu antigo sonho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Inicialmente as coisas estavam indo muito bem, mas com o tempo foram surgindo os velhos problemas de uma atividade comercial. Os amigos nem sempre podiam freqüentar a casa da forma como gostariam, pois os preços eram um tanto salgados para manter o padrão dos serviços e produtos. Como os amigos, principalmente os músicos, não podiam freqüentar assiduamente o bar, foi preciso contratar músicos profissionais e o espaço acabou perdendo parte do romantismo inicial. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Além do pessoal do “Boca da Noite”, composto pelo Valtinho, Marcão, Salvelino, Jorginho, Lole, Itamar, Luis, Finóca e a cantora Claudia Regina, que não está mais entre nós, muita gente boa se apresentou no Café. O Oscar de Vitto, que era da turma, se apresentava esporadicamente, como amigo da casa. Saulo de Tarso, “o maior do Brasil”, foi atração exclusiva durante algum tempo. Carlinhos Kalunga, violonista, compositor e arranjador, foi também uma presença constante. Aliás, foi com o Carlinhos que aconteceu uma cena pitoresca no Café. A Isaurinha Garcia (1923-1993), cantora da velha guarda e considerada a Edit Piaf brasileira, foi convidada para cantar na casa. Para evitar transtornos de última hora, o Zeca foi buscá-la em sua casa em São Paulo, bem mais cedo. Chegando ao Luá, ela pediu uma bebida. Pensou-se em uma bebida leve, já que ela estava a trabalho. Longe disso, pediu logo um conhaque e copo cheio. E não ficou por aí. Tomou vários conhaques durante a noite, sempre em dose dupla. E a Isaurinha cantou, cantou, se emocionou, chorou e, de repente, desabou em cima do Carlinhos que a estava acompanhando ao violão. Foi um tombo espetacular, que quase colocou o músico a nocaute. Depois disso, ela ainda conseguiu cantar algumas canções sentada num banquinho. O músico ao falar sobre o episódio lembra-se que parecia um tsunami que desabava sobre ele.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas numa tarde, ao abrir a casa, o Zeca teve um choque ao ver a frase “Clube Gay” pichada na parede. Não descobriu a razão, por outro lado também não perdeu tempo em investigar, mas jogou a toalha, saindo da sociedade. Não usufruiu nada no negócio em termos financeiros, mas ganhou no prazer de ouvir bons músicos e receber os amigos. De sobra ficaram também um corpo esquelético e o stress. Tinha investido seu tempo livre e algumas economias e no final saiu como um passarinho, livre do estafante lema “Até o último freguês”, que o obrigava a sair de lá com os primeiros raios de sol. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E assim o Café Luá foi desaparecendo, pois sem a presença do principal anfitrião, a casa perdeu a sua alma se transformando em mais um bar, sem o antigo charme. Algum tempo depois deixou de ser uma casa noturna para se transformar num restaurante. Trinta anos depois, restaram na memória os bons momentos no Café Luá, onde se cultuava a melhor música popular brasileira. O burburinho nas mesas, um velho samba do Chico, a lua vigiando a noite, os amigos taciturnos e o café quente na madrugada; tudo isso ainda está presente em nossas retinas fatigadas. Acabou, sem choro, nem vela, mas ficou uma alegria triste, daquelas que sentimos ao ouvir uma bela canção numa manhã chuvosa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para o Zeca, ficou um pôster com a figura do Noel e o nome da casa, como troféu e os velhos e queridos amigos, com quem ainda hoje mantem profundos laços de amizade, compartilhando alegrias, tristezas e também bons sambas. Há também um samba de uma compositora que não conheceu o Luá, mas ouviu seus pais falarem muito dele, e que em breve será lançado em um CD. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enfim, o Café Luá é apenas um pôster na parede, mas ainda alimenta uma saudade danada dos nossos bons tempos. “Evoé Zeca da Silva, sambista, compositor e empreendedor. Durou pouco, mas foi infinito enquanto existiu”.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7066536799095259141?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7066536799095259141/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/cafe-lua.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7066536799095259141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7066536799095259141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/11/cafe-lua.html' title='CAFÉ LUÁ'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3XefvIu2I/AAAAAAAAAIY/m7mong46OWc/s72-c/06112010.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6085016838018424189</id><published>2010-10-30T17:17:00.001-07:00</published><updated>2010-11-15T04:43:13.902-08:00</updated><title type='text'>MARIA DE FÁTIMA: UMA MULHER BRASILEIRA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Maria de Fátima, não era bonita, ou melhor, dizendo, estava mesmo mais para a feiúra do que para a beleza. Era magra, quase esquelética, usava óculos de aros escuros e muito pesados. Tinha dois filhos e era casada com um policial militar. Ela estava com quase trinta anos, quando resolveu voltar a estudar e mudar sua pacata vida de dona de casa. Fez o ginásio e o curso normal à noite, pois seu sonho era ser professora primária. Foi até longe demais para as suas condições, mas tudo isso teve o seu preço. Seu marido, no início, até que tolerou a decisão da mulher, mas aos poucos começaram os conflitos. Ele a acusava de abandono do lar para arranjar amantes na escola. Para ela ficava cada vez mais difícil cuidar da casa, dos filhos do trabalho e dos estudos que não pretendia abandonar. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um outro problema a deixava em conflito. O marido, desde há muito tempo, queria apimentar a vida sexual do casal e insistia, de toda forma, que ela concordasse em praticar sodomia, o que ela abominava. Considerava isso um desrespeito à mulher. As brigas começaram a se tornar cada vez mais freqüentes, principalmente pela sua recusa em atender aos desejos do marido. Cansada da vida de casada e dos assédios do marido resolveu se separar, mas ele ficou com a guarda das crianças, dois meninos. A partir daí Fátima ficou a deriva. Livre como um passarinho. Passou a freqüentar a igreja de um padre que era ligado em movimentos políticos e sociais. Participava de passeatas, reuniões, debates, além dos programas de ação social da igreja. Passou a conviver com jovens, garotos e garotas, cujas idades variavam entre 16 a 20 anos. Fátima se soltou, liberou geral, como se dizia na época. Passou a discutir sexo com a meninada, abrindo seu coração.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Num dia foi assistir a uma peça de teatro com a garotada e foi lá que encontrou Cesar, um rapaz de uns 18 ou 19 anos, que conhecia de vista na igreja. Ficaram conversando sobre amenidades, sexo e política. Sentaram juntos no teatro e ela tão logo que pode, ela segurou a sua mão. Ele aceitou a investida e assistiram a peça de mãos dadas. Ela encostou a cabeça em seu ombro e algum tempo depois se beijaram no escurinho do teatro. Terminada a peça, houve um debate e Cesar, bastante falante, participou ativamente. Ela ficou deslumbrada em estar de mãos dadas com aquele menino brilhante, inteligente, que falava coisas que ela achava bonitas e bem colocadas, mas não tinha capacidade de dizer. No final ele foi acompanhá-la até sua casa e durante o caminho pararam várias vezes para trocarem beijos apaixonados. Fátima estava em êxtase. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Convidou o rapaz para ir à sua casa, onde morava com uma irmã também separada com os filhos. Foi lá que após todos dormirem que Fátima teve a sua primeira aventura amorosa depois da separação. A experiência foi eletrizante para uma mulher separada e romântica. Daí para frente nos encontros semanais, ela lavava a alma. Ela queria mais, muito mais, e chegou a propor que morassem juntos, mas o rapaz desconversou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Num dos encontros, precisou ir à escola onde estudara e pediu ao Cesar acompanhá-la. Aquilo foi uma tortura para ele, pois havia muitos jovens por lá, que olhavam com estranheza uma mulher com um rapaz que parecia ser seu filho. Cesar ficaria aguardando do lado de fora enquanto ela resolvia seus problemas. Quando voltou ele não estava mais lá. Nunca mais se viram. E assim acabou a primeira aventura amorosa de Maria de Fátima, sem despedidas, sem ciúmes, sem brigas. Mas ela não desanimou e continuou a freqüentar a igreja e as reuniões de jovens, sempre na esperança de seduzir outro garotão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tempos depois na mesma igreja em que freqüentava, começou uma amizade com o Evandro; conversa vai conversa vem, um novo romance. Para o Evandro, virgem até então, estava ótimo, mas ela voltou a propor uma relação mais séria, que o rapaz descartou como o anterior. Fátima não se conformou e chegou a se entregar de corpo e alma, aceitando até aquilo que recusou a vida toda com o ex-marido; mas a grande diferença de idade foi mais forte e o Evandro acabou também fugindo da relação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela manteve as suas atividades, participando de movimentos sociais clandestinos e sempre se envolvendo com rapazes bem mais jovens do que ela. Foi presa numa batida do Deops na igreja que freqüentava. Abriu a boca, entregando o nome de todo mundo que freqüentava a casa paroquial. Não deu em nada. O grupo era mais festivo do que voltado para a ação política mais séria. Foi libertada e nunca mais apareceu na igreja ou se encontrou com a turma, que a condenou por traição da causa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fátima continuou com a vida de professora primária e dona de casa, desistindo da participação política e social. Convenceu-se de que não tinha mesmo jeito para a coisa. Reencontrou-se com o ex-marido, já aposentado e também sozinho. Acertaram as contas, inclusive sobre sexo e voltaram a viver juntos e, desta vez, até que a morte os separassem. Mas essa não demorou muito tempo para chegar e Maria de Fátima partiu alguns meses depois quando foi descoberto um câncer em seu útero.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6085016838018424189?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6085016838018424189/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/maria-de-fatima-uma-mulher-brasileira.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6085016838018424189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6085016838018424189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/maria-de-fatima-uma-mulher-brasileira.html' title='MARIA DE FÁTIMA: UMA MULHER BRASILEIRA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5242903028648331584</id><published>2010-10-19T06:23:00.000-07:00</published><updated>2010-11-15T04:43:38.878-08:00</updated><title type='text'>A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A violência doméstica é uma constante em todas as camadas sociais e as residências das famílias são os locais mais perigosos para as crianças. Cerca de 30% das crianças são vítimas de maus tratos dentro da própria casa e seus algozes podem ser pai, mãe, padrastos, madrastas, tios, avós, irmãos etc. Infelizmente isso não é privilégio do Brasil. Também nos EUA e na Europa isso ocorre com freqüência quase semelhante. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A história de Helenice faz parte deste quadro estarrecedor. Ela tinha o lado esquerdo do rosto deformado por uma grave queimadura. No trabalho ninguém ousava perguntar a causa, pois todos imaginavam que falar sobre o assunto causaria um sofrimento desnecessário à moça. Assim os colegas conviveram com ela durante meses fazendo de conta que não havia nada de diferente nela. Almoçavam juntos, participavam do happy-hour e tomavam o cafezinho na cantina e nada de se falar sobre o seu rosto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas um dia, durante o almoço, sem que ninguém houvesse tocado no assunto, ela desandou a falar sobre o trágico acontecimento. A história foi a seguinte: Seus pais estavam separados e sua mãe vivia com um homem que de vez em quando desaparecia e só retornava dois ou três dias depois. Mas sua mãe era apaixonada por ele e preparava-lhe o jantar todos os dias, mesmo sabendo que ele poderia não voltar para casa. A família era muito, muito pobre e a mãe reservava para o marido um bom bife enquanto ela e as crianças se serviam apenas de arroz e feijão. Numa noite ela e as duas irmãs menores ficaram sozinhas e resolveram comer um pedaço do bife do padrasto que há dias não aparecia. Juraram que ninguém contaria para a mãe, que as ameaçava com castigos se tocassem no jantar do seu homem. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas nesta noite a mãe retornou com o padrasto e ficou furiosa com as crianças por terem comido o bife. Como ninguém denunciava quem teria sido o culpado, ela jogou álcool nos rostos das três crianças e em seguida acendeu um fósforo ameaçando atear fogo se não contassem quem havia desobedecido as suas ordens. Nisso Helenice resolveu reclamar da atitude da mãe, a qual não vacilou, jogando o fósforo em seu rosto. Percebendo que colocara em risco a vida da menina, um dos irmãos tratou logo de jogar água para evitar que o fogo se espalhasse pelo corpo todo e a levaram a um hospital. No caminho a mãe prometeu que a mataria se contasse para alguém o ocorrido. Helenice passou por várias cirurgias para recompor o rosto, mas precisaria ainda fazer uma plástica quando estivesse adulta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois do episódio ela foi morar com o pai e mesmo se encontrando eventualmente com a mãe, nunca tocou no assunto. Muito tempo depois, numa das visitas à mãe, essa lhe perguntou: “Por que está me olhando com essa cara feia?” Helenice respondeu: “Essa cara feia foi você quem me deu”. Nesse momento, em lágrimas, a mãe prometeu-lhe que lhe pagaria uma cirurgia plástica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tempos depois, com seus próprios recursos, Helenice estava com a data da cirurgia plástica marcada. No dia em que faria a internação, recebeu um telefonema de um irmão avisando que a mãe acabara de falecer. Diante da morte da mãe, Helenice desistiu de fazer a cirurgia. Por quê? Todos na mesa perguntaram. “Neste dia cheguei à conclusão de que não era mesmo para fazer a cirurgia”. A partir daí assumiu a queimadura da face como algo normal, sem traumas ou constrangimentos. “Eu sou assim mesmo e daí?”. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela satisfez a curiosidade de todos, mas uma pergunta continuou no ar: Como pode uma mãe fazer uma crueldade desta? Para Rousseau a culpa é da sociedade que torna o homem cruel, ambicioso, perverso... Para Freud nosso inconsciente é movido por pulsões de ódio, de amor, de destruição. Enfim, o ser humano é uma incógnita. Nem todos conseguem reprimir as suas pulsões selvagens. Portanto, não há amor incondicional, nem de mãe.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5242903028648331584?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5242903028648331584/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/violencia-domestica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5242903028648331584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5242903028648331584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/violencia-domestica.html' title='A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2332742399675542359</id><published>2010-10-16T08:01:00.001-07:00</published><updated>2010-10-16T08:01:54.929-07:00</updated><title type='text'>A CAMISA VERDE</title><content type='html'>A saia verde de minha mãe enroscou em uma cerca lá de casa e ela ficou desconsolada, pois gostava muito da peça. Era um linho verde de boa qualidade e muito bonito. Mas como ela era uma mulher muito prática,  olhou bem para a saia e pensou na melhor forma de aproveitá-la. “Vou fazer uma camisa para você”. Achei o máximo ter uma camisa verde e aceitei de cara o presente. Como ela mesma sabia costurar combinamos qual seria o modelo. Depois de pronta, pensei eu, poderia fazer inveja aos meus colegas palmeirenses, apesar de ser, na época, um fanático corintiano.&lt;br /&gt;A camisa ficou tão supimpa que no dia seguinte, resolvi usá-la para ir à escola. Na época, no segundo ano primário, minha  professora era muito rígida e furiosa. Ela usava um ponteiro de madeira com o qual batia nas cabeças e mãos dos alunos indisciplinados. Às vezes, em ataques de fúria, jogava até o sapato sobre as indefesas crianças. A escola era pública e da periferia de São Caetano do Sul e não havia a obrigatoriedade de utilização de uniforme, mas ela fazia questão de que todos os alunos viessem de camisa branca e calça azul. &lt;br /&gt;Não deu outra. A professora colocou a classe em fila e viu aquela camisa verde exuberante contrastando com as brancas dos demais os meninos. Ela teve um choque. Tirou-me da fila e despachou-me imediatamente para casa. &lt;br /&gt;Com oito anos de idade, achei o máximo ir para casa por culpa e graça da professora. Já fazia planos para jogar futebol ou caçar passarinhos, quando encontrei minha mãe no portão, espantada ao ver-me. Depois das explicações ela não teve dúvidas. Pegou-me pela mão e lá fui eu de volta à escola.&lt;br /&gt;Minha mãe era decidida e corajosa. Entrou na sala da diretora e passou-lhe um sermão que provavelmente ela nunca mais esqueceu, de tão contundente.  Dona Rosa assustada chamou imediatamente a professora e ordenou que eu entrasse na sala de camisa verde e tudo. Entrei constrangido e a professora muito mais. Eu havia desconstruído a sua tentativa de padronizar a vestimenta das crianças. Ela sentiu-se humilhada ao ver na classe uma camisa verde, destoando da maioria. Ela deu a aula como se eu não existisse e em nenhum momento olhou em minha direção.&lt;br /&gt;A história não ficou só nisso. Semanalmente, minha mãe me obrigava a ir de verde para a escola, mesmo que eu tivesse camisas brancas limpas e passadas. Isso foi minando a autoridade da dona Carmem,  que aos poucos foi relaxando a sua determinação de padronizar a vestimenta dos alunos  e não mais obrigou as crianças a usarem camisas brancas.&lt;br /&gt;Assim, aos oito anos, com o apoio da minha mãe, comecei a abalar as estruturas sociais. A professora, de tão arrasada, pediu transferência no ano seguinte e a comunidade se livrou de uma educadora colérica e violenta que não respeitava os direitos das crianças.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2332742399675542359?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2332742399675542359/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/camisa-verde.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2332742399675542359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2332742399675542359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/camisa-verde.html' title='A CAMISA VERDE'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5598657117049687673</id><published>2010-10-10T08:23:00.001-07:00</published><updated>2010-10-10T08:26:01.010-07:00</updated><title type='text'>MENTIRAS</title><content type='html'>“Saber mentir é um gesto de nobreza&lt;br /&gt;  pra não ferir alguém com a franqueza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Mentira não é crime,&lt;br /&gt;  é bem sublime o que se diz&lt;br /&gt;  mentindo pra fazer alguém feliz " (Noel Rosa)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentira tem perna curta, diz o adágio popular.  Será mesmo? Muitas mentiras atravessam séculos sem nunca serem desmentidas. Pois é, não foi recentemente que pesquisadores comprovaram que Joseph Stalin fez um acordo secreto com Hitler para a invasão da Polônia? Já faz mais de setenta anos e a mentira ficou embaixo do tapete todo esse tempo. Mas a verdade é que  todos mentem, uns mais outros menos. Políticos então mentem sempre que for necessário para os interesses do Estado, do poder e também pessoais. &lt;br /&gt; Maquiavel, que não era necessariamente maquiavélico, escreveu que um Príncipe deve mentir ou falar a verdade, mas ser sempre honrado. A ética do poder tem lá suas razões para permitir a mentira. O pensador florentino sabia das coisas e se baseava em exemplos históricos em que os soberanos incapazes de cometer uma mentirinha normalmente se davam mal. Para ele a ética e a moral não se aplicavam necessariamente à política. Essa teria leis próprias e sua eficácia dependeria dos resultados obtidos e não dos meios.&lt;br /&gt;Quem ainda não contou a sua mentirinha? Atire a primeira pedra aquele que passou a vida com extrema retidão só falando a verdade. Até na vida profissional a mentira é uma constante. Será que alguém pode ser ingênuo ao ponto de acreditar que um vendedor vai dizer ao seu cliente que o produto não vai ser entregue no prazo solicitado, mesmo sabendo da  impossibilidade cumprir o prometido? É evidente que não. Quando o cliente reclamar ele inventará uma desculpa bem dramática e nada de  remorsos.&lt;br /&gt; Lembro-me de uma história de um sujeito da igreja Testemunhas de Jeová que ficou sabendo, pelo cargo que ocupava numa empresa, que um importante executivo seria dispensado. Todos os envolvidos foram avisados de que se tratava de um assunto extremamente sigiloso que não poderia sair daquela sala. Para ele a mentira estava fora de cogitação, pois a sua religião proibia, em qualquer hipótese, que um dos seus membros mentisse. Ao ser questionado pelo executivo se sabia de alguma notícia sobre o seu futuro na empresa, ele relutou em responder, mas ao perceber que estaria mentindo se não confirmasse, caiu na armadilha. Resultado: os dois foram para a rua.&lt;br /&gt;Existem pessoas que nomeiam as  mentiras como omissão ao dizer: “Eu não sabia de nada”. Mas omissão é omitir a verdade e trata-se de mentira e ponto final. Dizer que não sabe de nada  é uma escapatória, quando é do conhecimento público que se sabia de tudo. Saber que alguma coisa errada está sendo feita e não coibir e depois ainda afirmar que não sabia de nada é uma dupla falta, pois foi conivente e mentiroso ao mesmo tempo. O pior de tudo, ao se perceber que não colou muito bem, é jogar a culpa nos outros. O que reputo como a pior das mentiras.&lt;br /&gt;Contou-me um amigo, a quem reputo como muito honesto, que ao vender o seu Chevrolet sedã em ótimo estado, respondeu a contragosto a uma pergunta do possível comprador: &lt;br /&gt;“Nunca foi batido?” &lt;br /&gt;“Claro que não, o carro está inteirinho”, respondeu meu amigo constrangido.&lt;br /&gt; Ouvindo a conversa, o seu filho, de uns dez anos, entrou de sola com o ar de maior sabichão.&lt;br /&gt;“Bateu sim pai. Você não se lembra que a mamãe deu uma porrada no carro?”&lt;br /&gt;Bom, é claro que não houve negócio e o meu amigo ficou na maior saia justa e rezou para que o homem fosse embora o mais rápido possível para se justificar com o filho. Dar bronca no garoto, nem pensar, pois sei que é um sujeito centrado; mas que ele chutou as paredes, isso eu tenho certeza.  E caso ele diga o contrário, sinto muito, mas não dá para acreditar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5598657117049687673?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5598657117049687673/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/saber-mentir-e-um-gesto-de-nobreza-pra.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5598657117049687673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5598657117049687673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/saber-mentir-e-um-gesto-de-nobreza-pra.html' title='MENTIRAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1605193459222092580</id><published>2010-10-05T07:27:00.000-07:00</published><updated>2010-10-15T16:40:05.438-07:00</updated><title type='text'>A MEMÓRIA</title><content type='html'>Não há nada mais extraordinário e complexo do que a memória. Somos um imenso arquivo de idéias, fatos, imagens, rancores, alegrias, odores, sons, músicas, conhecimentos, enfim, tudo o que podemos registrar através dos nossos sentidos. Ao longo de uma existência vamos construindo uma imensa biblioteca virtual. É realmente um mundo fantástico. Nossa capacidade memorizar parece ser infinita, mas com o passar dos anos, vamos gradativamente perdendo essa dádiva que a vida nos dá.&lt;br /&gt;Sem memória não somos nada. É a memória que possibilita a nossa existência como “homo-sapiens” e que tornou o ser humano um animal dominante, presente em todos os espaços do planeta. Nós somos, concretamente, a nossa memória, que foi agregando ao longo de nossa existência, a capacidade de ler, escrever, recordar informações, fatos, imagens, odores, alegrias, tristezas etc.&lt;br /&gt;Aos poucos, com o avançar da idade vamos esquecendo nomes de pessoas conhecidas com as quais temos contatos menos frequentes. Nomes de artistas, cantores, compositores, escritores, filmes e livros  desaparecem de nosso arquivo e, para resgatá-los, é preciso vasculhá-lo sem muita pressa para que possamos colocá-los em pauta novamente. Às vezes demoramos horas ou mesmo dias para recuperá-los. Parecem que estão na “ponta da língua”, mas a palavra não aparece.&lt;br /&gt;Tudo se inicia com a amnésia anterógrada, quando começamos a esquecer nomes próprios e as lembranças mais próximas: onde foi mesmo que deixei o meu relógio? Depois vem a amnésia anterorretrógrada, em que os acontecimentos dos últimos meses e anos. Finalmente vem a amnésia retrógrada que apaga todas as lembranças de uma vida inteira. Esta é a situação mais triste, pois se perde a identidade como pessoa.&lt;br /&gt;Minha mãe, com 84 anos, lembra-se de poucas coisas ou quase nada do que  acontece durante o dia ou durante a semana. Confunde quem são os netos e de quem eles são filhos. Esquece se almoçou ou tomou o café da manhã. Os filhos, os netos, passam a ser vagas lembranças. Os mais assíduos nos últimos anos são um pouco mais lembrados. Os que ficaram mais distantes perderam a primazia da lembrança. A falta de memória afeta até o sofrimento, que parece ser bem menor quando ocorrem perdas. Neste caso, menos mal, pois ela sofre menos.&lt;br /&gt;Halbwachs escreveu em Memória Coletiva que a nossa memória é também construída com as lembranças do passado com contribuições do presente. Assim, nem sempre a memória seria real, pois pode incorporar elementos que a pessoa não viveu ou presenciou. Ele tinha razão, pois já percebi que minha mãe e outras pessoas se lembram de coisas que não aconteceram realmente da forma como contam. Misturam fatos com opiniões  ou outros acontecimentos com uma coerência que sugere serem verdadeiras as lembranças, mas para quem presenciou de fato, parecem colagens. Sobre isso, o cineasta Luis Buñuel nos lembra em seu livro “Meu último suspiro”, que nossa memória é invadida sempre pela imaginação e o devaneio, e, como existe uma tentação de crer na realidade do imaginário, acabamos por tornar nossa mentira em uma verdade. &lt;br /&gt;Existem também pessoas mitomaníacas, que tem uma propensão doentia à mentira que criam tantas fantasias que acabam acreditando em suas histórias como verdadeiras, por mais absurdas ou inverossímeis que possam ser. Esse tipo de gente gasta muito tempo construindo informações para justificar as suas invenções e muitas vezes caem em contradição. Mas isso não faz com que mudem o hábito.&lt;br /&gt;Será que um dia a tecnologia conseguirá resgatar preciosas memórias através da inteligência artificial? Afirmam os especialistas como Kurzweil, que num tempo não muito distante as inteligências de pessoas de mentes brilhantes poderão ser preservadas e continuarão funcionando eternamente mesmo após os seus corpos terem desaparecido. O lado bom é que um Einstein poderia continuar desenvolvendo teorias infinitamente ou um Tom Jobim poderia compor suas canções para todo o sempre. O lado cruel é que ninguém mais precisará pensar ou criar. &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1605193459222092580?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1605193459222092580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/memoria.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1605193459222092580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1605193459222092580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/memoria.html' title='A MEMÓRIA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7562261360376460514</id><published>2010-10-01T08:52:00.000-07:00</published><updated>2010-11-12T15:23:35.004-08:00</updated><title type='text'>CINE ÁTILA, O  MEU CINE PARADISO</title><content type='html'>O CINE ÁTILA E O CINEMA PARADISO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também tive o meu cinema Paradiso, mesmo sem os encantos e a poesia de uma pequena cidade italiana, onde o diretor Giuseppe Tornatore desenvolve sua trama.  O filme traça a trajetória  de um garoto apaixonado por cinema tendo por pano de fundo uma humilde sala de exibição nos anos cinqüenta. Ali se desenvolvem vários dramas humanos, conflitos de classe, choques culturais com a influência  norte-americana através dos filmes, relações afetivas etc.&lt;br /&gt;As minhas primeiras viagens ao mundo do cinema foram em um velho pulgueiro chamado Átila, na Vila Gerty, bairro periférico de São Caetano do Sul. Pulgueiro era como se designava os cinemas mal frequentados e não muito limpos.  Lá, quase todos os domingos, eu ia com minhas irmãs mais velhas assistir às matinês. Era uma festa de emoções e surpresas. O aroma de pipoca embriagava minha mente inquieta enquanto aguardava na fila a abertura da porta que possibilitava a entrada no mundo dos sonhos.  Eram duas sessões por um preço bem camarada.  Na primeira eram exibidos os chamados seriados com os heróis da época: Rock Lane, Zorro, Hoppalang Cassidy, Roy Rogers entre outros. Às vezes também se exibia um filme de segunda linha, normalmente de curta duração. Aí vinha o intervalo, de quase meia hora, onde os espectadores aproveitavam para fumar um cigarrinho, tomar um refrigerante ou saborear  uma guloseima. Os mais velhos aproveitam esse intervalo para fazer um footing pelos corredores, observando as garotas desacompanhadas. Um olhar, um sorriso ou uma piscada de olho, eram sinais para fazer um primeiro contato e quem sabe assistir à segunda sessão de mãos dadas. Quanta emoção!&lt;br /&gt;Cresci indo nas matinês do cine Átila até que o proprietário construiu outro cinema mais próximo de minha casa,  com o nome de Real. Esse era mais amplo, com corredores largos, o que permitia um footing mais confortável. Foi lá também que assisti a primeira sessão de cinema de mãos dadas com alguma garota. Também o primeiro beijo e a primeira expulsão por comportamento inconveniente. O lanterninha era uma figura sinistra e temível e tinha poderes absolutos sobre os pobres adolescentes que se limitavam a obedecer as suas ordens. Antes da expulsão, vinha também um “sabão” do dono do cinema que perguntava o nome dos pais para possíveis comunicações que nunca ocorriam. &lt;br /&gt; Uma vez por ano, na semana santa, uma velha produção mexicana da Paixão de Cristo, cheia de emendas, era exibida com casa cheia. Eu já sabia quase de memória as falas, mas todos choravam com a crueldade dos romanos com o pobre Cristo. No final da sessão observava as pessoas com os olhos inchados e vermelhos.  Quando criança sempre pensava  que pudesse acontecer alguma coisa que impedisse a perversidade dos soldados, mas a história era sempre a mesma e acabava na crucificação.  Algum tempo depois assisti Ben-Hur, herói  romano que se aproximava de Cristo em uma das cenas e perguntava-lhe se poderia fazer algo por ele. Cristo, obviamente, recusava  a ajuda, alegando que seu sofrimento era necessário para salvar a humanidade dos seus pecados. Sinceramente nunca entendi isso e até hoje não sei se a humanidade realmente precisa ser salva de alguma coisa. &lt;br /&gt;Poucas vezes prestava atenção nos filmes na adolescência, pois nesta época mais focado nas possíveis conquistas amorosas do que nos espetáculos. Mas alguns filmes marcaram minha memória, como Um lugar ao sol, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift que foi inesquecível. Foi um filme chocante, em que um jovem  em busca da ascensão social assassina a namorada pobre e grávida. Outros foram os filmes do Hitchcock, como um corpo que cai e Janela Indiscreta, Psicose e os bons faroestes de John Ford com John Wayne.   Eram filmes antigos que eram reprisados nos cinemas de bairro por  várias vezes. Os lançamentos somente ocorriam nos cinemas do centro, como o Vitória e Max. Lembro-me de um filme grego, que numa cena, aparecia um sujeito transando com uma mulher bem mais velha. Ao ser gozado pelos amigos, ele saiu com essa: “Galinha quanto mais velha, melhor o caldo”. Achei a frase o máximo e um dia resolvi utilizá-la ao me referir a uma dona da nossa rua. Minha mãe ouviu e não gostou nada da brincadeira e fui premiado com pimenta malagueta na boca para não mais esquecer.&lt;br /&gt;  Por essa e por outras, o filme Cinema Paradiso foi um filme que deixou saudades e não sei por que razão ele não está entre os cem filmes essenciais da revista Bravo. Uma gafe imperdoável.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7562261360376460514?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7562261360376460514/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/o-meu-cine-paradiso.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7562261360376460514'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7562261360376460514'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/10/o-meu-cine-paradiso.html' title='CINE ÁTILA, O  MEU CINE PARADISO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2085552492532244396</id><published>2010-09-07T08:06:00.000-07:00</published><updated>2010-11-14T11:38:24.943-08:00</updated><title type='text'>A ROCA DE FIAR</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA6lojFIEI/AAAAAAAAAIo/r970XG_rp1s/s1600/imagens+celular+050.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA6lojFIEI/AAAAAAAAAIo/r970XG_rp1s/s320/imagens+celular+050.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Sempre que visitava antiquários, gostava de ficar observando as antigas rocas de fiar e imaginando que uma delas poderia ter sido de uma das minhas bisavós e até fiquei tentado a comprar uma para deixá-la como relíquia lá em casa. Por sorte, uma amiga de longa data, a Luci, ligou um dia desses avisando que tinha um presente para nós, que ficaria muito bem em nossa casa. Para minha surpresa, era uma roca de fiar, muito antiga, que ela ganhou de presente. Seu patrão se desfez de uma fazenda e ofereceu a ela, entre outros objetos, uma roca, que ela gentilmente nos presenteou. Hoje uma centenária roca de fiar está presente em nossa casa e, além de servir como objeto de decoração, é a alegria do Tom, meu neto, que fica encantado ao girar a roda da roca. Para ele é um divertimento quando vem nos visitar e passa algumas horas em nossa companhia. Ele grita e ri de modo a ouvir-se de longe, como se a roca fosse a máquina do mundo.&lt;br /&gt;Recordo-me, quando criança, que minha mãe contava histórias e nós nos sentávamos à beira da cama para ouví-la. Meu pai depois de alguns minutos já roncava e ela continuava tecendo velhas histórias da carochinha, emendando uma na outra, sempre cutucada pela Neusa, minha irmã mais velha. E a roca de fiar aparecia em algumas delas. A mais conhecida era a da Bela Adormecida, recontada pelos irmãos Grimm. O que é uma roca de fiar mãe? Perguntei mais de uma vez. Ela explicava, explicava e eu não conseguia entender, até quando vi numa gravura de um livro de histórias infantis que apareceu lá em casa. Mesmo assim não consegui descobrir como funcionava. &lt;br /&gt;As rocas de fiar foram inventadas na China ou na Índia há mais de 1000 anos e chegaram à Europa, provavelmente, através dos navegadores portugueses. E foram através dos lusitanos que chegaram ao Brasil colonial. É um instrumento para torcer fios para depois utilizá-los nos teares, que permaneceu praticamente igual durante séculos e séculos. Os desenhos ou fotografias de antigas rocas mostram que eram idênticas as rocas construídas no Brasil e algumas delas ainda existem em museus ou em antiquários. No Brasil, mesmo no início do século XX, ainda se utilizava as rocas para fazer fios. Naqueles tempos, antes da popularização das roupas de confecções, comprar tecidos em lojas ainda era um luxo acessível a poucos. Para a população do interior, muito distante dos centros urbanos, roupas, cobertores, redes, mantas, eram todos feitos em teares bastante rudimentares e a roca era fundamental para a obtenção dos fios. &lt;br /&gt;Minha mãe contava que a avó dela passava horas e horas na roca. Em volta dela, as mulheres conversavam, trocavam informações, fofocavam ou contavam casos; enquanto isso os maridos falavam sobre política na sala. E assim, a velha roca era como uma mídia nos idos tempos. “E o que foi feito da roca de fiar da sua avó”? “Ah! Deve ter sido dada de presente a uma das escravas de meu avô”, respondeu minha mãe. Poucas pessoas se preocupariam em guardar esse objeto para a posteridade. Quem guardou, vendeu como peça de antiguidade.&lt;br /&gt;Enquanto isso, sem suas funções originais, a nossa roca de fiar, que deve ter servido como instrumento de trabalho para várias gerações de senhoras dos confins do Brasil, ocupa seu lugar ao pé da lareira, silenciosa, como convém a um objeto de museu. Nas noites de lua cheia ouço, a altas horas, a sua roda girar. Levanto e vejo uma velhinha pedalando a roca, mas sem nenhum fio para torcer. Volto à cama em silêncio para não incomodá-la e continuo dormindo como sempre estive. Em meus sonhos, sonho que faço coisas durante o sonho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2085552492532244396?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2085552492532244396/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/09/roca-de-fiar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2085552492532244396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2085552492532244396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/09/roca-de-fiar.html' title='A ROCA DE FIAR'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA6lojFIEI/AAAAAAAAAIo/r970XG_rp1s/s72-c/imagens+celular+050.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-3839743388637327197</id><published>2010-08-28T16:17:00.001-07:00</published><updated>2011-01-03T11:34:56.848-08:00</updated><title type='text'>AS GUERRILHEIRAS</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos anos setenta conheci uma guerrilheira que utilizava o codinome Rosa. Era uma moça afável e meiga. Era alta e tinha um corpo roliço e um pouco gordinha. Eu era estudante secundarista, ainda adolescente e ela já havia iniciado uma faculdade que não me lembro qual. Entre suas leituras preferidas havia um escritor considerado reacionário, o russo Boris Pasternak, autor do romance Doutor Jhivago, que é a história de um poeta e médico que perde o encanto pela revolução depois que ela atinge a sua vida pessoal. “A vida pessoal acabou na Rússia”, era a fala de um personagem revolucionário, Stenicoff no filme homônimo. Fiquei triste ao ler o livro e descobrir que o roteirista inventou a frase. Mas até hoje não entendi porque a Rosa me emprestou um livro de filosofia do Pasternak, um escritor católico conservador, sendo ela ligada a uma corrente revolucionária chinesa, super radical.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outra que conheci era de um movimento trotskista que também acabou optando pela luta armada. Essa era feia e mesmo nos momentos de grande solidão e desânimo, não estimulava os hormônios de ninguém. Não sei o que aconteceu com nenhuma das duas. Consultei o livro Brasil Nunca Mais, reportagens e nem sinal delas. Outras mulheres que conheci nos movimentos contra a ditadura militar eram mais audaciosas e até autoritárias. Uma delas, cujo nome não me lembro, me passou uma descompostura pública por eu estar lendo um texto muito rápido para um grupo. Senti-me como um menino de escola primária levando um sabão da professora. Nunca mais apareci nas tais reuniões.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na igreja que eu freqüentava, muito mais por motivos políticos do que religiosos, porque nem mesmo o padre era muito preocupado com coisas da liturgia; mulheres e rapazes de todas as tendências por lá passavam para encontros rápidos, agendamento de reuniões, encontros clandestinos ou discussões políticas. Infelizmente eram poucas as mulheres que participavam do movimento e por isso faltavam namoradas para os rapazes engajados. As disponíveis eram sempre as mais feias, inteligentes e autoritárias. Namorar garotas alienadas, nem pensar, pois seria um retrocesso político, além do risco de abrirem a boca. Por outro lado, as muito inteligentes queriam usar os encontros em barzinhos para discutir textos de Marx, Sartre, Mcluhan etc. Outro problema era que defendíamos o sexo sem casamento e eram poucas as meninas dispostas a abrir mão da virgindade sem uma proposta segura. Achávamos que seríamos revolucionários profissionais, pois após a revolução no Brasil precisávamos percorrer toda a América Latina e fazer o trabalho que o Che Guevara deixou incompleto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha vida de estudante secundarista participante foi repleta de desencontros e gafes. Numa reunião para a eleição da diretoria da UNES, União Nacional dos Estudantes Secundaristas, na USP, fiquei tão enjoado dos debates que resolvi dar uma relaxada em um dos alojamentos de umas pessoas que conheci por lá. No meio do entra e sai, vi um cara tentando datilografar uma matriz para impressão em mimeógrafo de um panfleto. Como ele catava milho, ofereci-me para ajudar e era justamente contra o grupo ao qual eu estava envolvido, muito mais por amizade do que por afinidade ideológica. Quando vi o meu pessoal com o papel na mão, tentei disfarçar, mas alguém me entregou e foi a maior gozação, além de ser acusado de conspiração e traição ideológica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na verdade nunca me entusiasmei muito com revoluções, não por ser alienado, mais por ser realista demais. Enquanto muita gente acreditava que a revolução conduzida pelos partidos revolucionários, com o apoio do povo derrubaria a ditadura militar e instauraria uma república socialista, eu com meus botões ficava preocupado com a cabeça extremamente autoritária desses revolucionários. O estalinismo estava presente nos discursos e visão política de muita gente, seja da Ação Popular, de linha chinesa, como também de outros movimentos trotskistas e leninistas. Ficava imaginando o que esse pessoal faria caso tomassem o poder. Lembro-me de que nossa turminha foi encarregada de montar um boletim sobre o Sete de Setembro e o meu texto foi aprovado por unanimidade, mas um dos dirigentes considerou que meu texto precisava ser cortado em alguns pontos, pois revelavam visões pequeno-burguesas. Foi aí que imaginei que com esse pessoal no poder, adeus liberdade de imprensa, artística, de opinião etc. Fariam a mesma coisa que a ditadura militar, mas com a desculpa de que seria preciso impedir o avanço dos gorilas capitalistas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje temos uma ex-guerrilheira pleiteando a presidência da república e não sei por que razão, ela se parece muito com aquele pessoal que conheci nos velhos tempos. Autoritária, pragmática e inflexível. Como ela seria no poder? Seria eternamente grata ao Lula por tê-la levado ao posto mais importante da república e obedeceria as suas ordens ditadas por telefone de seu refúgio em São Bernardo do Campo? Seguiria a política liberal com foco social ou radicalizaria fazendo uma ruptura política e econômica? Alinhar-se-ia às nações hegemônicas capitalistas ou optaria por um engajamento neo-socialista latino-americano, seguindo o ideário político do Hugo Chaves e Morales? Seria flexível, tal como o Lula, no seu relacionamento com políticos tradicionais e corruptos ou os trataria de forma radical, cortando privilégios e alianças políticas nefastas? Como se comportaria com um congresso em que seu partido de base continuará sendo minoria?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essas e muitas outras perguntas são feitas por todos os analistas políticos, por empresários, cientistas políticos, oposição e simpatizantes, mas as respostas somente serão possíveis depois da posse, caso seja eleita. Se todas as previsões se concretizarem em razão do temperamento da candidata, é possível que o presidencialismo brasileiro continue sendo um velho barril de pólvora. Incapaz de negociar por sua personalidade forte e pouco flexível poderá levar o país a crises políticas sem precedentes. Aliado a isso, há a séria questão da fragilidade de sua saúde que poderá ser posta a prova diante de um cenário de conflito entre uma ex-revolucionária e um sistema político dominado por velhas oligarquias patrimonialistas, que confundem os bens públicos e os seus bolsos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As pesquisas por enquanto indicam que ela poderá vencer as eleições, pois a máquina do poder e o prestígio do Lula com freqüência têm conseguido resultados satisfatórios. Mas o mundo, provavelmente, será diferente&amp;nbsp;daquele que favoreceu amplamente o Lula, ou seja, forte crescimento da economia mundial aliado à estabilidade da moeda, déficit público reduzido, inflação sob controle etc.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-3839743388637327197?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/3839743388637327197/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/as-guerrilheiras.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3839743388637327197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3839743388637327197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/as-guerrilheiras.html' title='AS GUERRILHEIRAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7244468841160971361</id><published>2010-08-28T06:10:00.000-07:00</published><updated>2010-08-28T16:03:10.046-07:00</updated><title type='text'>O APAGÃO</title><content type='html'>De repente as luzes começaram a se apagar e a escuridão invadiu todos os espaços, esparramando-se pelas avenidas, praças, vielas, prédios e quintais como uma nuvem que desceu dos céus.  Mas aos poucos algumas pequenas e tímidas luzes foram surgindo e tive  a sensação de que voltávamos para o século XIX, antes da eletricidade ser trazida pelos ingleses. Foi como se aos poucos, depois do susto inicial, as pessoas estivessem saindo do estado de letargia ou preguiça tecnológica e começassem a buscar soluções para o caos. As velhas, antiquadas e poluidoras velas de parafina, com cheiro de velório, sempre presentes nas gavetas como lembranças de outros apagões, ganharam a cena e ajudaram as pessoas a se olharem numa outra perspectiva. Os penteados, as maquiagens, as roupas, deixaram de ter importância. O que passou a valer de verdade foram as vozes, as palavras, os gestos que se faziam presentes como num teatro de sombras. &lt;br /&gt;As ruas da Vila Madalena, reduto boêmio da cidade estavam salpicadas de pequenas luzes de velas acesas que se destacavam no negrume da noite. A lua, escondida, não deu o ar de sua graça para pratear a noite dos enamorados e poetas.  Alguns românticos saíram à rua para procurar a lua, que sorrateira, fazia um jogo de esconde-esconde entre as nuvens. Um homem de cabelos brancos e quase calvo saiu apressado com medo do caos do trânsito que já se anunciava, pois os semáforos deixaram de funcionar e deixou sobre a mesa do bar uns versos rascunhados: " Chora-Lua no cerrado, manda-chuva te contar...". Fiquei imaginando que fosse um poeta do interior que vivera nos velhos tempos das lamparinas e lampiões e se inspirara naquele momento com as lembranças da ave de rapina, de hábitos noturnos que talvez ainda habite os cerrados paulistas. Talvez ele se lembrasse dos versos rascunhados e completasse o poema ou o teria esquecido para sempre. Fiquei com aquele guardanapo na mão sem saber o que fazer com ele até que tive a idéia de entregá-lo ao garçom para que colocasse no quadro de avisos onde o poeta pudesse resgatá-lo e completar o poema. O garçom não se entusiasmou com o meu pedido, pois estava mais preocupado em evitar que algum freguês escapulisse sem pagar e o colocou no bolso. Quem teria interesse por um guardanapo de papel com algumas palavras escritas? &lt;br /&gt;A escuridão que se espalhou pela antiga vila paulistana demorou em partir e enquanto isso os boêmios inveterados aproveitavam para saborear, das mesas dos bares, a cidade escura e os bons sambas de outrora só para provar que a vida continuava, com ou sem luz elétrica. Numa mesa ao lado, alguém se lembrou que na escura paulicéia desvairada do século XIX, o poeta Castro Alves poderia ter escrito os versos: “Se existe um povo que a bandeira empresta para cobrir tanta infâmia e cobardia/ e deixa-se rolar nesta festa, de manto impuro e bacante fria” Não sei se o fato é ou não verdadeiro, mas onde há poetas, a vida está em outras dimensões, as dimensões da sensibilidade, do imaginário.&lt;br /&gt;No dia seguinte, ainda sonolento da noite boêmia e das dificuldades para chegar em casa, acordei com o noticiário sobre o apagão, que alguns preferiam chamar de black out. Culpou-se a natureza, com seus temporais. Como ela não pode se defender ficou o dito pelo não dito e vamos esperar o próximo. Quem sabe o homem da rua, desses que perambulam solitários pelos bares, descubra um pouco mais de poesia desta cidade sem ser ofuscado pela luz elétrica.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7244468841160971361?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7244468841160971361/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/o-apagao_28.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7244468841160971361'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7244468841160971361'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/o-apagao_28.html' title='O APAGÃO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-9192724785647521503</id><published>2010-08-09T18:44:00.001-07:00</published><updated>2010-08-09T18:44:38.835-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>OS ÓCULOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os óculos fazem parte das pessoas, é um objeto que integra a personalidade dos indivíduos que utilizam. O jeito de arrumá-lo no rosto, de limpá-lo, de olhar... Usar óculos torna as pessoas mais cautelosas, controladas e até mais elegantes. &lt;br /&gt;Escrevo sobre os óculos porque encontrei, ao remexer velhos papéis, velhos livros, antigas gavetas, os que pertenceram ao meu pai. Estavam velhos e desgastados pelo tempo, mas ao tocá-los senti uma vibração de quem está pegando algo vivo e não uma coisa inerte constituída de plástico, metais e lentes de cristal, além do trabalho humano, nele impregnado. Ele foi usado ao longo de muitos anos e viu muita coisa passar pelas suas lentes. Durante anos, todas as manhãs, após o café, com eles ia até o portão e observava os transeuntes, amigos e desconhecidos. Via as rugas que marcavam seus antigos companheiros, via as crianças que passavam ao colo de mães que eram filhas ou noras de seus amigos. Viu velhos conhecidos e amigos passarem em cortejos fúnebres e as velhas lentes ficaram embaçadas pelas lágrimas.&lt;br /&gt; Com eles viu pela última vez seus filhos, noras e netos. Contemplou a casa que serviu de abrigo a si e a sua companheira e filhos durante quase cinqüenta anos. As velhas paredes com várias camadas de tinta que foram se sobrepondo a cada natal, quando a pintava quando ainda tinha forças. Avaliou as partes da casa que foram ampliadas, que custaram muito suor e as parcas economias. &lt;br /&gt;Por eles seus olhos contemplaram cada almoço de natal e a mesa farta que o enchia de um orgulho quase infantil. Viu por eles as ferramentas com as quais ganhou o pão de cada dia e labutou na construção do seu lar. Com eles ajudou vizinhos e amigos emprestando as suas múltiplas habilidades, sem aceitar ou pedir nada em troca, apenas à amizade e respeito. &lt;br /&gt;Com eles viu seus filhos crescerem e darem os primeiros passos em busca da autonomia na vida, buscando seus próprios caminhos. Viu os diplomas obtidos com muito sacrifício pelos filhos e molhou-os de lágrimas de emoção ao perceber que tinha cumprido sua missão. Missão essa que nunca ninguém lhe cobrou, mas que ele tinha certeza de que fazia parte de sua existência.&lt;br /&gt;Ele também viu por eles, o último dia raiar e o último por do sol. Suas lentes o acompanharam na última caminhada pelas ruas do bairro, quando foi comprar o seu último pão, quando deu seu último cumprimento aos amigos e conhecidos que encontrou pelo caminho. Por eles observou a paisagem urbana que se modificou tanto desde quando para lá se mudou. Ao ver que desapareceram as vegetações que compunham o horizonte, hoje repleto de prédios e casas, sentiu-se num mundo estranho, em contínua mudança.  Através deles viu o seu último café fumegante na xícara antes de sorvê-lo vagarosamente, fazendo um pequeno barulho. &lt;br /&gt;Velhos óculos, antigos e saudosos olhares. Quem dera se tivessem sido registrados em suas lentes tantos momentos, alegres, tristes ou simplesmente poéticos? Mas meu olhar por eles conserva muitas lembranças, lembranças que carrego nas lentes de uma alma que não esquece e mesmo com os olhos fechados, as imagens se projetam em minhas retinas fatigadas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-9192724785647521503?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/9192724785647521503/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/os-oculos-os-oculos-fazem-parte-das.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9192724785647521503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9192724785647521503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/os-oculos-os-oculos-fazem-parte-das.html' title=''/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2722121042209670005</id><published>2010-08-01T16:17:00.000-07:00</published><updated>2010-08-01T16:18:28.339-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A MOENDA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Elisa morava na casa em frente a nossa. Meus pais achavam que ela não regulava bem da cabeça, pois falava sozinha, andava vestida de modo estranho e gostava muito de crianças. Quando eu digo que ela gostava de crianças estou me referindo a brincar como criança, conversar ou agir como tal. Uma vez ela reuniu várias crianças da rua e, para desespero dos pais,  levou todas para um longo passeio. Lembro-me que fomos até uma rodovia, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Até lá fomos passando por locais incríveis para os meus olhos de menino, que conhecia aquela paisagem de forma bem distante. Meu olhar sonhava aquelas paragens e eu pude descobrir que tudo aquilo era maior do que o meu olhar. &lt;br /&gt;Na volta, depois de algumas horas, todos cansados, mas felizes, recebemos uma repreensão dos pais, que estavam todos reunidos na esquina à espera da “raptora” de crianças. Pobre dona Elisa, precisou ouvir o que não queria do seu marido, o seu Sebastião, um homem muito sério e sisudo, pouco afeito a brincadeiras.&lt;br /&gt;Numa outra ocasião, ela convidou-nos, eu e meus irmãos, para conhecer o seu quintal. Era um pequeno espaço entre a  casa dela, que ficava nos fundos, e a casa vizinha. Para nossos olhares era um lugar fantástico, uma descoberta incrível. Naquele pequeno espaço, de mais ou menos 25 metros quadrados, dona Eliza plantava  flores, algumas árvores frutíferas, que não me lembro quais e uma touceira de cana. Havia também uma moenda, construída em madeira, para fazer garapa, que foi uma sensação. A nossa anfitriã  cortou alguns caules de cana e começou a espremê-las para preparar uma deliciosa garapa. Estávamos antevendo aquela delícia quando nossa mãe, ciosa de suas responsabilidades, passou-nos uma reprimenda e nos privou de saborear o suco de cana da dona Elisa, que ficou desconcertada. De nada  adiantou ela pedir para que minha mãe esperasse para que tomássemos a sua garapa. Minha mãe foi dura, implacável e levou-nos para casa, revoltados como convém  a crianças entre sete e doze anos.&lt;br /&gt;Passamos semanas comentando a ruindade de nossa mãe ao nos privar do pequeno quintal de nossa vizinha, que carinhosamente, nos recebeu. Minha mãe alegou que aquela moenda não era limpa e poderíamos ter ficado doentes caso tivéssemos tomado a garapa. Com certeza não acreditamos nessa história, mas com o tempo fomos esquecendo e nunca mais visitamos a dona Elisa. Aliás fomos expressamente proibidos e sabíamos que desobedecer significava o sério risco de um rigoroso castigo.&lt;br /&gt;Em algumas coisas minha mãe era inflexível e uma delas era com relação freqüentar as casas dos nossos vizinhos.  Por mais que se pedisse, ela jamais concordava em que nós brincássemos nas casas dos nossos vizinhos. Na rua era até tolerado, pois morávamos numa viela sem saída, com apenas três casas de cada lado, mas nunca nas casas alheias. Era uma obsessão da qual ela não fazia qualquer tipo de concessão. Hoje penso que a sua forma de agir a protegia contra as investidas da garotada da vizinhança em brincar em nossa casa. Ao deixar bem claro, em alto e bom tom, que não gostava que nós aborrecêssemos a vizinhança, dava um sinal claro que esperava reciprocidade.&lt;br /&gt;Mas a dona Elisa, com o seu jeito meio maluco e seu quintal repleto de segredos e surpresas, que nunca consegui desvendar, ficaram  em minha memória. Coisas como a moenda de madeira e a garapa escorrendo por um funil de lata, continuam sem solução, como uma equação mal compreendida na aula de matemática.  São coisas de adultos que as crianças não conseguem entender e eles sentem um prazer sádico em complicar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2722121042209670005?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2722121042209670005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/moenda-dona-elisa-morava-na-casa-em.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2722121042209670005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2722121042209670005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/08/moenda-dona-elisa-morava-na-casa-em.html' title=''/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4121399739869599906</id><published>2010-07-21T19:15:00.001-07:00</published><updated>2010-11-12T16:46:16.165-08:00</updated><title type='text'>SAULO DE TARSO: O MAIOR DO BRASIL</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3fDaxwOGI/AAAAAAAAAIk/QVXbLuh2gCE/s1600/saulo+e+sin%25C3%25A9sio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="237" px="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3fDaxwOGI/AAAAAAAAAIk/QVXbLuh2gCE/s320/saulo+e+sin%25C3%25A9sio.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3c5s3HdoI/AAAAAAAAAIg/WBDtFE72Rbo/s1600/saulo+2.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3c5s3HdoI/AAAAAAAAAIg/WBDtFE72Rbo/s1600/saulo+2.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele nasceu em Minas Gerais, de família grande e musical. Quase todos tocavam algum instrumento. Avós, tias, tios e ele não poderia fugir à regra. Aos nove anos já tocava cavaquinho e depois, para abraçar o violão, foi só uma questão de tempo. Mas Minas, apesar das montanhas, da couve refogada, do tutu e do torresminho, não dava mais. “Minas já não há”, disse num poema o poeta de Itabira. E por isso, a família Azevedo, de mala e cuia, não viu outra saída e, como bons mineiros, não perderam o trem. Malas de couro forradas, a mãe até a porta, os amigos até a estação e assim a família foi deixando um rastro de saudade, de lembranças, histórias e canções.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com apenas quatro anos, ele caminhou com as suas próprias pernas pela estrada poeirenta até chegar à estação de trem. A mãe contava, de cinco em cinco minutos, se todos os cinco filhos estavam lá. E foi uma viagem longa, a maior que eles já tinham feito na vida. São Paulo era um mundo novo, cheio de esperanças e oportunidades. Mas o medo provocava um vazio na barriga. Será que vai dar certo? “Deus sabe o que faz e vamos colocar nas mãos dele o nosso destino”, pensava o seu João.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A família chegou e logo se acomodou na Vila Paula, em São Caetano, mas algum tempo depois conseguiu uma casinha própria em Santo André. Os meninos foram crescendo, virando gente grande. Saulo precisou trabalhar cedo para ajudar a família, mas não via futuro nisso. Começou num armazém de secos e molhados, mas não pensava em passar a vida numa fábrica até se aposentar como a maioria dos garotos do bairro. Queria ganhar o mundo, subir nos palcos e empolgar as platéias. Sua voz era forte, bonita e afinada. Suas raízes bem brasileiras se misturaram com as músicas que encantavam os jovens do seu tempo. Elvis Presley, Paul Anka, Sedaka e depois os Beatles, já faziam a cabeça da garotada. Mesmo assim, ele não se acanhava em cantar músicas sertanejas. Estavam na sua raiz, no seu mais profundo eu. Ouvia muito Tonico e Tinoco, Luizinho e Limeira, Carreira e Carreirinho entre outros.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A turminha foi se formando. Sinésio, um paulista de Descalvado, branquelo e falante começou a freqüentar a casa dos Azevedo. Era um sujeito bem despachado. Entrava sem cerimônia na cozinha, abria as panelas e degustava os quitutes da dona Quilda. Nas redondezas conheceu também o Edélcio, nascido em Santo André, mas o pai, o seu Delcy, não escondia o seu sotaque interiorano de Ibiúna. Apareceu por lá também o Luiz Carlos, de Barra Bonita, que logo recebeu a alcunha de Erasmo pelo tamanho e semelhança com o ídolo da Jovem Guarda. Oscar, filho de um boêmio paulistano, também entrou na roda com um jeito especial de tocar violão e também uma bela voz. Enfim, era um tempo de desafios, mudanças culturais e de comportamento. Geraldo Poeta, Zhorba, Jânio e outros tantos, foram se juntando à turma. O Geraldo era o único que era engajado politicamente. Uma esquerda brava, como diz o Saulo. O grupo se envolveu com teatro, festivais e a boemia. A vida era dura para a maioria deles. Muitos batiam cartão nas fábricas e escritórios, mas depois do expediente a turma ia para os bares ou para a casa de alguém para curtir um som, compor, cantar e declamar poesia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos sonhavam com a possibilidade de mostrar o seu trabalho em festivais, na televisão e no rádio. Mas a vida era difícil, dura demais. “Quem não tem de ir pro céu, é à-toa olhar pra cima”, dizia o seu velho, seu João Mendes Azevedo, com a sua sabedoria mineira. Mas o Saulo continuava vivendo as suas paixões: música, futebol e pescaria. Ele fazia as suas escolhas e seus critérios dependiam da ocasião, da oportunidade. “A vida vale pelo prazer que ela pode proporcionar”, assim que ele ainda pensa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com os irmãos, Bacana e Batista e seu primo Daniel, montou o Quartetão, que ganhou até um contrato com a TV Paulista, depois Rede Globo. O grupo chegou a participar da gravação de uma faixa do disco Tropicália do Gilberto Gil e Caetano Velloso, seu grande orgulho. Mas muitas vezes o futebolzinho na vila era mais importante do que ir tocar na televisão. O grupo foi relaxando e ele acabou optando por cantar nas boates da cidade. Não gostava de ficar preso a compromissos. Preferia viver solto como passarinho. E foi assim que perdeu boas oportunidades no meio artístico. Sempre foi movido pelas paixões e nem sempre elas estavam no lado prático da vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Compôs belas canções com seus parceiros de longas jornadas, como "Maysa" com o Sinésio, uma homenagem à cantora logo após o seu trágico falecimento, mas nunca correu desesperado atrás do sucesso. Sucesso para ele era cantar com os amigos. Podia ser um rock, uma moda de viola ou Bossa Nova. Tudo valia a pena, pois sua alma nunca foi pequena.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ontem ele estava no palco do bar Saramandaia, onde durante muitos anos mostrou sua arte. Os amigos organizaram uma homenagem para aquele que aqueceu corações com sua voz e belas canções durante anos a fio. Nem sempre o dinheiro era suficiente para as despesas, mas cantar foi o seu jeito de sobreviver, de ganhar a vida. O prazer de ser amado pelos amigos e admiradores para ele sempre foi o suficiente. Ele guarda alguma semelhança com o grande Garrincha. Não pelo vício que dizimou com o jogador, pois nunca bebeu; mas pela inocência, pela simplicidade e, principalmente, pela falta de uma visão pragmática da vida. Para ele basta um violão, uma bola, uma vara de pescar e a companhia da esposa, dos filhos e dos amigos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O público que ele sempre quis estava diante dele. Não era um público comum. Era um público especialíssimo. Eram seus velhos amigos e companheiros de longas jornadas e amantes da música e da poesia. Eram também os filhos e netos dos seus companheiros que ouviam os pais comentarem sobre o maior cantor do Brasil. Estavam lá também a Silvia, companheira de grande valor, os filhos e netos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foram muitas canções, algumas interpretadas juntamente com seus antigos parceiros que se esforçaram para fazer bonito diante do grande interprete. As lembranças de acontecimentos pitorescos da sua vida, do seu jeito peculiar de ser, mostravam a outra faceta do artista. Um artista que não precisou da mídia para ser amado e admirado. Um humilde operário da canção que foi capaz de resgatar a solidariedade de todos num momento difícil de sua vida. Ontem ele estava lá, sentindo-se tão importante como se recebesse um Oscar pela sua carreira e com certeza ele não trocaria esta simples homenagem dos seus amigos por outra cheia de pompas na grande mídia. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele se lembrou de Minas, de suas raízes. Minas continua nele, desafiando o tempo, mesmo tendo sido adotado por São Paulo. As canções mineiras não acabam nunca neste velho bardo. As montanhas de Minas ainda fazem com que ele sonhe com as suas velhas cantigas de ninar. As montanhas mineiras podem até não existir mais, mas estarão presentes para sempre em suas canções. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas a festa não foi apenas do Saulo, como queriam os idealizadores. Foi uma festa de todos, pois velhos amigos se reencontraram. Não estavam mais solteiros nas mesas dos bares ouvindo o Saulo cantar. Desta vez trouxeram filhos e netos para a grande festa. A festa acabou, mas todos foram para casa leves e felizes como crianças, respirando poesia, amizade e solidariedade. As canções e a poesia da festa inundaram suas vidas inteiras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4121399739869599906?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4121399739869599906/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/07/saulo-de-tarso-o-maior-do-brasil_21.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4121399739869599906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4121399739869599906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/07/saulo-de-tarso-o-maior-do-brasil_21.html' title='SAULO DE TARSO: O MAIOR DO BRASIL'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TN3fDaxwOGI/AAAAAAAAAIk/QVXbLuh2gCE/s72-c/saulo+e+sin%25C3%25A9sio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5888957808780887912</id><published>2010-07-13T16:09:00.000-07:00</published><updated>2010-07-16T14:34:15.513-07:00</updated><title type='text'>COPA DO MUNDO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era ainda criança e não entendia &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;bulhufas&lt;/span&gt; de futebol, mas sabia que o Brasil estava enfrentando os seus mais ferozes inimigos. Meu pai bradava e esmurrava o radio que ficava sobre um aparador fixado na parede. Seu rosto ficava vermelho e tenso e dava a impressão de que teria um surto a qualquer momento. Enfim, terminada a partida, ele se sentiu aliviado e ria como uma criança que ganha um novo brinquedo. Era um dia bonito e ensolarado de inverno e todos os vizinhos saíram para a rua para comemorar. Alguns soltaram fogos e o compadre do papai, seu &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Luiz&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Marson&lt;/span&gt;, havia feito um belo balão verde e amarelo para soltá-lo depois da vitória na final. O balão subindo foi apoteótico. Todos vibraram e acompanharam o balão até que ele desaparecesse no céu azul.&lt;br /&gt;Meu pai contava histórias sobre a copa de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai na final, em pleno &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;Maracanã&lt;/span&gt;. Lá em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;Lavínia&lt;/span&gt;, interior de São Paulo, meu tio &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;Agripino&lt;/span&gt; atirou o rádio no meio do mato de tão furioso que ficou. Infelizmente esse tio morreu sem ver a grande desforra de 1958.&lt;br /&gt;Só sei que a partir daquela copa virei um torcedor fanático da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;seleção&lt;/span&gt; canarinha e queria saber tudo sobre o esquadrão de ouro composto por &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;Gilmar&lt;/span&gt;, De &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;Sordi&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Bellini&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;Nilton&lt;/span&gt; Santos, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;Zito&lt;/span&gt; e Orlando. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;Garrincha&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;Didi&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Vavá&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;Pelé&lt;/span&gt; e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Zagallo&lt;/span&gt;. Já fazia as contas para a próxima copa que seria no Chile. Em 1962, algumas horas depois, assistíamos aos jogos pela televisão. Não era a mesma coisa do que ver ao vivo, mas dava para curtir os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;eletrizantes&lt;/span&gt; dribles do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;Mané&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;Garrincha&lt;/span&gt;, entortando os adversários de forma impiedosa. Era uma alegria só. Ia para um lado, o adversário ia para o outro. Era uma humilhação que enchia nossos corações de alegria e patriotismo. Éramos nós que estávamos representados pelas pernas tortas daquele monstro sagrado do futebol. O &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;Pelé&lt;/span&gt; estava contundido e não foi possível repetir a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;dobradinha&lt;/span&gt; de 1958, quando os dois craques emocionaram os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;gringos&lt;/span&gt; nos campos da Suécia.&lt;br /&gt;Em 1970 estava dividido entre o amor pela pátria e o ódio dos ditadores. O general &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;Médici&lt;/span&gt; era um ardoroso torcedor da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;seleção&lt;/span&gt; e para mim parecia claro que os militares usariam a possível vitória para alienar o povo com aquele slogan fascista do “Ame-o ou deixe-o”. Resisti o quanto pude e procurei não assistir aos jogos para não cair em tentação. Mas a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;seleção&lt;/span&gt; jogou muita bola. As jogadas de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;Pelé&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;Rivelino&lt;/span&gt; e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;Jairzinho&lt;/span&gt; eram impagáveis e na final eu estava lá torcendo com toda a família. Meus amigos do movimento estudantil, mais radicais do eu, estavam torcendo contra a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;seleção&lt;/span&gt; para que os militares não usassem a vitória como trunfo da ditadura.&lt;br /&gt;Depois da vitória, com o coração alegre e solto, fui para o centro da cidade para espairecer. A festa ganhava as ruas. O povo dançava, pulava e gritava. Homens, mulheres, jovens e crianças faziam a festa, era uma catarse total. Eis que vejo meus companheiros de luta contra a ditadura militar: &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;Paulon&lt;/span&gt;, Alemão, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;Rubinho&lt;/span&gt; e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_32"&gt;Zoca&lt;/span&gt;, sambando e gritando, como crianças. Também eles haviam sido cooptados pela alegria do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_33"&gt;esporte&lt;/span&gt; mais popular do país. O imaginário de nação, de povo, falou mais forte. As emoções construídas durante toda a infância ouvindo e cantando o hino nacional junto com o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_34"&gt;hasteamento&lt;/span&gt; da bandeira, chegavam à flor da pele e era impossível escondê-las sob mantos ideológicos.&lt;br /&gt;Depois do jejum de doze anos, eis que uma nova &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_35"&gt;seleção&lt;/span&gt; entusiasma. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_36"&gt;Zico&lt;/span&gt;, Falcão, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_37"&gt;Eder&lt;/span&gt; e Sócrates, principalmente o último, um jogador consciente que lutava pela democracia dentro dos clubes, representavam o resgate do futebol arte, com toques belos toques de bola. A derrota para a Itália doeu fundo. Amanheci de cabeça inchada e prometi que nunca, nunca mais torceria com tanto entusiasmo e paixão.&lt;br /&gt;Assim procurei me convencer de que a associação entre futebol, que tem um conteúdo emocional muito forte como &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_38"&gt;esporte&lt;/span&gt; e a identidade nacional é uma carga explosiva para os corações já envelhecidos. A &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_39"&gt;idéia&lt;/span&gt; de nação é uma utopia construída pelos estados modernos. Tinha um sentido mais claro durante as lutas pela &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_40"&gt;autodeterminação&lt;/span&gt; dos povos, mas depois perderam o sentido original. Todos sabem que o povo brasileiro é um conceito &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_41"&gt;abstrato&lt;/span&gt;, pois não se pode dizer que os nossos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_42"&gt;caboclos&lt;/span&gt; dos profundos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_43"&gt;grotões&lt;/span&gt; do Brasil, são os mesmos brasileiros que compõem a classe média paulistana. A &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_44"&gt;idéia&lt;/span&gt; de nação é muito mais emocional do que racional. E viva para as emoções!&lt;br /&gt;Mas o futebol, um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_45"&gt;esporte&lt;/span&gt; que seduziu grande parte da humanidade e se transformou numa grande indústria, movimentando &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_46"&gt;bilhões&lt;/span&gt; de dólares, transformando num passe de mágica, jovens simples em celebridades milionárias, está perdendo os seus encantos originais, mesmo com todo o empenho da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_47"&gt;mídia&lt;/span&gt; em resgatar o orgulho nacional enferrujado. Os jogadores não são mais os nossos vizinhos, os nossos compatriotas; são agora cidadãos do mundo globalizado, distanciados da realidade dos seus países de origem.&lt;br /&gt;Mas enfim a copa de 2010. Não senti as mesmas emoções do passado. Não tinha ídolos. Os grandes craques não estavam presentes. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_48"&gt;Ronaldinho&lt;/span&gt; Gaú&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_49"&gt;cho&lt;/span&gt;, mesmo numa fase não muito boa, poderia desequilibrar o futebol mecânico das  &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_50"&gt;seleções&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_51"&gt;européias&lt;/span&gt;. As promessas jovens como &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_52"&gt;Neymar&lt;/span&gt; e Ganso, ficaram fora sob a alegação de que não tinham muita experiência. Faltou a coragem do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_53"&gt;Feola&lt;/span&gt;, que em 1958 colocou um menino de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_54"&gt;dezessete&lt;/span&gt; anos para jogar. Ele encantou o mundo.&lt;br /&gt;Um amigo músico da Banda &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_55"&gt;Sinfônica&lt;/span&gt; de São Paulo nos convidou para assistir a apresentação da banda sob a batuta de um competente maestro espanhol e depois assistir o jogo em sua casa. Era o jogo do Brasil e Costa do Marfim. De todos os presentes, somente um chegou a vibrar com os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_56"&gt;gols&lt;/span&gt;. Os demais fizeram gestos mecânicos sem grandes emoções. Enquanto os fogos e as &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_57"&gt;vuvuzelas&lt;/span&gt; faziam alarde do lado de fora, tomamos um gostoso café com bolo, falando de coisas do espírito, de saúde e trivialidades. E o futebol? Ora o futebol! &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5888957808780887912?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5888957808780887912/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/07/copa-do-mundo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5888957808780887912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5888957808780887912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/07/copa-do-mundo.html' title='COPA DO MUNDO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2136487682751219494</id><published>2010-07-09T12:26:00.000-07:00</published><updated>2010-07-14T06:59:37.995-07:00</updated><title type='text'>O BAR DO XANDÓCA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TD3BjLElgcI/AAAAAAAAAGs/21XAvdQPIxg/s1600/DSC_0489.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5493759930473480642" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 495px; CURSOR: hand; HEIGHT: 262px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TD3BjLElgcI/AAAAAAAAAGs/21XAvdQPIxg/s320/DSC_0489.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Thenório&lt;/span&gt;, com os seus cabelos brancos encaracolados e seu sorriso simpático, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;pitava&lt;/span&gt; o seu cigarro de palha e de vez em quando tomava um trago de cachaça à base de pitanga, que ele mesmo preparava. Sentado ao lado da lareira, observava o movimento dos cães e das pessoas que circulavam pela casa, quase sempre com visitas que vinham para ouvir os seus velhos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;causos&lt;/span&gt; ou ouvi-lo tocar violão e cantar as suas belas canções. “As canções são eternas. Depois que caem no domínio público, alcançam a eternidade. A mesma sorte não tem a literatura e tampouco a pintura. A pintura é &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;efêmera&lt;/span&gt; como os bambus”, dizia para uma pequena &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;platéia&lt;/span&gt; atenta e interessada em ouvir os seus comentários.&lt;br /&gt;Ao falar sobre pintura, uma mulher que o visitava e que estava olhando um pequeno quadro na parede, perguntou: “Onde o senhor conseguiu este quadro?”. Era uma pequena pintura a óleo de um velho amigo que há tempos não via e nem sabia se ainda vivo estava. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;Thenório&lt;/span&gt; levantou-se e reviu o quadro empoeirado e já desgastado pela &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;umidade&lt;/span&gt; e pelas traças. Demorou-se para se lembrar do quadro e sobre o que representava. A memória já um pouco fraca, foi aos poucos emergindo em meio ao emaranhado escurecido da poeira do tempo. Era um antigo bar de beira de estrada, com duas portas pequenas e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;propagandas&lt;/span&gt; de antigas bebidas estão na parede desgastada pelo tempo. Era possível ver traços de pessoas na porta e dentro da bodega. O estabelecimento pertencia ao &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;Xandóca&lt;/span&gt;, um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;caiçara&lt;/span&gt; que viveu na Barra do Una e era onde ele e sua antiga turma de estudantes &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;acampavam&lt;/span&gt; pela praia ainda pouco &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;frequentada&lt;/span&gt; do lugar. Lá o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;Saulo&lt;/span&gt; de Tarso, um talentoso cantor e instrumentista, tocava violão e a turma cantava belas canções até o dia amanhecer. Viajavam para lá em fins de semana prolongados e se esqueciam da vida, das responsabilidades, dos empregos, das dívidas, dos trabalhos escolares e de horários. Lá se vivia numa liberdade total, pelo menos até o dia do retorno, quando era preciso pegar a estrada e voltar para a neurose como se dizia na época.&lt;br /&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;Thenório&lt;/span&gt; viajou através do quadro e recordou-se do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Xandóca&lt;/span&gt;, do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;Catraca&lt;/span&gt;, do Heitor, do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Paco&lt;/span&gt;, todos personagens da Barra. A turma de estudantes era muito grande e nem sabia se todos ainda estavam vivos. Mas quando já estava começando a sentir nos pés o calor das areias claras da praia, a mulher o chamou à realidade para perguntar se ele conheceu o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Xandóca&lt;/span&gt;, pois era seu primo e sua mãe havia nascido lá. Ela mesmo morou na Barra quando criança e naqueles tempos ia para lá a cavalo com sua família para visitá-lo, pois moravam numa cidade não muito distante do litoral. O velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;Thenório&lt;/span&gt; ficou comovido e algumas lágrimas brotaram dos seus olhos maltratados pelo tempo. “Pois é, dona, não só conheci o bar como também o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;Xandóca&lt;/span&gt;, que vendia cerveja e cachaça fiado para gente. Fizemos muito partido alto para aquele &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;caiçara&lt;/span&gt;. Esse quadro foi pintado por um dos amigos que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;ia para lá sempre&lt;/span&gt; com a gente. Não pintava por profissão, mas apenas para registrar alguns momentos da vida”, disse &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;Thenório&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;A mulher sentiu-se feliz ao rememorar com o anfitrião as velhas histórias da Barra do Uma, uma vila de pescadores que tinha seus encantos, com as casas simples, de paredes caiadas que faziam doer os olhos, as quais conviviam com algumas mansões a beira da praia. O bar do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;Xandóca&lt;/span&gt; era mais &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;povão&lt;/span&gt;, muito simples e era &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;utilizado &lt;/span&gt;pela população nativa e campistas. A mulher sentiu-se feliz por estar mais próxima do velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;Thenório&lt;/span&gt; e por ter &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;compartilhado&lt;/span&gt; pessoas, paisagens e acontecimentos que para ela pareciam tão distantes.&lt;br /&gt;Com essa história, o velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;Thenório&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;refletiu&lt;/span&gt; que não somente as canções são eternas. As imagens também podem ser, mesmo que vivam apenas na memória das pessoas. Um pequeno quadro, sem grandes qualidades artísticas, foi capaz de resgatar velhas lembranças e unir pessoas que pareciam tão distantes. O pincel como a pena, são a lingua da alma, como diria Dom Quixote.&lt;br /&gt;No dia seguinte ele tratou de limpar o quadro, por uma moldura nova e colocá-lo num lugar de destaque em sua casa. Queria que o quadro fosse visto todos os dias para não esquecer mais da querida turma e assim alimentar sua alma com as boas lembranças que o velho bar do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;Xandóca&lt;/span&gt; trouxe para suas retinas fatigadas. Quanto ao pintor, passou a madrugada tentando localizá-lo, mas os endereços e telefones mudaram. Quando os primeiros filetes de luz começaram a invadir sua casa ele percebeu que o tempo havia passado e teria que se contentar apenas com as velhas recordações, um quadro na parede e o aperto no coração que parecia doer, mas era de alegria. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2136487682751219494?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2136487682751219494/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/07/o-bar-do-xandoca.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2136487682751219494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2136487682751219494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/07/o-bar-do-xandoca.html' title='O BAR DO XANDÓCA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TD3BjLElgcI/AAAAAAAAAGs/21XAvdQPIxg/s72-c/DSC_0489.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7390855881864126729</id><published>2010-06-26T10:04:00.001-07:00</published><updated>2010-06-27T16:34:32.753-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;MEU PRIMO JOÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha infância o primo João era um herói. Um herói de verdade, de carne e osso, com as suas qualidades, defeitos e contradições. Ele sempre esteve envolvido em aventuras e desventuras. Às vezes vivia nas nuvens, outras na vida real. Lembro-me de que um dia apareceu em nossa casa sobre uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Harley&lt;/span&gt; Davidson, a lendária motocicleta norte-americana, hoje ainda desejo de consumo de muita gente. Havia chegado de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Araçatuba&lt;/span&gt;, interior de São Paulo, percorrendo mais de 600 km. Contava que havia sido uma viagem cheia de imprevistos, perseguições, acidentes e muitos perigos pelo caminho. As histórias que lembram o filme americano Rota 66. Tudo acontecia com ele. Amores impossíveis, episódios de valentia e as fugas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;espetaculares&lt;/span&gt;, como a de uma festa em que todos os rapazes da cidade, enciumados, cercaram a casa para pegá-lo. Ele, com a ajuda de algumas garotas, saiu pelo telhado e saltou sobre sua moto e disparou por um cafezal. A moto, já bem velha, quebrou várias vezes pelo caminho e ele com suas aptidões de mecânico, herdadas do pai, conseguia fazer os reparos, sempre de forma genial e improvisada.&lt;br /&gt;Minha mãe pegou uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;carona&lt;/span&gt; na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;garupa&lt;/span&gt; do sobrinho para ir ao trabalho. Esse dia foi &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;inesquecível&lt;/span&gt; para ela que diariamente pegava um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;ônibus&lt;/span&gt; velho e barulhento para ir de São Caetano até a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;Mooca&lt;/span&gt; onde trabalhava nos anos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;cinqüenta&lt;/span&gt;. Durante meses e anos ela contava a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;eletrizante&lt;/span&gt; aventura de rodar a cem por hora nas avenidas pelas avenidas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;paulistas&lt;/span&gt; na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;garupa&lt;/span&gt; de uma motocicleta.  Soube depois que na volta, trocou a moto por um caminhão e aproveitou a viagem para fazer um carreto. Desde muito jovem já tinha faro para os negócios.&lt;br /&gt;O João serviu a aeronáutica no Rio de Janeiro, onde moravam seus avós maternos e de lá mandou uma foto com roupa de soldado que para nós era de capitão. E ele não deixava por menos e contava que pilotava aviões escondido do comandante. Numa dessas vezes teria sobrevoado o Rio de Janeiro, o que lhe valeu alguns dias no xadrez do quartel. Verdade ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;invencionice&lt;/span&gt;? Nunca fiquei sabendo, pois nunca tive coragem de lhe perguntar. Papai não acreditava muito nessas histórias do João e sempre dizia: “É um bom contador de histórias, mas não sei se é tudo verdade” ou como dizem os italianos: “&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;non&lt;/span&gt; sei se &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;vero&lt;/span&gt;, ma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;beni&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;trovato&lt;/span&gt;”. Mas ele adorava o João e se divertia muito com as suas histórias.&lt;br /&gt;A vida aventureira parece ser uma saga da família Ladeia, que chegou ao Brasil no século XVIII e se espalhou de norte a sul. Meu tio &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Elisiário&lt;/span&gt;, irmão do pai do João, era também um típico aventureiro. Nos anos trinta, largou um bom emprego de guarda-livros no Rio de Janeiro para se engajar na revolução de 1932. Depois disso, nunca mais parou em lugar algum. Morou em vários estados do Brasil e países da América do Sul, de onde mandava cartas e fotografias, com &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;dedicatórias&lt;/span&gt; aos pais e irmãos, algumas delas ainda conservadas em um velho álbum de retratos da família. Numa dessas viagens, foi preso em Buenos Aires sem documentos. Sua libertação somente foi possível graças às intervenções de parentes influentes de minha avó. Outro tio, José, resolveu ganhar a vida como &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;boiadeiro&lt;/span&gt; ou tocador de boiadas. Transportava bois entre Goiás, Mato Grosso e São Paulo, mas morreu moço, com menos de 30 anos, ao cair de um burro bravo, e suas muitas histórias ficaram na memória dos irmãos e sobrinhos. Elas eram contadas por minha mãe nos serões que ela fazia nas longas noites de verão.&lt;br /&gt;João ficou órfão de pai muito cedo. Sua mãe se casou novamente com um também viúvo, um italiano cheio de filhos. A vida para ele foi muito dura e ele teve várias profissões para sobreviver. Começou como sapateiro, depois mecânico, comerciante e finalmente fazendeiro e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;pecuarista&lt;/span&gt;. Estudar mesmo, só o primário. Ele foi um típico &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;self&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;made&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;man&lt;/span&gt;, um homem que venceu na vida através de muito trabalho e também muita sagacidade. Casou-se com  Rosa Barranco de uma família de espanhóis de nossa cidade com quem teve três filhos: Jorge, Sonia e João.  Mudou-se depois com a família da esposa para o Paraná onde, tempos depois, conseguiu comprar suas próprias terras e cultivar café. Posteriormente se estabeleceu em Mato Grosso, na cidade de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;Cáceres&lt;/span&gt;, no extremo oeste do estado, como um típico pioneiro do velho oeste americano.&lt;br /&gt;Era um sujeito realmente carismático, dotado de grande simpatia e boa conversa; conseguia se entronizar com facilidade em qualquer ambiente. Com muita lábia, sempre teve trânsito fácil entre autoridades e políticos. Dono de uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;inteligência&lt;/span&gt; aguçada era capaz de se embrenhar em qualquer assunto, apesar da pouca instrução. Tinha uma memória surpreendente sendo capaz de recitar longos textos de filosofia ou de poesia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em 1983 fui visitá-lo em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;Cáceres&lt;/span&gt;, Mato Grosso, onde o encontrei bem estabelecido, com uma boa fazenda, gado e avião. Percorremos de carro suas terras no sem fim no cerrado mato-grossense, onde onças ainda vigiavam a floresta. Na sala da sede da fazenda expunha orgulhoso uma enorme pele de onça, fruto de uma caçada que durou alguns dias, pois a fera estava devorando o gado na invernada. Ao ouvir seu relato sobre a caçada da pintada, revivi os tempos de criança em que ouvia atento as histórias do primo. Apesar da caçada da onça, o João mostrou-se um fazendeiro &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;preservacionista&lt;/span&gt; que não permitia caça ou corte de árvores em sua propriedade.&lt;br /&gt;Mas nem tudo foi alegria na vida do velho João. Há alguns anos perdeu seu &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;primogênito&lt;/span&gt;, Jorge, seu braço direito, juntamente com o neto em um acidente rodoviário. João não mudou seu modo de agir, mas tornou-se menos apegado às coisas, conforme uma recente conversa que tivemos por telefone. No ano passado passou por uma grave cirurgia, que lhe removeu a maior parte do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;estômago&lt;/span&gt;. Pouco tempo depois, ainda fazendo &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;quimioterapia&lt;/span&gt;, resolveu pilotar o seu &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;monomotor&lt;/span&gt;, acompanhado de um dos seus netos, João &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_32"&gt;Vitor&lt;/span&gt;. O avião caiu ao &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_33"&gt;aterrissar&lt;/span&gt; no aeroporto de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_34"&gt;Cáceres&lt;/span&gt;. O seu neto escapou ileso, mas o João ficou gravemente ferido e veio a falecer na última sexta-feira, após alguns dias internado.&lt;br /&gt;Ai está um pouco da história do meu primo, João da Silva Ladeia, um herói &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_35"&gt;anônimo&lt;/span&gt;, desses muitos que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_36"&gt;campeiam&lt;/span&gt; pelo Brasil e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_37"&gt;constroem&lt;/span&gt; o país, desbravando &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_38"&gt;sertões&lt;/span&gt; e fazendo história e histórias.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7390855881864126729?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7390855881864126729/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/06/meu-primo-joao-na-minha-infancia-o.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7390855881864126729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7390855881864126729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/06/meu-primo-joao-na-minha-infancia-o.html' title=''/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5931345310308988062</id><published>2010-05-31T13:05:00.000-07:00</published><updated>2010-11-26T16:14:27.881-08:00</updated><title type='text'>BARRA DE SÃO JOÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBL7n8DxVI/AAAAAAAAAJo/3o_TXxqHvgU/s1600/DSC07869.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="240" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBL7n8DxVI/AAAAAAAAAJo/3o_TXxqHvgU/s320/DSC07869.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Casa&amp;nbsp; onde Pancetti morou&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Barra de São João acontece de tudo e não acontece nada. As praias são de tombo e as ondas quebram violentamente na praia. Quase ninguém as freqüenta a não ser algum turista desavisado, preferencialmente os paulistas. Mas o lugarejo é tranqüilo, com ruazinhas arborizadas com velhas jaqueiras e com muitas primaveras nos jardins, dando uma sensação gostosa de paz e tranqüilidade há muito perdidas nas grandes metrópoles. Foi lá que nasceu o poeta Casimiro de Abreu e onde foi sepultado conforme seu último desejo. O seu túmulo está no cemitério da igreja, mas dizem que o corpo não está lá e que foi “roubado” na calada de uma das antigas noites do século dezenove. A casa do poeta, restaurada, fica às margens do Rio São João é hoje um museu onde um crânio humano está exposto e alguns afirmam que é do poeta dos “Meus Oito Anos”. Olhei severamente para o crânio e questionei como Shakespeare em Hamlet: “To be or not to be”, mas fiquei sem resposta.&lt;br /&gt;O casario estilo colonial português ainda está presente na maioria das ruas e, em especial, em uma às margens do Rio. Lá uma casa em ruínas tem uma plaquinha: “Aqui morou Pancetti”. É o pintor modernista paulista que teria vivido algum tempo nesta bucólica vila do município de Casimiro de Abreu, onde provavelmente se inspirou para pintar algumas das suas famosas marinhas. Para que colocar uma placa numa ruína? É vergonhoso o descaso com o passado em nosso país. Seria preferível que não fosse nem mencionado, pois pouparia o setor público do vexame de deixar ao léu uma referência histórica. Um fato pitoresco é que Pancetti passou alguns anos na Itália com um tio, também chamado Casimiro, antes de ser marinheiro, pintor de paredes e artista plástico, pintando umas das mais belas obras sobre as praias brasileiras.&lt;br /&gt;Recordo-me de uma das vezes em que estive por lá, quando caminhava e continuava resmungando comigo mesmo sobre os problemas da preservação da memória nacional e vi um velhinho sentado em um banco na praça que fica entre o casario e o Rio São João. Fui chegando perto dele e fui recebido com um sorriso simpático que estimulou uma conversa sobre a vila, seu passado e seus atrativos.&lt;br /&gt;Falamos de muitas coisas, inclusive do Pancetti, que ele afirmou ter conhecido e convivido alguns bons momentos com o pintor quando ele passava suas férias em Barra de São João. “Ele pegava o cavalete de pintura e sua mala e ia até a praia, onde passava horas e horas pintando. Algumas vezes, eu o ajudava a carregar suas coisas em troca de alguns trocados”.&lt;br /&gt;Eu quis saber mais e perguntei como era o pintor no seu cotidiano em Barra de São João.&lt;br /&gt;Ele disse que o Pancetti era uma pessoa muito amável, mas não falava enquanto pintava. Na volta da praia ele contou que o ajudava também a carregar suas tralhas. Aí sim, conversava bastante e às vezes parava no bar para tomar um refresco. “Naquela época, anos cinqüenta, vinha pouca gente por aqui, pois quase ninguém tinha carro”, disse o velhinho.&lt;br /&gt;O meu interlocutor falava como se fosse um guia turístico bem traquejado e talvez tenha feito isso para ganhar a vida quando algum turista aparecia por lá. Sabe-se que Pancetti era tuberculoso, doença contraída ainda quando criança pelas péssimas condições de vida de sua família e muito provavelmente era um sujeito mais introspectivo do que falastrão. É também possível que o pintor tenha estado poucas vezes no lugar em férias e tenha alugado a casa para passar algumas temporadas. Revendo as pinturas de Pancetti, não vi nenhuma menção à Barra de São João, apesar de que algumas paisagens lembrem um pouco as suas praias e da vila vizinha, Rio das Ostras.&lt;br /&gt;Mas o bom mesmo em Barra de São João era o restaurante Varandão, onde se comia um maravilhoso picadinho de carne com batatas coradas, que só a Nair sabia fazer. O Nilson, seu marido, atendia os fregueses e logo puxava conversa sobre música, seu assunto preferido. Tinha uma bela coleção de discos, principalmente de boleros e tangos. A primeira pergunta que fazia ao freguês não era sobre o cardápio, mas o que gostaria de ouvir. Infelizmente o Varandão acabou falindo, o casal se separou e o velho e saudoso Nilson voltou para Copacabana onde foi nascido e criado.&lt;br /&gt;De tanto falarmos de Carlos Gardel, até ganhei dele um disco do famoso cantor argentino. Jantar no Varandão era sempre o melhor e único programa da vila, ouvindo “El dia que me quieras” com o Gardel em um toca-discos com um leve chiado.&lt;br /&gt;E foi também no Varandão que conhecemos o Fiico, figura lendária de Barra de São João. Fiico tocava (ou ainda toca se estiver vivo) violão com a classe de um Baden Powell e tinha uma forte semelhança com o cantor Martinho da Vila, mas seu repertório estava mais para os clássicos da Bossa Nova.&lt;br /&gt;E quem disse que em Barra de São João não era freqüentada por celebridades? Pois foi lá que encontramos a escritora Ligia Fagundes Telles passando uma temporada na pousada em que o gentil Fiico era o gerente.&lt;br /&gt;Barra de São João, terra de poeta, onde as águas do Atlântico se arrebentam em suas praias de areias avermelhadas. Certo foi o Casimiro ao fazer da bela e bucólica vila o seu descanso derradeiro, pois parece que por lá, felizmente, os tempos modernos não conseguiram chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBNLGyENiI/AAAAAAAAAJs/p4oko0akRBI/s1600/DSC07867.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="150" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBNLGyENiI/AAAAAAAAAJs/p4oko0akRBI/s200/DSC07867.JPG" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Igreja onde Casimiro de Abreu estaria sepultado&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5931345310308988062?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5931345310308988062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/05/barra-de-sao-joao.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5931345310308988062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5931345310308988062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/05/barra-de-sao-joao.html' title='BARRA DE SÃO JOÃO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TPBL7n8DxVI/AAAAAAAAAJo/3o_TXxqHvgU/s72-c/DSC07869.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-9125902025637504500</id><published>2010-05-18T08:11:00.000-07:00</published><updated>2010-05-18T08:19:23.997-07:00</updated><title type='text'>BUTIÁ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Butiá na verdade não existe mais. È apenas uma fotografia desbotada e um quadro singelamente pintado, mas deixou saudades e muitas. Ficava em Descalvado, interior de São Paulo, para onde a nossa turma ia passar alguns fins de semana prolongados nos longínquos anos 1970. Era uma pequena vila e tinha até uma estação de trem, herança dos gloriosos tempos em que o café era o ouro verde do estado. Também não faltava a igrejinha, aconchegante onde os fieis depositavam as suas esperanças no futuro das almas. O sino da igreja, contava o famoso Zé Dozzi, num dia de forte temporal, caiu do campanário e trincou. Ele como zeloso fiel tratou logo de consertá-lo. E afirmava, sem medo de ser chamado de faroleiro, que soldou o sino com ouro puro doado pelos moradores, que abriram mão de anéis, alianças e correntinhas. Por isso quando o sino tocava, o som se espalhava no ar com certo brilho que somente uma imaginação fértil pode perceber. E o menino Jesus em retribuição à generosidade do povo de Butiá, deu-lhes muitas e fartas colheitas. O café? Ora, era o melhor café de todo o estado. Dizem até que era famoso o café de Butiá, pelo seu sabor, aroma que lembrava amêndoas maduras torradas, além de um leve toque achocolatado. Está aí uma marca de prestígio que pode ser utilizada por algum empreendedor: “Café Butiá, igual não há”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensem os leitores que era só isso que havia em Butiá. Tinha muito, muito mais. Uma velha e desativada usina de energia elétrica, que formava uma queda d’água exuberante, que permitia saborosas duchas durante o verão, onde alguns despudorados amigos se banhavam nus para o horror dos poucos e pudicos habitantes. Um laranjal, na primavera, espalhava o seu doce perfume pelas redondezas, principalmente no cair das velhas e saudosas tardes de Butiá. O antigo empório Santa Teresinha, era onde nos hospedávamos. Era uma velha construção dos anos quarenta, com as portas rangendo, sem forro e habitada por morcegos que ficavam irritados com os intrusos. Sua proprietária, tia do Sinézio D. Tezza, emprestava o imóvel, prazerosamente, para o sobrinho, acreditando que sua turma ia para lá fazer um retiro espiritual. O sobrinho deixava-a enlevada ao informá-la que loas ao senhor e cânticos gregorianos eram entoados no local. Cânticos gregorianos com certeza não, mas muitos sambas, canções e modas caipiras rolavam até altas madrugadas, regados com uma boa cachaça e muita cerveja.&lt;br /&gt;Mas as noites de Butiá, muitas vezes eram lúgubres, pois um dos companheiros, o Edélcio Thenório, excelente contador de causos, pesquisava durante o dia, velhas histórias de assombração do lugar. E na calada da noite, caprichava no enredo e todos dormiam com um olho só. O outro era para espantar almas penadas. Descobriu ele que muitos velórios eram realizados no empório por falta de um lugar apropriado nas redondezas. A venda de cachaça e cafezinho ajudava o dono do armazém a aumentar a sua receita quando a dita cuja levava alguém para o destino final. Houve até o causo de um defunto que se levantou no meio da noite pedindo uma cachacinha. O povo saiu em disparada pelas invernadas enquanto o defunto lamentava que só queria molhar a goela para enfrentar o juízo final. Histórias...&lt;br /&gt;A estação de trem dava um charme todo especial a Butiá e lembrava aquelas estações que apareciam nos filmes de faroeste. A arquitetura inglesa, padrão das estações paulistas, contrastava com as simplórias casas caiadas e a vegetação que tomava conta dos arredores. À época, o trem que vinha de Descalvado ainda passava por lá, pelo menos uma vez por dia aproveitávamos para fazer inesquecíveis passeios.&lt;br /&gt;Mas como disse no início dessa crônica, Butiá não existe mais. O empório foi demolido e virou pastagem. A estação de trem foi desativada, pois sem cafezais já havia perdido sua finalidade há tempos. Só restou mesmo a igrejinha, que a religiosidade do povo vai conservar ainda por muito tempo. Quanto ao sino, motivado pelas histórias do Zé Dozzi, já foi roubado várias vezes e depois devolvido, pois se descobria que a solda era ouro dos tolos. Enquanto isso, o velho Dozzi, pitando seu cigarro de palha, ri dessas histórias e afirma que ninguém vai conseguir achar onde está o remendo e nem o ouro, pois o sino é encantado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-9125902025637504500?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/9125902025637504500/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/05/butia.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9125902025637504500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9125902025637504500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/05/butia.html' title='BUTIÁ'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7953939905561036552</id><published>2010-04-17T15:20:00.000-07:00</published><updated>2010-04-17T15:21:41.531-07:00</updated><title type='text'>HISTÓRIAS DE DESCALVADO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fama de que Itu é a terra dos contadores de exageros está para ser recontada, pois em Descalvado eu ouvi alguns dos causos mais absurdos em toda a minha vida. Estava de passagem por lá e resolvi entrar numa padaria para tomar uma cerveja com o amigo Sinésio Dozzi Tezza nascido  na cidade, onde viveu até a juventude, que me acompanhava. &lt;br /&gt;Enquanto bebericávamos fiquei olhando para a rua que lembrava o poema Cidadezinha qualquer do Carlos Drummond: “Um burro vai devagar/ Um cachorro vai devagar/ Devagar as janelas olham/ Eta vida besta meu Deus!” De repente minha atenção se voltou para uma conversa numa mesa ao lado. Um sujeito com uma voz um pouco aguda não parava de falar com seu acompanhante, foi quando ouvi as histórias mais inacreditáveis. Numa delas ele falava sobre um jogo de futebol que ele havia disputado quando muito jovem, a qual tento relatar com alguma fidelidade:&lt;br /&gt;- O beque fez o penarti na horinha que eu ia fazer o gol. Ah eu mesmo fui bater. Ajeitei a pelota, tomei a distância e carquei o pé na bicha.&lt;br /&gt;-  Marcou o gol?”, perguntou o outro.&lt;br /&gt;- Mas é craro que marquei, sô! A pelota varou a rede e entrou mais de metro no barranco. Foi preciso tirar a bola com a enxada. E se não acreditar é só perguntar pra quarquê um lá de Butiá, que vai confirmar”.&lt;br /&gt;Em seguida veio com outra,  quando o colega perguntou sobre o caminhão que ele tinha, um FNM. Ele se entusiasmou e desandou a falar sobre o veículo.&lt;br /&gt;- Uma noite eu vinha no meu  fenemê carregado de areia lá de Porto Feliz. Aí eu vi um carro parado na estrada e meti o pé no breque. E cadê o breque, sô? Não tinha nadinha de breque e o carro continuou a mais de cem por hora na descida.&lt;br /&gt;- E aí, bateu?&lt;br /&gt;- Que nada sô! Segurei firme o volante, meti o pé no chão e segurei o bicho. Você não vai acreditar a quantidade de fumaça que saiu  da minha botina. Olha aqui (mostrando a sola do calçado) foi esta botina mesma. Fui engatando a marcha e segurando com o pé. Parei um metro antes do carro.&lt;br /&gt;- Mas é verdade mesmo Zé? Perguntou o outro espantado com a história.&lt;br /&gt;- Eu juro pela Mãe Santíssima e posso morrer aqui mesmo se não for verdade.&lt;br /&gt;- Mas me conta uma coisa, Zé, é verdade mesmo que o engenho de cana da fazenda do seu avô ainda está funcionando? Continuou seu acompanhante.&lt;br /&gt;- Mas é craro que tá sô!&lt;br /&gt;- Quanto de cana ainda mói?&lt;br /&gt;- Ah, lá você pode colocar uma tonelada de cana que ela mói tudo.&lt;br /&gt;- Uma tonelada? Você não tá exagerando não?&lt;br /&gt;- Que isso sô? Você pode botar ferro lá que a moenda tritura que vira pó.&lt;br /&gt;- Ferro? Você está brincando comigo?&lt;br /&gt;- To nada sô. Aquela terra tem tanto ferro e ouro, que as madeiras de lá é mais forte do que aço.&lt;br /&gt;- Num brinca?&lt;br /&gt;- Pois é rapai, ouro lá dá pra tirar no enxadão e derretê no fogão de lenha. Cansei de usar ouro derretido pra consertar portão, fazer ferro de marcá gado. O sino da igrejinha de Butiá é todinho de ouro que eu mesmo fiz.&lt;br /&gt;            Quando ele estava saindo o meu companheiro, percebendo que eu estava chocado com  a conversa, tentou se explicar:&lt;br /&gt;            - Não leva a sério não. É o sujeito mais mentiroso de Descalvado.&lt;br /&gt;            - Não diga?   Eu até pensei que você estava acreditando nas histórias.&lt;br /&gt;            - Acreditando? Só quem não conhece o Zé pra acreditar nessas lorotas. Essa história do caminhão que ele contou aconteceu com o meu tio, não foi com ele não.&lt;br /&gt;            Depois dessa pedi a conta e perguntei ao dono do estabelecimento onde era a fábrica de cerveja que tinha na cidade, ele respondeu:&lt;br /&gt;            - Falam que é ali do lado da praça, mas na verdade essa cerveja sai pronta de uma mina que tem aqui, lá pelos lados de Butiá. A cerveja sai geladinha e pronta prá beber. Tem até um córrego da loirinha numa fazenda aqui perto. As vacas de lá, de tanto beber cerveja, dão até cem litros de leite.&lt;br /&gt;            - Por dia?&lt;br /&gt;            - Não, é por hora mesmo.&lt;br /&gt;            No caminho de volta tentei brincar com o meu companheiro de viagem sobre as histórias de Descalvado, mas ele estava sério e parecia não admitir que eram lorotas. Cá com meus botões conclui, como o filósofo Walter Benjamin, que a história oral depende de quem conta e cada “narrativa revelará sempre a marca do narrador, da mesma forma como é revelada a mão do artista na cerâmica”. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7953939905561036552?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7953939905561036552/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/04/historias-de-descalvado.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7953939905561036552'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7953939905561036552'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/04/historias-de-descalvado.html' title='HISTÓRIAS DE DESCALVADO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7499213493003951559</id><published>2010-03-15T10:32:00.000-07:00</published><updated>2010-03-19T07:03:02.491-07:00</updated><title type='text'>O DIA DA POESIA, GARCIA LORCA E OS AMIGOS POETAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último dia 14 de março foi o dia da poesia e eu nem me lembrava da data. Mas confesso que não acho que a poesia precise de data; não porque a poesia não mereça, mas porque ela está acima das datas e não é necessário um dia para se ler poesia. Todos os dias são da poesia, pena que nem todos pensem assim. Um velho amigo sempre diz: “Esse mundo não tem mais poesia” e isso era o bastante para desmanchar o coração da mais renitente donzela. “As mulheres podem gostar de cartões de crédito, belos carros, roupas, jóias, mas são os poetas que tocam em suas almas”, repetia esse dom Juan incurável.&lt;br /&gt;Existiria poesia sem poetas? Eu acho que sim, pois a poesia está em todos os lugares e em todas as pessoas. Mas é preciso o olhar do poeta para decifrá-las, lapidá-las. É claro que existem os poemas brutos e os mais elaborados, mas são todos poesias. Há também aquela velha discussão de que letra de música não é poesia. Discussão estéril... Chico Buarque é um dos defensores desta tese, que considero apenas modéstia do autor de Beatriz, uma das mais belas páginas poéticas da música popular brasileira. Se ele não fosse músico e cantor, seria com certeza, apenas um poeta, que não teria a visibilidade dos que não podem andar nas ruas como homens comuns.&lt;br /&gt;Esse assunto do Chico me fez lembrar-se de outro poeta, o Federico Garcia Lorca, que além de um grande poeta e dramaturgo era um artista com múltiplas facetas. Era também músico e desenhista de talento. Há alguns anos, fuçando uma liquidação de discos, encontrei um long-playing de capa preta, com um belo desenho estilizado de um homem deitado sobre a mesa de um bar ao lado de sua guitarra. Era de músicas de Garcia Lorca, interpretadas por Paco de Lucia. Comprei logo o disco antes que aparecesse outro interessado e ao ouvir o som do grande guitarrista, fui transportado para a terra do artista espanhol: Andaluzia. No desenho, o guitarrista boêmio, extenuado após tocar sua guitarra durante toda a noite, abandonava seu corpo sobre a mesa no final da madrugada.&lt;br /&gt;Era um belo disco que ingenuamente emprestei para algum violonista, amigo ou conhecido, que nunca mais devolveu. Mas conservo na memória este disco e a lembrança de um poeta que também tocava guitarra, compunha canções e escrevia peças de teatro. Um artista completo que foi cruelmente assassinado pelos fascistas durante a revolução espanhola, ainda jovem e no auge da carreira.&lt;br /&gt;Meu primeiro contato com a obra do poeta foi em uma peça de teatro do Flávio Rangel e Millor Fernandes, “Liberdade, liberdade!” Era uma coletânea de textos de vários autores sobre a liberdade. Paulo Autran declamava um trecho do poema Romance Sonâmbulo, os conhecidos versos: “Verde que te quiero verde/ Verde viento, verde rama/ El barco sobre la mar/ E el caballo na Montana...”. O vigor da interpretação de Autran dava um sentido transcendente para o poema e inspirava o sentido de liberdade.&lt;br /&gt;Mais recentemente li dois livros em que os autores escreveram sobre Garcia Lorca. O primeiro, do Pablo Neruda, em sua autobiografia “Confesso que vivi”. Nele conta seus primeiros contatos com o escritor, ainda muito jovem em Madrid e Paris. Neruda dizia que Lorca se recusava a ler os seus versos, pois gostava tanto deles que tinha medo de ser influenciado. O outro, Luiz Buñel, cineasta espanhol, que dirigiu a inesquecível “Bela da Tarde” entre outras obras primas. No livro conta os últimos momentos que esteve com o poeta de Andaluzia e tentou sem sucesso convencê-lo a ficar em Madrid em razão da radicalização dos conflitos entre republicanos e fascistas em sua amada Andaluzia. Lá ele se refugiou na casa de um fascista, amigo de sua família, pois achava que estaria mais seguro. Ledo engano. De lá foi retirado em um caminhão com outros republicanos e vilmente assassinado. Buñuel se lembrava de como o poeta tinha medo de morrer e a lembrança da tortura pela qual passou em seus últimos momentos o comovia anos depois.&lt;br /&gt;Confesso, que me perdoem os amantes da literatura, como Milton Eto, que até o ginásio passava longe da poesia. Era para mim uma tortura ler os barrocos, românticos e parnasianos. Só depois, ao ler o Drummond, com seus versos soltos e livres, comecei a me aproximar da poesia. Depois dele, veio o Fernando Pessoa e os seus heterônimos: Álvaro de Campos, Alberto Caieiro e o próprio; Manuel Bandeira, Mário de Andrade e alguns portugueses modernos, como José Régio, li depois. Ainda no colégio fiquei fascinado no T.S.Elliot e os Quatro Quartetos, um livro inesquecível.&lt;br /&gt;E quem nunca escreveu seus versos? Lembro-me da Neusa, minha irmã mais velha, que escrevia versinhos em seus cadernos escolares e muitos deles consegui ler às escondidas. Ainda outro dia perguntei a ela se não escrevia mais. “Não há mais tempo para poesia. A vida real é muito dura”, disse. Meu irmão Nelson, recentemente falecido rascunhava também seus versos e os mostrava a mim com certo constrangimento. Afinal escrever poesia não é visto como algo digno numa sociedade voltada para o sucesso profissional, para a racionalidade.&lt;br /&gt;Há que lembrar nestas rememorações sobre poesia e poetas, do José Carlos Brandão, poeta consagrado, autor de vários livros e de quem recebo belos e inspirados poemas quase toda semana. Brandão eu conheço virtualmente, por obra e graça da amiga comum, Mirian Sofiati, mulher do meu amigo e parceiro, Oscar de Vito. Os velhos amigos, como Dedo Thenório e Zeca da Silva, que escrevem versos unicamente para as canções que compõem ou para parcerias, mas que merecem estar no panteão da poesia. Dedo, além de escrever versos e peças de teatro, é músico, desenha com maestria, com um traço muito pessoal e belo. Está aí um Garcia Lorca "caboclo" que poderia ter acontecido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;São muitos os amigos poetas e amantes da poesia, mas é impossível deixar de citar o velho Delcy Thenório, poeta paulista de Ibiúna, que apenas recentemente teve seu primeiro livro publicado. Ao contrário de Bandeira que escrevia versos como quem morre, Delcy escreve versos com quem ri e se diverte das contradições da vida.&lt;br /&gt;Outro poeta nunca publicado e que já teve alguns dos seus poemas musicados pelo extraordinário músico Carlinhos Kalunga, é de Butiá, uma pequena vila de Descalvado. Seu nome, Sinésio Dozzi Tezza, que extrai da terra, das árvores e dos bichos, os seus melhores versos. Ele faz versos como quem lavra e desbrava a sua terra natal.&lt;br /&gt;Recentemente tive contato com um velho amigo, o Laércio Solano, o Durango, que há tempos abandonou a metrópole para viver um grande amor no grande sertão da Bahia e que nos últimos tempos desandou a escrever versos, inspirados, talvez, em seus antepassados de Andaluzia, na Espanha.&lt;br /&gt;Enfim, não poderia deixar de citar o poeta, arquiteto e artista plástico Tomás Padovani com sua poesia extremamente sintética, que lapida as palavras num processo intenso, sem excessos, quase minimalista. Colega dos tempos de colégio, compartilhamos momentos de efervescência cultural, o medo dos ditadores e muita esperança.&lt;br /&gt;Os mestres do colégio, como a professora de literatura, Hamide Assain José, grande figura, cujas análises de textos poéticos ainda povoam meu imaginário e a quem devo muito de minha formação. O Esdras Pinto da Silva, professor de inglês, que me incentivou a escrever meus versos tortos e a ler alguns ingleses e americanos.&lt;br /&gt;E assim termino essa crônica que começou pelo dia da Poesia, relembrou o imortal Garcia Lorca e terminou com as minhas amizades poéticas que valem e valerão sempre à pena, enquanto houver luz e poesia em minhas retinas fatigadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia,15 de março de 2010&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7499213493003951559?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7499213493003951559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/03/o-dia-da-poesia-garcia-lorca-e-os.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7499213493003951559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7499213493003951559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/03/o-dia-da-poesia-garcia-lorca-e-os.html' title='O DIA DA POESIA, GARCIA LORCA E OS AMIGOS POETAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-3754576197814483846</id><published>2010-03-13T17:06:00.001-08:00</published><updated>2010-07-07T08:30:16.109-07:00</updated><title type='text'>A PELE DE JAGUATIRICA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Era uma vez&lt;br /&gt;Um Czar naturalista&lt;br /&gt;Que caçava homens&lt;br /&gt;Quando lhe disseram que se caçavam&lt;br /&gt;Borboletas e passarinhos&lt;br /&gt;Achou uma barbaridade (&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Drummond&lt;/span&gt;)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Pereira era um hábil caçador e nos tempos em que no oeste &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;paulista&lt;/span&gt; ainda havia matas virgens, ele se embrenhava por elas para caçar. Não usava armas de fogo, apenas um longo punhal, muito afiado. Era filho de escravos africanos e talvez tenha aprendido com seu pai a arte dos seus antepassados que assim caçavam leões nas savanas africanas. Todos que o conheciam adoravam sua elegância, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;simplicidade&lt;/span&gt; e simpatia. Tinha sempre em mãos balas e guloseimas para presentear as crianças. Sua casa, que ficava perto da estrada, era repleta de flores e um pequeno pomar, onde a molecada se deliciava nas épocas em que as frutas entravam em tempo de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;madureza&lt;/span&gt;. Ele não se incomodava e tinha prazer e ver sua casa repleta de crianças. Como era um caçador suas paredes ostentavam peles de animais esticadas. Quando criança, nunca cheguei a pensar naquilo como uma crueldade, mas apenas uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;coleção&lt;/span&gt; de troféus. Ele explicava sempre orgulhoso e com todos os detalhes como havia caçado cada um dos animais, relatos dos quais vou poupar meus nobres leitores.&lt;br /&gt;Ele também era hábil com as ervas que curavam enfermidades diversas e foi essa a razão pela qual se ligou à minha família. Minha irmã mais velha teve uma febre muito forte e alguém se lembrou de que o Zé Pereira era um mestre em curar doenças. Chamado e já sabendo do caso, chegou com as suas ervas e em poucas horas a febre havia baixado e a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;maninha&lt;/span&gt; já estava brincando novamente. Foi daí que surgiu a amizade e a promessa de minha mãe que eu, que estava &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;tranqüilo&lt;/span&gt; em seu ventre, seria &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;batizado&lt;/span&gt; por ele, juntamente com uma prima solteira.&lt;br /&gt;Fui &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;batizado&lt;/span&gt; conforme prometido e pouco tempo tive para desfrutar a condição de afilhado de um grande caçador, pois tempos depois nos mudamos para a capital e apenas nas férias escolares é que o visitávamos.&lt;br /&gt;Longos anos se passaram até que um dia ele apareceu em casa. Estava magro e abatido e pediu ajuda aos meus pais para se tratar de uma dor de estômago que depois se descobriu ser um câncer que o levou a morte em pouco tempo. Nesta ocasião ele trouxe-me de presente uma pele de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;jaguatirica&lt;/span&gt; que achei o máximo. Longe dos olhares dos meus pais, colocava-o nas costas e assustava a garotada do bairro. Além disso, gostava de contar orgulhoso para uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;platéia&lt;/span&gt; pasmada, como ele havia caçado o bicho, que para mim era uma onça, com muitos detalhes inventados para dar mais emoção.&lt;br /&gt;Com o tempo e já sabendo que a pobre &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;jaguatirica&lt;/span&gt; era um animal em extinção no Brasil, tratei de logo de deixar a pele bem guardada em um armário, praticamente esquecida. Casei e nem me lembrei de levá-la, como também não gostaria de lembrar da velha pele até que o meu irmão Nelson se ofereceu para ficar com ela como lembrança de uma espécie destruída pela caça predatória.  Não pensei duas vezes e ele levou a pele de com a promessa de não se desfazer dela. Fiquei feliz em ter me livrado de tão funesta relíquia, principalmente porque sabia que estaria em bom lugar e me isentaria da responsabilidade nada ecológica de guardar tal troféu.&lt;br /&gt;Mas o velho couro já estava nas estantes do esquecimento, quando meu irmão faleceu e seu filho apareceu alguns dias depois com velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;butim&lt;/span&gt;. “Tio, achamos esse couro de onça nas coisas do meu pai e concluímos que era melhor dá-lo a você de presente, pois não sabemos o que fazer com ele”.&lt;br /&gt;Pois é, o velho couro de uma pobre &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;jaguatirica&lt;/span&gt;, morta por um velho caçador nas florestas do oeste &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;paulista&lt;/span&gt; nos anos cinquenta está de volta às minhas mãos. Minha mulher e minha filha acham um horror que ela fique sobre o sofá, como o couro de anta que o poeta &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Drummond&lt;/span&gt; trouxe de relíquia de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;Itabira&lt;/span&gt;. Meus amigos torcem o nariz quando vêem o troféu e alguns, mais radicais, se recusam a entrar na sala, tal a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;ojeriza&lt;/span&gt; que sentem.&lt;br /&gt;De minha parte, como cúmplice inocente da crueldade, não tenho coragem de descartá-lo e tampouco dá-lo de presente (se é que existiria algum interessado). Por enquanto ele reina silencioso, sempre despertando em minhas retinas fatigadas a lembrança de que o homem é um predador terrível, que mata pelo simples prazer de ter um troféu em sua parede. Como também não terei a quem deixar a pele, vou colocar em meu testamento que o dito seja levado comigo para a terra do nunca. Assim livrarei os meus descendentes de cometerem uma indelicadeza com o velho Zé Pereira, um homem elegante e amável, que também caçava onças, antas e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;jaguatiricas&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;março&lt;/span&gt; de 2010&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-3754576197814483846?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/3754576197814483846/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/03/o-couro-de-jaguatirica-era-uma-vez-um.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3754576197814483846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3754576197814483846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/03/o-couro-de-jaguatirica-era-uma-vez-um.html' title='A PELE DE JAGUATIRICA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-719263839821905004</id><published>2010-02-27T08:36:00.000-08:00</published><updated>2010-06-03T09:36:19.131-07:00</updated><title type='text'>O CÃO E O OUTRO</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Para Caterina Koltai&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cães bem nascidos, com roupas de lã e com guias passeavam com seus donos pela praça sob um frágil sol de outono. Uma senhora obesa e arrogante levava o seu luluzinho, cuidadosamente penteado, ao colo, para evitar que se contaminasse com outros cães ou a sujeira do piso. Naquele espaço público, as classes sociais se diferenciavam pelas raças dos cães, cujos preços de mercado variavam de acordo com a raridade. Um Poodle Toy, por exemplo, pode custar até três mil reais, dependendo do pedigree. As coleiras, as roupas dos cães e demais adereços, também contribuíam para fazer a diferença. Para os cães, pelo menos é o que dizem os cinólogos, tudo se resume ao odor das roupas, das pessoas e das coisas. Eles não empinam o nariz como fazem nos desenhos animados, os cães das madames. Estão presos (pelas coleiras) às classes dos seus donos, mas não sugere que tenham noção de suas classes sociais, muito menos consciência de classe.&lt;br /&gt;Um mendigo, também alheio às questões de classe, contemplava o movimento como se não tivesse nada, absolutamente nada a ver com aquelas pessoas que transitavam pela praça – e não tinha mesmo. Os mendigos, como diz uma amiga: “É a negação de tudo, da sociedade de consumo, das classes sociais, enfim, do sistema capitalista”. E ali estava ele, negando tudo com as suas roupas que poderiam até sugerir que estivesse imitando o Carlitos de Chaplin ou o Cantinflas (que também era uma imitação latino-americana do Chaplin). Vestia um velho e surrado paletó preto tipo jaquetão com um botão dourado remanescente. Por baixo do paletó vestia uma camiseta azul também bastante encardida. Usava uma calça jeans bastante desgastada e suja. Seus sapatos eram velhos e era pelo menos dois números menores do que o pé do seu dono. Digo isso porque estavam cortados nos bicos para acomodar o pé sujo e inchado do nosso enigmático personagem.&lt;br /&gt;As pessoas passavam ao largo pela sinistra figura que fumava continuamente usando uma piteira, o que lhe dava uma certa distinção. Ele era o Outro. Era o Outro como um indivíduo não preso a uma classe; era o Outro por ser também negro e miserável. Às vezes, olhava para os passantes e cumprimentava efusivamente: “Bom dia cavalheiro!”; “Bom dia madame!”. Ninguém respondia e tampouco olhava para o nosso Carlitos tropical. Era um estranho, sem voz, sem cor, sem nome. Um estranho estrangeiro como muitos que vagueiam pelas ruas de São Paulo.&lt;br /&gt;De repente, o cão lulu, escapou dos grilhões (perdão pelo exagero) da classe social de sua dona e foi ter com o mendigo que o abraçou efusivamente ante os olhares atônitos das pessoas que por ali passavam. O feliz encontro teve direito a lambidas no rosto e acalorados abraços. Do outro lado da praça, como que por encanto, um vira-lata ou um cão sem origem ou raça definida, um estrangeiro e além de tudo, desvinculado de qualquer classe social, se juntou ao lulu para fazer festa para o nosso personagem. Ele sem fazer qualquer distinção, aceita os carinhos e a alegria do cão; olha para a platéia e exclama orgulhoso: “Só mesmo os cães para reconhecer que eu também sou um ser humano, mesmo sendo um vira-lata”.&lt;br /&gt;Perto dali, apenas uma senhora, que parecia ser uma estrangeira, de fora, observava com interesse a cena. Ela sorriu para o mendigo fazendo menção de que aprovava na íntegra a sua observação. Imaginei que ela estaria pensando com seus botões: “Somos realmente seres estranhos na terra. Tão estranhos que é preciso um animalzinho irracional para reconhecer-nos como pertencentes a uma mesma espécie”. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-719263839821905004?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/719263839821905004/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/02/o-cao-e-o-outro-para-caterina-koltai-os.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/719263839821905004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/719263839821905004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/02/o-cao-e-o-outro-para-caterina-koltai-os.html' title='O CÃO E O OUTRO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4432664162955946724</id><published>2010-02-23T06:30:00.000-08:00</published><updated>2010-02-23T08:26:57.546-08:00</updated><title type='text'>CAUÊ E O VELHO HOMEM DAS NUVENS</title><content type='html'>Cauê era um indiozinho tupi que vivia numa reserva indígena  no interior do Brasil. A reserva era muito grande, mas existia um grande abismo que a separava da terra dos homens brancos. Os mais velhos sempre contavam histórias sinistras sobre o outro lado, o lado proibido. Sempre ouvira falar que os seres brancos eram violentos e pouco amistosos. Além disso, espalhavam doenças terríveis para os índios que morriam logo depois do contato com eles.&lt;br /&gt;            Cauê  sonhava poder algum dia atravessar o abismo e encontrar-se com as pessoas do outro lado, mesmo correndo todo o tipo de risco. Sentia-se cansado dos limites de sua reserva. Já conhecia tudo: os rios, lagoas, quase todas as árvores e animais. Alguns ele dava até nomes. As tarefas da aldeia destinada aos meninos o entediava, pois queria correr o mundo em busca de aventuras, conhecer outros povos, outros guerreiros. Um dia Cauê resolveu partir. Pegou seu arco e flechas, uma sacola feita de palha com alguns alimentos e partiu em direção ao outro lado. Fugiu durante a noite para que ninguém notasse. Na rede em que dormia,  colocou  um boneco coberto para que ninguém desconfiasse e viesse atrás dele. Caminhou durante  quase toda à noite pela floresta e somente quando chegaram os primeiros raios de sol é que alcançou as margens do abismo. O abismo era íngreme, repleto de pedras escarpadas e Cauê não conseguiria descer. Como era muito esperto, lembrou-se de algumas palavras mágicas que o Pajé dizia escondido em sua taba. O Pajé tinha poderes mágicos, pois curava os doentes  e conversava com os espíritos.  Foi dizendo cada uma das palavras que lembrava e pensou firmemente em seu desejo de atravessar o enorme abismo. Quando ele disse: “Atauana, atau, adiupi uirá”, um raio de sol desceu à sua altura e ele o agarrou com firmeza. Colocou seu arco sobre o raio e deslizou durante muito tempo até chegar ao outro lado do abismo. A montanha, do outro lado, ficava sempre envolta em espessas nuvens. Quando Cauê foi chegando, não viu mais nada, pois as nuvens eram tão densas que seus olhos ficaram embaçados. Ele sentiu um frio na espinha, pois começara a cair sem parar, sempre segurando seu arco sobre o raio  de sol. Finalmente, chegou em terra firme ou quase... Ainda parecia estar sobre as nuvens, só que agora conseguia enxergar toda a paisagem a sua volta.  Viu à distância,  o território  de sua tribo e só aí percebeu a longa viagem que havia feito.&lt;br /&gt;            Não viu ninguém por ali e o frio era insuportável. Suas mãos começaram a congelar. Seu corpo todo tremia sem parar e não havia abrigo para se proteger. De repente ouviu uma voz de trovão, que fez tremer o chão, chamando-o pelo nome. Virou-se e viu um homem longo, magro e bem velho. Tinha as barbas e cabelos brancos e compridos como se fossem pedaços de nuvem. Seus olhos eram tristes e profundos, mas parecia ser uma pessoa bondosa e justa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que faz aqui?” perguntou o velho a Cauê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vim à procura do outro lado do mundo. Quero conhecer os homens brancos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fez muito mal, muito mal. E você veio pelo caminho errado, o caminho dos sonhos. Agora precisamos de um abrigo para você. Não pode ficar ao relento neste frio e logo ficará muito escuro” - disse o velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas como fazer um abrigo meu senhor? Não há árvores nem pedras por aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Mas há nuvens, muitas nuvens e com elas poderemos fazer um bom abrigo para você se proteger.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Ele então ensinou ao menino índio a arte de tecer com fios de nuvem. Primeiramente,  tirou do bolso uma roca de fiar e foi apanhando chumaços de nuvens e formando longos fios. Depois, com um tear que levava em outro bolso, teceu uma grande lona, fazendo com ela uma tenda. Construído o abrigo,  teceu com nuvens de cores quentes, tapetes e uma rede para Cauê se deitar.&lt;br /&gt;            Ele dormiu profundamente e quando acordou, percebeu que sua casa de nuvens havia desaparecido com os primeiros raios de sol, estando ao relento novamente. Gritou pelo velho homem das nuvens e perguntou pelo abrigo.&lt;br /&gt;“Ora menino”,  respondeu o velho com sua voz de trovão: “Nuvens são nuvens. Com o vento e o calor elas desaparecem.”&lt;br /&gt;“Como vou dormir esta noite?”&lt;br /&gt; “Você construirá tudo de novo. É um bom exercício e quem sabe poderemos melhorar a sua tenda. E mãos à obra, porque o tempo está fechando  e hoje vai esfriar mais cedo”.&lt;br /&gt;             E assim construíram um novo abrigo, mas desta vez com fios reforçados para suportar o mau tempo que estava por vir. E assim, todos os dias ele construía sua tenda de nuvens. Cauê começou a sentir-se cansado de repetir a mesma coisa todos os dias. Procurou o velho e perguntou:&lt;br /&gt;“Não se faz nada aqui a não ser reconstruir  cabanas para dormir?”&lt;br /&gt;            O velho muito calmo respondeu: a vida é sempre uma repetição. O sol não nasce no horizonte todos os dias e todos os dias ele não desaparece para dar lugar à noite? Pois a vida é isso, sempre se repetindo. Às vezes mudamos alguma coisa, experimentamos coisas novas, que no final das contas acabam se repetindo também. Nada é sempre novidade. É preciso descobrir a beleza, a importância naquilo que sempre se repete, procurando melhorar as coisas, inventando outras e só assim, conseguimos superar o tédio e sentir alegria de viver, mesmo com a repetição.&lt;br /&gt;            E assim, todos os dias ele construía sua tenda de nuvens. Depois de muitos dias, o velho tomou sua mão e levou-o para um caminho que ele desconhecia. Andaram por muito tempo até chegarem a um lugar onde as nuvens começavam a ficar mais rarefeitas. Então o velho parou e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora você pode ir. Este é o caminho das coisas reais. Talvez por aqui você consiga uma boa cabana para se abrigar.” Dizendo isso, o velho deu-lhe as costas e desapareceu por entre as nuvens.&lt;br /&gt;           O menino caminhou durante muito tempo e começou a sentir o mundo real. Animais ferozes, rios profundos, árvores enormes e morros escarpados, difíceis de escalar. Cauê começou a sentir fome e medo, mas não encontrou nada para caçar. Os pequenos bichos haviam sido mortos por homens brancos ou animais maiores. Pássaros enormes comiam todas as frutas das árvores. Os peixes dos rios e lagos eram ferozes e raramente subiam à superfície.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Cauê  com muito sacrifício conseguia sobreviver, dormindo nas árvores mais altas  para se proteger dos animais ferozes. Pela manhã descia  das árvores com o arco e flecha em punho e saia para caçar alguma coisa para comer. Muitas vezes passava o dia todo sem conseguir nada, indo dormir com fome. Ele começou a perceber que sua vida estava muito difícil e nada mudava, além das dificuldades para comer e sobreviver.  Numa manhã decidiu voltar para a sua aldeia. Guiando-se pelo sol,  começou a caminhar. Mas por mais que caminhasse não conseguia chegar a lugar algum. Foi então que se lembrou das palavras mágicas que disse ao atravessar o abismo em volta da reserva. De repente apareceram enormes nuvens que o envolveram e o levaram para longe. Sentiu-se voando como num sonho. Depois de algum tempo estava de volta ao território do Velho das Nuvens que o recebeu com bastante alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            “E então meu menino, conheceu o outro lado do mundo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cauê contou-lhe todas as aventuras pelas quais havia passado e também seu desejo de retornar à sua aldeia, pois estava convencido de que era muito feliz junto aos seus pais e amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        O Velho homem das nuvens sorriu e disse: “Você veio pelo caminho dos sonhos e é por ele que você vai retornar”. Dizendo isso, ele pegou uma enorme corda tecida com fios de nuvens e a lançou ao longe. “Pronto”, disse o velho. “Agora você pode colocar seu arco sobre a corda e deslizar até sua aldeia”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        O menino assim fez e viajou feliz de volta à sua casa. Lá chegando foi ao encontro dos seus pais, irmãos e amigos e contou-lhes as novidades. Entretanto, ninguém acreditou muito  no que ele disse e  sempre riam todas as vezes que tocava no assunto. Mas Cauê estava feliz por ter retornado e passou a fazer com alegria e interesse todas as tarefas da aldeia destinadas aos meninos. Redescobriu o prazer em caçar e colher frutos e raízes na floresta, procurando inventar novas armadilhas para surpreender os animais e peixes. Passou a participar com prazer das cerimônias religiosas e festas de sua tribo e voltou a ser uma criança feliz e comum como as outras  que moravam na aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4432664162955946724?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4432664162955946724/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/02/caue-e-o-velho-homem-das-nuvens.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4432664162955946724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4432664162955946724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/02/caue-e-o-velho-homem-das-nuvens.html' title='CAUÊ E O VELHO HOMEM DAS NUVENS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-690742029429438764</id><published>2010-01-13T10:45:00.000-08:00</published><updated>2010-01-31T04:42:28.289-08:00</updated><title type='text'>GRANDE SERTÃO: VEREDAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/S05H8kavqnI/AAAAAAAAAGU/zQ_QEonwt_E/s1600-h/DSC04642.JPG"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 200px; height: 150px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/S05H8kavqnI/AAAAAAAAAGU/zQ_QEonwt_E/s200/DSC04642.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5426353706921601650" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A travessia de Nelson Ladeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas pessoas leram realmente o Grande Sertão: veredas. É uma narrativa complexa,em que o narrador conta a história para alguém que pode ser o próprio escritor ou o leitor. A narrativa também não segue uma sequência linear, temporal. Há avanços e retorno no tempo. Riobaldo, o narrador, admite que o contador de história tem poder sobre o passado, o presente e o futuro. O autor inventa palavras o tempo todo na voz do seu narrador, a sintaxe é complexa e repleta de metáforas que fazem a leitura um um trabalho nada simples. É preciso de concentração, paciência e reflexão. Mas esta crônica não é sobre o livro, mas sobre meu irmão Nelson para quem emprestei uma antiga edição do Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa. Ele estava apaixonado pelo escritor após a leitura de Sagarana. Leu e releu o livro e todas as vezes que nos encontrávamos ele dizia que o Grande Sertões: veredas havia se tornado o seu livro de cabeceira, sua bíblia. Mas para mim a edição tinha um sabor especial, pois foi um presente de uma professora do colégio e para resolver o problema tratei logo de comprar uma edição mais recente  para que ele continuasse lendo e relendo o romance.  &lt;br /&gt;    E assim quase todas as vezes que nos encontrávamos falávamos das aventuras do Riobaldo, o Tatarana  nos confins dos Sertões das Gerais, cujas sábias palavras sempre tornavam obrigatória uma releitura do livro. Um trecho sobre o rio ficou em nossa memória: “O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbús, a sombra separada dos buritizais, ele. Recolhe e semeia areias. Fui cativo, para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede, uma palmeira só me dá minha casa”. Isso sintetizava o modo de ser do Nelson. Não era ambicioso. Qualquer coisa bastava.&lt;br /&gt;    E o Nelson continuava mergulhado nas aventuras pelos sertões, acompanhando Riobaldo.  Ele que nasceu e cresceu na cidade tinha uma paixão sem fim pelo interior, pela cultura rural. Pesquisava objetos, ferramentas, carroças e os reproduzias em miniaturas nas suas horas vagas. Trabalhava  caixas de frutas e habilmente as transformava em objetos de arte. Em Caminhos e Fronteiras, de Sérgio Buarque de Hollanda, ele bebia da cultura do Brasil caboclo, descobrindo as origens de coisas como o monjolo, engenho de açúcar... Ouvindo a velha canção do Ari Barroso que dizia “Tenho saudades do Brasil, Caipira...” ele se inspirava para criar coisas que as pessoas se apaixonam ao ver.  Quando lhe perguntavam: Você vende? Ele respondia: Ah essas coisas não tem preço. São horas e horas de trabalho. Como vou avaliar isso?&lt;br /&gt;    Até a adolescência, quase todos os anos, íamos para a Fazenda São Vicente, em Lavínia. Lá ele garimpava coisas da terra. Um ferro de marcar gado do começo do século passado que estava abandonado na Tulha era para ele uma relíquia guardada com carinho. O prazer para ele começava pelo trem que cortava São Paulo rumo ao oeste. Ele permanecia estático na janela, contemplando a paisagem. Lá acordava cedo para ouvir os pássaros pela manhã e sabia os nomes todos e imitava os cantos com maestria.&lt;br /&gt;Quando criança ele tinha medo de assombração e de trovão. Escondia-se embaixo da cama para se proteger. Nossa irmã mais velha, ainda uma menina, o protegia enquanto nossa mãe estava no trabalho. Na rua não gostava de brigas e os outros meninos encaravam isso como covardia. Mas não era nada disso. Sua visão de mundo começava a ser construída como uma pessoa pacífica e calma, que preferia o diálogo ao confronto.&lt;br /&gt;    Ele era o nosso caçula, o menino esbelto e dono de belas e louras chucas que minha mãe protegia como um tesouro. Cresceu, descuidou-se dos estudos, preferindo as aventuras e sonhos. Gostava de música e tinha um ouvido excepcional. Meu violão abandonado por falta de aptidão foi descoberto por ele e aos poucos foi extraindo, sem professor, sem orientação nenhuma,  belas notas musicais. Um dia me surpreendeu ao solar uma canção do Chico Buarque, compositor, cujo trabalho ele sempre admirou. Aprendeu capoeira e se tornou um mestre, mas via nisso apenas uma arte entre música e dança e nunca como um instrumento de agressão ou mesmo defesa.  Como diria o Riobaldo: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;    Mas a doença foi cruel e em menos de dois meses, um homem forte, saudável, corpo de atleta, estava em um hospital sem esperanças. Em nossa última conversa, ainda sobre o Grande Sertão: veredas, ele repetiu a frase constante de Riobaldo: “É mano, viver é muito, muito perigoso” e eu estou perto da travessia. Fez sua última recomendação: “Não quero o caixão aberto. Não quero que me olhem com pena”. Prefiro que as pessoas se lembrem de mim vivo”.  E assim partiu Nelson, meu irmão, meu amigo, cuja ausência vai doer em mim eternamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-690742029429438764?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/690742029429438764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/01/grande-sertao-veredas.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/690742029429438764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/690742029429438764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2010/01/grande-sertao-veredas.html' title='GRANDE SERTÃO: VEREDAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/S05H8kavqnI/AAAAAAAAAGU/zQ_QEonwt_E/s72-c/DSC04642.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6458350606874000864</id><published>2009-11-17T17:14:00.000-08:00</published><updated>2009-11-17T17:18:39.268-08:00</updated><title type='text'>BELO HORIZONTE</title><content type='html'>Hoje me dei conta de que a minha primeira e única visita a Belo Horizonte ainda permanece em minhas retinas fatigadas.  Apenas um fim de semana, mas ainda fica a impressão de que durou uma eternidade. A viagem de ônibus foi à noite e fez um frio de doer os ossos. Não consegui pregar os olhos, tal o desconforto. Mas o dia amanheceu bonito, ensolarado e pude conhecer a primeira cidade totalmente planejada  do Brasil. Naquele momento me veio à mente a voz da minha professora primária, Da. Teresa Rami, nas aulas de geografia, explicando as características das capitais brasileiras. Mas eu tinha outro motivo, mais relevante para a minha fugaz estadia em BH. Era conhecer a igreja de Pampulha, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e com pinturas do grande mestre Candido Portinari. &lt;br /&gt;A viagem foi a convite de um amigo da época, Marcos Padovani, a quem não vejo há séculos. Sua irmã, Cecília, estava num convento em Pampulha e ele precisava fazer-lhe uma visita, levar-lhe notícias, enfim, coisas de família.&lt;br /&gt;Ao chegarmos ao convento, fomos recebidos pelas irmãs com um almoço, que desfrutamos solitariamente, pois não era permitido às noviças, tomar refeições ao lado de leigos, mesmo parentes. Marcos, um pouco espevitado, abriu um armário e de lá sacou uma garrafa de vinho de missa, do qual saboreamos, pecadoramente, boas doses. Enquanto ele se divertia com a proeza, eu tive a impressão de que viraria churrasco nas profundezas do inferno.&lt;br /&gt;Depois do almoço fomos dar um passeio de barco no lago do jardim do convento. Era uma bela paisagem. O lago era rodeado de choupos que lambiscavam, sorrateiramente, as águas. Cecília era acompanhada pela Alessandra, uma moça bela e suave, que cuidava em remar, vagarosamente, o barco. Marcos, encantado com sua beleza, a provocava, insinuando que ela tivera uma desilusão amorosa com algum Alessandro e por isso o nome. Ela se divertia com as brincadeiras do meu amigo e parecia não se importar com elas. A Cecília que eu já conhecia de vista na igreja do bairro, tinha um olhar profundo e suave, próprio das mulheres que se dedicam de corpo e alma às causas religiosas. Sua voz era serena e amiga, transmitindo paz e tranqüilidade. Uma pessoa inesquecível.&lt;br /&gt;À noite fomos à cidade, pois por motivos óbvios não era possível pernoitar no convento. Vagamos pela cidade tentando comprar amores por preços módicos, pois o dinheiro que tínhamos mal dava para as despesas. Depois de bater pernas inutilmente, acabamos por dormir em um humilde hotelzinho, indicado pelas freiras. As noitadas de amor em BH que seriam cantadas em prosa e verso ficariam para outra oportunidade. Sinceramente, as mulheres mineiras me decepcionaram. &lt;br /&gt;No dia seguinte, um domingo, foi bastante movimentado, com missa no convento, festas e passeios. Lá pude admirar a ousadia arquitetônica de Niemeyer que projetou uma igreja que chegou a ser fechada pela intolerância da conservadora família mineira. Ele quebrou os paradigmas barrocos sob os quais o imaginário popular mineiro concebia uma igreja. Portinari, por sua vez pintou santos rústicos, feios e mal nutridos, representando uma visão primitiva e pura do cristianismo.  Isso foi demais para a família mineira, guardiã dos ideais do Brasil colonial. O sábio tempo tratou de curar as feridas deixadas pelas ousadias do arquiteto e do pintor e Pampulha está lá, orgulhosamente no panteão das glórias de Minas.&lt;br /&gt;É sempre triste voltar, pois sempre vem aquele desejo de ficar mais um pouco, conhecer melhor as pessoas, os segredos mais recônditos da cidade, as suas belas mulheres. Voltei sonhando com amores impossíveis, como uma linda freira que abandonaria o hábito e fugiria comigo para uma vida mundana. Antes do amanhecer, a bela freira já teria desistido de abandonar o hábito e eu retornaria a minha vida cotidiana.&lt;br /&gt;Pois é, Belo Horizonte ficou lá, entre as montanhas de Minas e muita, muita coisa aconteceu depois. Cecília Padovani faleceu e hoje é apenas o nome de uma praça em um bairro da cidade, uma homenagem ao seu trabalho voltado para a educação e atendimento à população carente.  Os seus gestos suaves, o seu olhar e sua voz serena se perderam por aqueles horizontes verdes  azulados, onde olhos mineiros descansam. Quanto a Alessandra, cujos belos olhos encantaram dois adolescentes, que fim terá levado?  Belo Horizonte! Quem sabe um dia desses vou novamente à cidade, rever Pampulha e se a sorte estiver do meu lado, tomarei uma boa taça de vinho de missa. Para isso vou precisar da cara de pau do Marcos Padovani, que nem sei por onde anda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6458350606874000864?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6458350606874000864/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/belo-horizonte.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6458350606874000864'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6458350606874000864'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/belo-horizonte.html' title='BELO HORIZONTE'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2170724041286609188</id><published>2009-11-11T05:29:00.000-08:00</published><updated>2009-11-12T14:48:44.417-08:00</updated><title type='text'>LAVINIA REVISITADA</title><content type='html'>Modéstia a parte nasci em Cachoeiro do Itapemerim, dizia o Ruben Braga. Como dizer modéstia a parte por ter nascido em Lavínia, uma minúscula cidade incrustada no oeste paulista? Tem apenas uma avenida principal, a Perobal que atravessa o povoado de ponta a ponta. O nome perobal está ligado às extensas florestas repletas de peroba que existiam por lá em idos tempos. Até recentemente a avenida ainda era de terra, uma terra vermelha, arenosa, que tinge as casas, os carros, a pele e até as minhas lembranças. O casario baixo, janelas que observam atentamente o movimento das ruas. Um cavaleiro que chega a galope, uma carroça, uma charrete, um jipe empoeirado. Tudo é novidade na cidadezinha qualquer na qual eu nasci. Não me lembro de fotografias da cidade, mas uma delas está comigo e povoou o meu imaginário quando criança. Meu tio José tinha uma comitiva que trazia boiadas do Mato Grosso e Goiás. Nesta foto, no centro da cidade, ele estava todo garboso em sua vestimenta gaucha, como era moda nos anos trinta e quarenta. &lt;br /&gt;Lavínia não tem grandes encantos ou desencantos tampouco. Surgiu durante a nova expansão dos cafezais rumo ao oeste nos anos trinta do século passado. Na época a região ainda era habitada por índios e por posseiros caboclos. Chegaram os trilhos da estrada de ferro Noroeste do Brasil e com eles o  progresso dos nossos tristes trópicos. Os índios foram expulsos ou mortos pelos jagunços a mando dos grileiros em toda a região Noroeste. Meu tio, um zeloso testemunha de Jeová, que passava as tardes poeirentas e mornas de Lavínia a ler os textos bíblicos, contou-me horripilantes histórias durante a expulsão dos habitantes das terras “sem dono”. Estupros, queima de plantações, assassinatos e outros tipos de violência, tudo em nome do crescimento econômico, do avanço da economia cafeeira. Ele mesmo deve ter participado das ações, mas sempre negou ter feito qualquer tipo de injustiça. No final dos anos vinte trabalhou com o imigrante italiano Jeremias Lunardelli, que se tornou, por obra divina, o maior proprietário de terras da região. Como meu tio era esperto e letrado, caiu nas graças do patrão e no final conseguiu uma bela fazenda, a São Vicente, nome dado antes de se tornar um crente fundamentalista.&lt;br /&gt;Nasci mesmo na Fazenda São Vicente do meu tio, próxima de uma vila do município de Lavínia, chamada Tabajara, pois se acreditava que foram os tabajaras os primeiros habitantes da região. O parto foi feito pela minha tia Carmem, uma carioca da gema, casada com um dos irmãos de minha mãe. Tabajara hoje é um nome complicado que se tornou sinônimo de malandragem, falcatrua, falsificação e tudo o mais por conta de um ridículo programa humorístico da Rede Globo. Penso que os descendentes dos tabajaras deveriam mover uma ação por danos morais contra a família Marinho por ter denegrido um nome honrado, heróico e valente de um povo que resistiu bravamente contra as invasões em nome do progresso. O poder do programa é tão grande que até uma faculdade de São Paulo que ostentava o honroso de Tabajara, foi obrigada a mudar nome para evitar chacotas e perda de credibilidade. &lt;br /&gt;Fui muitas vezes para Lavínia durante as férias escolares. Era uma aventura inesquecível que me fazia sonhar durante o ano inteiro. Achava o máximo caminhar pelas invernadas da fazenda sem fim do meu tio, pegar frutas no pomar, quebrar coquinho, comer doce feito de leite coalhado - uma delícia inigualável, o milho verde assado, pão feito em casa e tomar o café da fazenda junto ao fogão à lenha. Já adolescente, cavalgava no velho Mussulini, um cavalo branco e manso, pela enorme fazenda sonhando ser o John Wayne em Chaparral. Quanta aventura, meu Deus! &lt;br /&gt;Nasci em Lavínia e nem por isso sou orgulhoso, ao contrário do poeta itabirano; também não trouxe prendas diversas para oferecer aos meus poucos leitores. Mas sobrou a fotografia do meu tio boiadeiro, um balança velha, um ferro de passar a brasa e uma espingarda picapau que espero que nunca funcione. Apesar de ser apenas uma fotografia, Lavínia, um belo nome de mulher, ainda povoa minha imaginação nas longas noites de insônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2170724041286609188?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2170724041286609188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/lavinia-revisitada.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2170724041286609188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2170724041286609188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/lavinia-revisitada.html' title='LAVINIA REVISITADA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-3915031184231591434</id><published>2009-11-08T05:27:00.000-08:00</published><updated>2009-12-25T05:04:38.448-08:00</updated><title type='text'>NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE...</title><content type='html'>Joanin Moscardi, quem sabe,  poderia ter sido um dos maiores pontas da história do verdão do Parque Antarctica, coberto de glórias, endeusado pelos torcedores; mas a vida para um jogador de futebol até os anos cinquenta não era fácil. Não existiam os milhões que os bons e mesmo medíocres jogadores ganham hoje. Praticava-se o esporte por prazer, por amor à camisa, conforme contam os nossos velhos. E foi por isso que o Joanin com profunda tristeza abandonou uma carreira de glórias para se dedicar à família como operário numa indústria. &lt;br /&gt;Não que a vida tenha sido mais fácil, mas o salário era certo todo final de mês. Ao ver os dois filhos, Magali e Jorge crescerem saudáveis, bonitos, inteligentes e bem formados, esquecia o antigo sonho. Afinal, cumprira a sua missão ao lado da sua querida companheira Noêmia, que também já partiu. &lt;br /&gt;Conta seu filho que chegou a ver lágrimas correrem pelos olhos do Joanin quando ele olhava velhos retratos de jogadores que ocuparam a posição que poderia ter sido dele; mas logo em seguida erguia a cabeça e agradecia pela família que tinha, mesmo tendo abandonado um grande sonho.  &lt;br /&gt;Joanin depois da aposentadoria teve um negócio de raspagem e aplicação de cascolac em  pisos de madeira, que ele não levava muito a sério como atividade econômica. Certa vez, pensando em ajudá-lo, indiquei seu nome para uns conhecidos. Ao ligarem para o Joanin, este descartou o serviço afirmando: “Não vai dar não, pois já coloquei as minhas tralhas de pescar na perua”. &lt;br /&gt;Quantas e quantas vezes nos sentamos à sua mesa na cozinha para um delicioso almoço preparado pela querida Noêmia ou então para um simples cafezinho e o ouvíamos contar suas histórias, sempre com o dedo indicador meio curvado apontando para os seus ouvintes. Era a sua marca registrada.&lt;br /&gt;É impossível deixar de lembrar-se das festas fartas de boa comida e muita música em sua casa. Parecia estar sempre sério, mas às vezes deixava escapar um sorriso meio tímido. Era seu jeito de ser. Às altas horas ele se recolhia para seu quarto e deixava um recado: “Eu vou dormir, mas pode continuar a festa”.&lt;br /&gt;Apesar da doença que o deixou preso à cama durante longo tempo, não perdia as esperanças e estava sempre bem humorado. Apoiado pelos filhos, nora,netos  que lhe dedicaram muito carinho e conforto, ele partiu feliz, vestindo a camisa do seu amado Palestra esboçando um sorriso maroto, como querendo dizer: “A minha missão está cumprida”. Só faltou mesmo o dedo indicador, meio curvado, com a sua frase característica: “Não falei pra vocês?”.&lt;br /&gt;Hoje, ao passar pela Rua Tenente Paulo Alves, onde ele viveu bons anos de sua longa existência, senti alguma coisa no ar. As velhas sibipirunas estavam macambúzias, os pássaros silenciosos e tive a sensação de que ele estava por ali, observando o movimento, contando causos e provavelmente falando dos seus velhos tempos do Palestra.&lt;br /&gt;É bem possível que não exista um céu como nós imaginamos, mas até que seria bom se houvesse esse lugar paradisíaco onde as almas pudessem se reunir para um bom papo, relembrando os velhos tempos nas longas tardes da eternidade.  Lá se encontrariam todos os que se foram para um carteado ou quem sabe até um futebolzinho, de mesa, é claro. Enquanto isso a Noêmia prepararia uns deliciosos quitutes regados com aquele cafezinho gostoso que só ela sabia passar. Assim o tempo se arrastaria até a chegada das novas gerações, que espero que ainda demore muito. Cada reencontro seria sempre uma festa, repleta de saudades e notícias do mundo terreno. Imagino também o encontro, que aqui nunca ocorreu, do Constantino com o Joanin. O primeiro contando as velhas lorotas de Descalvado, a terra dos causos exagerados, e o segundo esboçando aquele velho sorriso maroto diante das histórias improváveis do novo companheiro.&lt;br /&gt;Essas despedidas, mesmo sendo previsíveis, dão sempre a sensação de uma mesa vazia em um espaço de nossa memória. E os versos do velho samba nos conforta. “Naquela mesa está faltando ele/ e a saudade dele/ está doendo em mim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato, 5 de novembro de 2009.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-3915031184231591434?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/3915031184231591434/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/naquela-mesa-esta-faltando-ele.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3915031184231591434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3915031184231591434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/naquela-mesa-esta-faltando-ele.html' title='NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE...'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1669336491703430430</id><published>2009-11-06T09:44:00.001-08:00</published><updated>2009-11-06T09:44:47.325-08:00</updated><title type='text'>SUPLICY, A VESTAL DO SENADO</title><content type='html'>Sempre votei no Eduardo Matarazzo Suplicy desde o início de sua vida política, quando participou do MDB autêntico, juntamente com Mario Covas, Fernando Moraes, Fernando Henrique, Audálio Dantas entre outros, mas confesso que sempre o achei enrolado demais para ser político. Nesta época era quase gago, tinha muita dificuldade para articular uma frase, o que dirá um discurso. Mas sempre o considerei um sujeito honesto, bem intencionado, apesar de muito ingênuo, ingênuo demais para a profissão.  O Suplicy melhorou muito, muito mesmo com o tratamento de uma fonoaudióloga paulista que é reputada como uma “fera”, segundo informações de um amigo.  Hoje ele até fala com certa articulação. Lembro-me de uma palestra que ele fez nos tempos de faculdade nos anos 1970.  Foi um desastre. Depois de uns vinte minutos, a metade da platéia foi embora e o restante dormiu. Quer dizer: quase, pois continuei até o final com mais alguns abnegados.&lt;br /&gt;Confesso que esperava que ele fosse se desligar do PT no episódio conhecido como mensalão, mas acabou engolindo um sapo maior do que ele. Um bom cabrito não berra já dizia o adágio popular e o velho Supla está aí para provar que o “partidão” do camarada Lula, o guia do povo brasileiro não admite que ninguém pule fora do barco, principalmente em mares revoltos. Também no episódio Celso Daniel, ele não se convenceu com a versão oficial e deu uma de Sherlock Holmes, mas ninguém deu ouvidos ao nobre senador que ficou falando às moscas.&lt;br /&gt;Na crise do lorde do Maranhão, para não confundir com o Sir do mesmo estado, também esperei que ele pegasse a estrada e deixasse de hipocrisias. Não!  O  partido para ele é como uma família e não se abandona a família numa crise. “Eu acredito que posso recuperá-la”, disse com a firmeza dos puros.&lt;br /&gt;Depois veio aquela do cartão vermelho. Surpreendente mesmo, pois quando tudo estava sendo esquecido, este “chato”, que insiste na moralidade e na decência da política,  resolve colocar  mais lenha na fogueira para atrapalhar o projeto do grande camarada. Falou em nome pessoal, contrariando a direção partidária. O Lula deve ter falado cobras e lagartos  sobre ele. O presidente do partido negou-lhe o cumprimento uma hora depois do pronunciamento. Os companheiros o criticaram de forma explícita. Pensei que ele havia trilhado uma estrada sem retorno. Teria  que ir até o final.&lt;br /&gt;E agora José? Teria chegado a hora de pegar a estrada e mudar de ares. Política é para profissionais da falcatrua e o velho Suplicy, apesar do esforço, não tem estômago para isso. Portanto, a melhor saída seria pegar carona com a Marina enquanto havia tempo, mas não, o Supla continuou em sua batalha quixotesca contra os moinhos de vento verdadeiros ou não.&lt;br /&gt;E para encerrar com garbo as suas aventuras quixotescas, resolveu mostrar que é um homem corajoso, sem medo de enfrentar o partido. Colocou uma sunga por cima das calças e desfilou “elegantemente” pelo congresso. Uma cena digna de chanchada brasileira dos anos cinqüenta. O Suplicy se superou e deixou todos os seus críticos e admiradores boquiabertos ante o inusitado. Depois dessa quero esquecer que já votei no camarada Suplicy e espero que ele se aposente e quem sabe, reate com o seu velho amor, a aguerrida Marta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1669336491703430430?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1669336491703430430/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/suplicy-vestal-do-senado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1669336491703430430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1669336491703430430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/11/suplicy-vestal-do-senado.html' title='SUPLICY, A VESTAL DO SENADO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-8193822916911443923</id><published>2009-10-25T17:32:00.000-07:00</published><updated>2009-10-28T17:25:07.965-07:00</updated><title type='text'>FESTAS JUNINAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os paulistas, as festas juninas são festas de caipiras, capiaus, matutos. Nestas festas os homens das cidades se vestem com calças remendadas nos joelhos e as camisas nos cotovelos, botinas e chapéus de palha. As mulheres usam vestidos de chita rendados, tranças e também chapéus de palha. É um velho estereótipo de que o pessoal do interior se veste mal, é acanhado e não trata dos dentes. São as velhas tradições que foram ficando no imaginário popular.&lt;br /&gt;Neste tipo de festança não pode faltar a tradicional fogueira que tem sua origem no solstício de verão das populações do norte da Europa, que acendiam o fogo para reverenciar os seus deuses pagãos. E tem também a quadrilha, uma dança de salão, também européia, que foi trazida para os trópicos pelos franceses. Tudo muito bem arranjado, num sincretismo que envolve várias culturas: o caboclo, resultado da miscigenação de portugueses com índios, dança da aristocracia francesa e tradições celtas.&lt;br /&gt;No nordeste as festas juninas ganharam outra dimensão. São festas tão importantes que superam o Natal e Ano Novo do Sudeste e Sul. Essas festas são tão relevantes para a cultura local que mesmo as empresas do sul que se instalaram por lá tiveram que se adaptar a esse costume tradicional e guardar os feriados.&lt;br /&gt;Estou escrevendo sobre as festas juninas porque me bateu uma lembrança saudosa dos tempos de juventude, quando a nossa turma resolveu comemorar, com alguns requintes, essas festanças. Naqueles bons tempos queríamos estar sempre juntos para conversar e cantar. Não faltavam bons tocadores de violão, compositores bissextos e poetas. Um deles, Dédo Thenório, escreveu uma bela marchinha junina, chamada Estrelinha brilhante e lançou um desafio: a partir do próximo ano vamos fazer um festival sobre as festas juninas e quero ver todos participando.&lt;br /&gt;O desafio foi aceito e a partir daí virou a festa junina da turma virou uma grande produção cultural. Um grupo era encarregado dos comes e bebes, outros da arrumação e do festival. As primeiras, de uma série de quinze festas aconteceram na casa do Silvio, o cabrunco, que tinha um grande quintal ao lado de sua casa. Foram grandes e inesquecíveis festas, com belas canções e marchas-rancho da melhor qualidade. Juntavam-se músicos como Oscar de Vito, Saulo de Tarso, Zeca da Silva, João Cristal, Dedo Thenório (autor de Estrelinha brilhante),Carlinhos Kalunga,  Celinha e suas irmãs e letristas como Sinésio Dozzi Tezza, Erasmão entre outros e produziam belas peças musicais, sempre sobre os balões que coalhavam os céus de São Paulo, fogueiras, bandeirolas, comidas típicas etc. Em cima da hora era escalado o jurado que nem sempre era muito imparcial na hora de julgar, pois todos acabavam se envolvendo nas disputas de acordo com as preferências e a maior ou menor intimidade com os autores. Os membros do juri que ouvia as músicas antes acabavam quase sempre cooptados, o que não chegava a criar problemas, mas mais emoções na competição. Um dos compositores, dos bons, chegou a jogar o troféu no meio do mato porque julgou que o terceiro lugar era incompatível com a qualidade de sua canção, que realmente era muito boa. Coisas de festival. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aqueles que não compunham participavam de outra forma, organizando  concursos de balões, mesmo sendo proibidos. Entre eles estavam sempre o Silvio, Jorge, Chivas, Saulo e Zorba que se esmeravam na confecção de belos e coloridos balões que enfeitavam a noite se confundindo com as estrelas do céu, como cantou o nosso amigo poeta.&lt;br /&gt;Surgiu também outro grande problema: a festa foi aumentando de tamanho, pois todos queriam trazer outros amigos e parentes para participar do evento. Com o tempo foi preciso alugar até sítios para acomodar todo mundo. Com a chegada de pessoas estranhas ao grupo original, começaram a ocorrer vaias na apresentação das músicas, o que era um sacrilégio para os seus idealizadores. Além disso, a perda do controle sobre quem participava, chegou até a gerar umas desinteligências. Infelizmente havia chegado o momento de encerrar o ciclo de quinze anos de festas juninas. Outro motivo, também muito forte, é que o festival, criado com a finalidade das pessoas mostrarem sua arte, virou uma forte competição que poderia até ameaçar a harmonia de um grupo de amigos que se relacionavam há muitos anos.&lt;br /&gt;A festa acabou, o povo sumiu e tudo mofou, mas quem quiser ainda pode acessar o endereço no Google: “Arquivos do Dedo” onde é possível encontrar as belas canções sobre temas juninos, como “O Pau” de Dedo Thenório, “Não Soltem balões” de Oscar de Vito e Sinésio Tezza, “Conta Brasil” de Zeca da Silva e Dedo entre tantas e tantas outras.&lt;br /&gt;Que saudade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-8193822916911443923?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/8193822916911443923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/10/festas-juninas.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/8193822916911443923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/8193822916911443923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/10/festas-juninas.html' title='FESTAS JUNINAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7573935069598311085</id><published>2009-10-19T05:24:00.000-07:00</published><updated>2010-11-14T11:41:28.943-08:00</updated><title type='text'>FLORAS E FLORADAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA7Vj2ktEI/AAAAAAAAAIs/GXWb8JT9Q2w/s1600/DSC05154.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA7Vj2ktEI/AAAAAAAAAIs/GXWb8JT9Q2w/s320/DSC05154.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você conhece alguma Flora? Eu conheci uma, mas não tenho boas lembranças. Ela morava no interior de São Paulo, na pequena Lavínia, minha terra natal. Era a costureira da minha prima e madrinha. Eu ainda era muito criança, mas ainda tenho uma visão clara de sua casa isolada, que ficava no final de uma estrada de terra, ao lado de um velho jequitibá. Era uma construção quadrada, pintada de amarelo e com muitas janelas. Pela minha memória, que pode ser falha, não me lembro de flores em seu quintal. Será que a Dona Flora não gostava de flores? Fui algumas vezes lá com a minha prima, para fazer algumas roupas, numa época em que passei alguns meses em sua companhia. Dona Flora era uma mulher madura e muito séria, que me espetava com o alfinete sempre que fazia a prova das roupas que costurava para mim. Foram poucas vezes, mas o suficiente para deixar uma lembrança amarga da costureira e do seu nome. &lt;br /&gt;Mas hoje Flora me lembra a primavera que está chegando e esbanjando cores apesar da chuva intermitente que deixa todo mundo acabrunhado. As buganvílias ou as populares primaveras plantadas em nosso quintal estão exuberantes de tantas flores e fazem a alegria dos beija-flores, borboletas e abelhas. A amoreira aproveita esta época para dar seus frutos que atraem maritacas, bem-te-vis e sabiás que fazem a festa em nosso pequeno, mas opulento quintal. A pitangueira invejosa também já está se preparando para dar os seus frutos e concorrer pela atenção dos pássaros. Como não sou muito fã de pitangas, deixo-as de bom grado para os pássaros e me divirto com as doces amoras. E num cantinho do jardim, ao lado da jabuticabeira, temos também uns pés de framboesas que tem nos proporcionado generosas colheitas: umas dez por dia. Pode parecer pouco, mas para quem conhece os sabores da infância, sabe que basta uma derretendo na boca para evocar inesquecíveis momentos. Muito a contragosto divido-as com minha filha que ainda reclama que sou um guloso. Confesso que às vezes as devoro e digo que foram os pássaros que comeram. Dou esta desculpa sem ficar vermelho, mas com o olhar maroto de um moleque que ainda existe em minhas retinas fatigadas.&lt;br /&gt;A jabuticabeira, que fica sob a sombra da amoreira, queixa-se da falta de sol, mas às vezes dá bons frutos, que os bem-te-vis devoram antes que os ávidos donos possam saboreá-los. Mas mesmo sem comê-los, nada supera o prazer de ter pássaros em casa e ouví-los cantar todas as manhãs, mesmo que sejam gulosos e egoístas. Espero, contudo, que as fartas amoras bastem para saciar o voraz apetite dos nossos bem-te-vis e consigamos saborear algumas jabuticabas, a mais brasileira das frutas.&lt;br /&gt;E por falar em jabuticabeira, é impossível deixar de lembrar da que o seu Giovani, vizinho do meu amigo Zeca, tinha em seu quintal. Era um árvore majestosa que dava tantos frutos que era impossível aproveitá-los todos. Os pássaros vinham de longe para a festa anual e seu Giovani, um italiano simpático e falante, cantava loas à árvore que seu pai plantou quando ainda era criança. Infelizmente, com a sua partida, a especulação imobiliária viu no terreno uma ótima oportunidade para construir mais um prédio e a velha jabuticabeira foi brutalmente arrancada da mãe-terra sem nenhuma compaixão. Que Deus a tenha e reserve as profundezas do inferno de Dante para os especuladores imobiliários. Quanto ao meu amigo Zeca, ganhou um enorme e incômodo vizinho, com mil olhos a observá-lo, como o Grande Irmão de George Orwell em “1984”.&lt;br /&gt;Enquanto isso vou curtindo a minha primavera particular, aproveitando ao máximo os prazeres proporcionados aos meus olhos, guardando na memória, cada cor, cada fruto e o som do canto do sabiá laranjeira e de um pássaro estranho que apareceu por aqui e ainda não descobri o seu nome. E é por isso que a vida ainda vale à pena, o resto é apenas falta do que fazer (com ela).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;br /&gt;Outubro de 2009&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7573935069598311085?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7573935069598311085/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/10/floras-e-floradas.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7573935069598311085'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7573935069598311085'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/10/floras-e-floradas.html' title='FLORAS E FLORADAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA7Vj2ktEI/AAAAAAAAAIs/GXWb8JT9Q2w/s72-c/DSC05154.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-3045128480968331062</id><published>2009-09-29T07:53:00.000-07:00</published><updated>2009-09-30T17:17:18.974-07:00</updated><title type='text'>ODETE BELLINGHAUSEN, A SENHORA DO PIANO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aquela senhora tinha um piano, mas para que serve um piano? Diz um poema do Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Para mim que ao passar pela Rua João Pessoa e ouvia em meio ao barulho do trânsito o suave som de um piano, servia e muito para abrandar a aridez da cidade. Quem era a senhora do piano vim sabê-lo algum tempo depois. Era Odete Tavares Bellinghausen, a primeira professora de piano da cidade e em cujas mãos muitas crianças passaram para aprender as primeiras notas musicais.&lt;br /&gt;A cidade foi crescendo e a casa dela, que em tempos passados desfrutava um ar ainda bucólico, transformou-se em passagem obrigatória de carros e pedestres. O comércio foi se ampliando e com ele mais movimento. Mas dona Odete, continuou o seu cotidiano entre o grande jardim com seus caramanchões e o piano. Um dia atiraram uma pedra na sua janela, que quebrou a vidraça e caiu bem em cima do piano, um velho alemão de meia cauda. Uma ato de absurda agressão, sinal de tempos difíceis. Aquilo poderia ser um aviso para que tomasse cuidado, pois morava sozinha naquele casarão da década de cinqüenta. Mas ela era corajosa e não se intimidou, apesar de andar com dificuldade e com os sinais da idade alterando a sua percepção das coisas e do mundo. Estava presente em todos os eventos culturais da cidade. Lembro-me de uma homenagem que recebeu das escolas de música da cidade e como o mestre de cerimônia faltou, tive a honra de ler a sua biografia no teatro.&lt;br /&gt;Numa outa vez a encontramos numa despedida de uma amiga comum, Marlita Brandner Valilatti , também professora de piano, que estava de mudança para a Áustria. Como estava só, oferecemos uma carona e ela insistiu que entrássemos em sua casa para um café ou coisa assim. Concordamos, apesar do adiantado da hora. Ela queria um pouco de companhia e não tivemos coragem de negá-la. Apressou-se em mostrar suas coisas, os quadros que ela pintou sobre a antiga paisagem da cidade, suas composições, como a Japonesinha Alegre da qual ganhamos uma cópia da partitura. Ela tocou com alguma dificuldade, pois as suas mãos já não obedeciam mais a sua mente ainda inquieta.&lt;br /&gt;Resolveu oferecer-nos uma bebida, um licorzinho caseiro, que também aceitamos. Mas ela trouxe três doses, inclusive para minha filha Mariane, com apenas dez anos. Desculpou-se, mas como o licor era bom, tomei as duas. Terminamos a visita com a sensação de que ela ainda queria conversar mais, contar causos, suas lembranças, suas memórias de uma mulher idosa que conheceu muita gente, que viveu fatos já apagados da história da cidade. Pensamos em voltar qualquer dia para fazer algum registro de suas memórias que em pouco tempo se apagaria para sempre, mas não cumprimos a promessa.&lt;br /&gt;Hoje a casa de esquina em que havia uma senhora que tinha um piano, é apenas um estacionamento, preservando apenas um muro original com seus balaustres de época. O som do piano ainda ressoa nas tardes frias de inverno, mas ninguém ouve. O aroma das camélias do seu jardim e ainda o doce sabor do licor de jabuticabas ainda estão presentes em minhas lembranças. O som dos mortos é inaudível e somente para aqueles iniciados na arte de lembrar sem ver e sem ouvir é possível dentro das impossibilidades.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-3045128480968331062?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/3045128480968331062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/09/odete-bellinghausen-senhora-do-piano.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3045128480968331062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3045128480968331062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/09/odete-bellinghausen-senhora-do-piano.html' title='ODETE BELLINGHAUSEN, A SENHORA DO PIANO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6968523425431186925</id><published>2009-09-06T17:22:00.000-07:00</published><updated>2010-11-14T11:48:33.353-08:00</updated><title type='text'>AS FLORES DO IPÊ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA9CDSqbOI/AAAAAAAAAI0/Bpxo52zJMI0/s1600/ip%25C3%25AA+2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="228" px="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA9CDSqbOI/AAAAAAAAAI0/Bpxo52zJMI0/s320/ip%25C3%25AA+2.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da minha janela avisto em uma rua paralela os seus exuberantes ipês amarelos que impõem um colorido especial para a paisagem do bairro. Lembro-me ainda da professora do primário explicando que as flores são folhas modificadas e o ipê altera todas as suas folhas, transformando-as em um amarelo vivo que chega a arder os olhos de tão intenso.&lt;br /&gt;O Ipê amarelo ou Tabebuia chrysotricha, é nativo da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira e é cultivado em todo o país pela sua beleza singular, mesmo que efêmera.&lt;br /&gt;Sem dúvida ele é privilegiado pela natureza e se transformou na árvore símbolo do Brasil. Mas é um privilégio que dura pouco tempo e as árvores estarão sem flores e sem folhas até o final do inverno, hibernando como um esqueleto sem vida para de novo desabrochar no verão com a verdura de suas folhas.&lt;br /&gt;Há tempos invejo os vizinhos que tem o privilégio de recolher diariamente, durante o inverno, o lençol de flores amarelas que se espalham pela calçada. Para tentar não morrer de inveja, tratamos de plantar o nosso próprio ipê, mas no jardim de nossa casa e não na calçada, numa forma egoísta reservar toda a sua beleza para os nossos olhares privativos. Qual o quê! Nosso ipê, após alcançar a fase adulta, não se dignou a dar flores e chegamos a desconfiar que fomos ludibriados por algum gigolô de flores, como uma velha amiga denomina os comerciantes que se dedicam a compra e venda de plantas e flores.&lt;br /&gt;Diante do risco de perder um só dia da beleza dos ipês, abro todos os dias a janela para apreciá-los, pois dentro de poucos dias as flores partirão com a estação fria, que desta vez deixou umidade até nos ossos. Mas neste ano, junto com as flores do ipê, chegou também o Tom que também aprenderá a amar as plantas e as flores como o Jobim.&lt;br /&gt;Ao abrir pela primeira vez os seus olhinhos cinzentos mostrei-lhe ao longe as manchas amarelas no horizonte. Ele pareceu sorrir e depois chorou dando a entender que chegou a tempo de apreciar um pouco da beleza fugaz do nosso pequeno e maltratado planeta.&lt;br /&gt;Que o Tom floresça em cada inverno, para saudar a primavera e esteja sempre presente como arauto da renovação da vida. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6968523425431186925?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6968523425431186925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/09/as-flores-do-ipe.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6968523425431186925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6968523425431186925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/09/as-flores-do-ipe.html' title='AS FLORES DO IPÊ'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_oEhfX48KGfk/TOA9CDSqbOI/AAAAAAAAAI0/Bpxo52zJMI0/s72-c/ip%25C3%25AA+2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5930696221845882820</id><published>2009-08-21T08:37:00.000-07:00</published><updated>2009-09-03T16:19:27.820-07:00</updated><title type='text'>UM HOMEM IMORTAL</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estava caminhando em um parque quando resolvi fazer uma pausa para descanso e logo em seguida um homem de uns quarenta e poucos anos, pele muito branca e pálida sentou-se ao meu lado. Pareceu-me que queria falar alguma coisa, mas mostrou-se pouco a vontade. Depois de alguns minutos criou coragem e perguntou se eu tinha cigarros. “Não fumo”, respondi prontamente e logo emendei “Não faz bem para a saúde”. Ele sorriu e disse: “Para as pessoas que tem uma vida normal, que nascem e morrem, realmente é preciso cuidar da vida, mas para mim isso não faz muito sentido”.&lt;br /&gt;- Como assim? Perguntei curioso com o que o homem dizia.&lt;br /&gt;- Eu não sou uma pessoa normal, respondeu.&lt;br /&gt;- Como assim? Indaguei surpreso com a resposta.&lt;br /&gt;- Pois é, sou um homem imortal, não vou morrer nunca. Tenho mais de duzentos anos nas costas e não sei quantos séculos ainda vou viver.&lt;br /&gt;- Mas isso deve ser muito bom, disse fingindo que estava acreditando na história.&lt;br /&gt;- Não é nada bom moço. Viver eternamente é um fastio. Não &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;agüento&lt;/span&gt; mais esta &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;vidinha&lt;/span&gt;. As mulheres que amei morreram e também morreram filhos, netos e bisnetos. Também venho há tempos enterrando amigos queridos e inimigos. A vida acaba ficando rotineira, sem graça e não acaba nunca. Não tenho perspectivas, positivas ou negativas e tudo vai se repetindo de forma monótona.&lt;br /&gt;- Mas você pelo menos deve ser um sábio com tanta experiência de vida, com tantos conhecimentos da história? Perguntei, já começando a me interessar pela conversa do estranho.&lt;br /&gt;- Isso é até interessante, mas tenho poucas pessoas com quem falar sobre isso. Alguns me perguntam se sou professor de história, mas nunca cursei nenhuma faculdade, pois meus documentos vão caducando de tempos em tempos. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Atualmente&lt;/span&gt; estou sem nenhum, pois está ficando difícil conseguir um registro de nascimento sem autorização do juiz. Imagine um sujeito de quarenta e cinco anos tentando se registrar num cartório? É preciso ter testemunhas, certidão de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;batismo&lt;/span&gt;, certificado de reservista etc.&lt;br /&gt;Ele era um homem comum, com jeito de gente normal. Explicou-me que havia conquistado a imortalidade quando estava com 45 anos e daí em diante, nunca mais envelheceu, ficou doente ou sentiu qualquer dessas coisas que acometem um ser mortal. Pelos seus cálculos já estava com duzentos e tantos anos. Já havia vivido em vários países e cidades do mundo, pois nunca conseguiu ficar num mesmo lugar por muito tempo, pois as pessoas começam a desconfiar de sua jovialidade após algumas décadas de convívio. Uma das coisas que o desagradavam era saber que não morreria nunca, estando, portanto, condenado a viver para todo o sempre. Seus filhos, netos e bisnetos já haviam morrido. Fazendo as contas, os seus &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;trinetos&lt;/span&gt; já seriam mais velhos do que ele.&lt;br /&gt;- E o que o senhor faz no Brasil?&lt;br /&gt;- Estou por aqui há bem uns cento e dez anos. Entrei no Brasil por &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;Manaus&lt;/span&gt; e lá permaneci por uns 30 anos. Depois fui para Belém, onde fiquei por uns 25 anos. Em seguida fui percorrendo as capitais do Nordeste permanecendo de dez a vinte anos em cada cidade. Depois vim para o sul e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;atualmente&lt;/span&gt; estou em São Paulo, onde permaneço uns dez anos em cada cidade.&lt;br /&gt;Parecia uma conversa de dementes, mas comecei a me interessar pelo inusitado do tema, não tanto por acreditar na história do Juan Bernardo de Alcácer y &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;Gonzales&lt;/span&gt;, mas porque ele era bem articulado e argumentava com certa lógica com seu sotaque espanholado. Digo certa lógica porque não parece muito lógico alguém se considerar imortal, mas mesmo admitindo que fosse uma ficção, tinha lá a sua coerência. A sua história pareceu-me muito, muito triste e se não fosse pelo fato de que não havia pedido absolutamente nada e só fazia se lamentar da sua condição; poderia ignorá-lo e imaginar que fosse um louco varrido, mas acabei ficando envolvido pela conversa.  Cheguei a matutar que tivesse tentando me aplicar um golpe qualquer, como um empréstimo, mas ele só queria mesmo conversar e contar as suas mágoas por ter uma vida sem fim. Perguntei, um tanto relutante, se ele já não havia tentado o suicídio para dar cabo de sua vida, já que a vida eterna não lhe trazia felicidade. Respondeu que já havia tentado dezenas de vezes. Em algumas ocasiões havia colocado a vida em risco, participando de guerras e revoluções, mas sempre se saia bem, ileso. As balas, as explosões, incêndios, nada o atingia. Muitas vezes acabava sendo considerado um herói por salvar companheiros em perigo. Em outras era preso como inimigo, mas esses acabavam libertando-o sem molestá-lo.&lt;br /&gt;- Mas não tem medo de morrer? Perguntei curioso por saber a sua opinião sobre a morte.&lt;br /&gt;- É impossível temer a morte, pois sei que ela não me atinge. Para mim a morte é um problema dos outros, seu e destas pessoas que estão aqui no parque. Fico insensível diante dela. Não me preocupa.&lt;br /&gt;- E as mulheres? Você deve ter amado muitas mulheres e vai trocando de tempos em tempos quando vão envelhecendo, não é? Perguntei com certa ironia.&lt;br /&gt;- Qual o que, moço! Sempre me casei com viúvas ou mulheres abandonadas pelos maridos. Mas elas duram pouco e logo em seguida vou procurar outras mais jovens. Com a minha idade e quase sempre com poucos recursos, não tenho lá grandes opções. Em geral tenho vivido do meu trabalho, fazendo um bico aqui, outro ali. Em todas as vezes que tive propriedade, acabei deixando para os meus filhos e netos, pois precisei partir para não criar problemas.&lt;br /&gt;Como já estava ficando tarde e tinha compromissos, despedi-me do homem imortal e confesso que foi com certa tristeza. Ainda olhei de longe para aquela figura desconsolada sentada no banco do jardim e fiquei imaginando se fosse realmente real uma pessoa viver eternamente. Seria, como ele disse, um tédio. Fui  &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;refletindo&lt;/span&gt; pelo caminho sobre a imortalidade e conclui que realmente não valeria a pena viver mais do que uma geração. A imortalidade da alma apregoada pela maioria das religiões também colocaria o mesmo problema. Viver eternamente sem corpo, sem sensações, não sentir o aroma das madrugadas, não ver o por do sol, sem receber ou dar carinho físico para as pessoas que amamos, sem tomar um café quentinho nas manhãs frias de inverno? Penso mesmo que fomos feitos para sermos mortais, de corpo e alma. O problema é que o ego humano é muito grande para admitir um final. Temos complexo de deuses e perseguimos a imortalidade do corpo e do espírito.&lt;br /&gt;No dia seguinte voltei ao mesmo lugar para dar uma nova caminhada e, quem sabe, encontrar o homem imortal. Qual o que! Nem sinal do tal Juan Bernardo. Depois de algumas voltas sentei no mesmo banco e logo fui procurado por um senhor que me perguntou: “Aquele rapaz que estava conversando com o senhor é seu amigo, parente? “Não, fiquei conhecendo ontem”, respondi um pouco surpreso com a pergunta. “Pois é, ele foi atacado por um bandido na saída do parque. Foi levado para o pronto socorro. Parece que não escapa desta, pobre homem.&lt;br /&gt;A notícia foi surpreendente, pois afinal o meu conhecido “imortal”parece ter encontrado a sua hora e a sua vez e lamentavelmente como vítima de uma cidade injusta e violenta. Pensei em ir até o pronto socorro para confirmar se realmente havia morrido e encerrado o seu sofrimento, mas desisti. Concluí que algumas histórias devem terminar com algum ponto de interrogação, sem soluções possíveis. Tudo isso me fez lembrar o seriado Além da Imaginação, que foi exibido na televisão há muitos anos. Houve um episódio em que um sujeito imortal, tal qual como o Juan Bernardo, teria vivido mais de dois mil anos. Conhecera os grandes filósofos gregos, passara pela Palestina e assistira, ao vivo, a Paixão de Cristo. Mas tal qual o nosso Juan, já estava cansado de viver. No final do episódio, ele é assassinado por uma das suas ex-mulheres abandonada por ele. Enciumada, ela o perseguiu até encontrá-lo na saída da casa de uma nova namorada. Envelhecida ela viu aquele homem jovem que parecia ser seu filho, feliz por estar novamente apaixonado. Não teve dúvidas, disparou alguns tiros e viu o seu amado transformar-se em pó e ser levado pelo vento.&lt;br /&gt;Quem sabe o Juan também tenha evaporado durante a viagem de ambulância até o hospital diante do olhar incrédulo do enfermeiro que o acompanhava? E eu cá com meus botões fiquei pensando por que não perguntei como ele teria conseguido a tal imortalidade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5930696221845882820?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5930696221845882820/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/08/um-homem-imortal.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5930696221845882820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5930696221845882820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/08/um-homem-imortal.html' title='UM HOMEM IMORTAL'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7781094402590611376</id><published>2009-07-24T08:13:00.000-07:00</published><updated>2009-07-26T07:33:00.946-07:00</updated><title type='text'>BEBEDOS E BEBEDEIRAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Beber, como dizia o grande cronista da noite carioca, Antonio Maria, é sempre um mistério, uma sabedoria, que nos leva aos copos e ao estado de graça. Não faço aqui a apologia da bebida, mas existem momentos em que ela é absolutamente necessária e caso se consiga aprecia-la moderadamente, pode ser um santo remédio para as dores da alma. Algumas bebedeiras são motivos de grandes arrependimentos pelas bobagens que se faz, pelas palavras mal pronunciadas que ofende pessoas, destrói amizades ou grandes amores. Outras são motivos de grandes gargalhadas, mesmo depois de passados muitos anos. Algumas são motivos de orgulho, principalmente pelo bêbedo ter falado, num discurso improvisado, alguma coisa que todos gostariam de dizer, mas sempre faltou a coragem que a bebida, às vezes dá, desde que a mente ainda esteja suficientemente lúcida.&lt;br /&gt;Algumas bebedeiras são ontológicas e poderiam ser premiadas pela academia nacional da bebedeira (ANB) pela contribuição sociológica, política, filosófica ou cultural. A embriagues apresenta efeitos variados, dependendo das pessoas. Alguns se tornam agressivos, ofendem amigos e familiares. Outros ficam alegres e tolos repetindo continuamente a mesma frase ou o mesmo assunto. Há também aqueles que ficam quietos e deprimidos. Cada um tem o seu estilo de bebedeira, mas via de regra o dia seguinte é terrível, principalmente pelas críticas da mulher, namorada ou de familiares que ficaram envergonhados com os vexames do dia anterior. Quem escreve já passou por essas, mas sou mais do estilo que ri o tempo todo ou então fico meio sorumbático. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Numa festa em minha casa, a altas horas da noite, resolvi abrir uma garrafa de champagne francês, presente de um cliente da empresa onde trabalhava. Ao abrir a garrafa, uma boa parte da bebida jorrou pela mesa; um sacrilégio. Ao lamentar com um amigo a triste perda, este, já bem alto, se propôs a lamber a mesa para evitar a perda total do produto. Um vexame que ele até hoje ruboriza só de lembrar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um outro amigo, num feriadão na aprazível Butiá, rodeado pelos amigos mais queridos, não teve dúvidas, tomou quase um garrafão de cachaça que alguém levou afirmando que era da melhor procedência. Ele quase entrou em coma alcoólica e se na época, tivéssemos um pouco mais de juízo, teríamos levado o japa para um pronto-socorro. Ele apagou, chegando a urinar nas calças, parado no meio do quintal. Felizmente, algumas horas depois o nosso declamador oficial dos poemas do Manuel Bandeira, acordou perguntando pela camisetinha de Tupã, onde ele venceu um campeonato de xadrez. Nesse mesmo feriado, um outro companheiro de boemia, subiu no alto de uma velha usina hidroelétrica desativada e começou a declamar Castro Alves, enquanto embaixo, todos clamavam para que descesse, pois o risco de uma queda era iminente. A gritaria da platéia era entendida pelo amigo alcoolizado como a sua consagração e ele se sentiu como se tivesse incorporado o espírito do poeta.&lt;br /&gt;Essas bebedeiras esporádicas, apesar dos riscos, dificilmente chegam a comprometer, quando se está na companhia de amigos e familiares. Entretanto, quando elas ocorrem em outros ambientes, podem sim criar problemas. Um conhecido meu, entusiasmado com a dosagem etílica acima da média, numa festa de confraternização de fim de ano, resolveu dar um sonoro beijo na bochecha do gerente. Não é preciso dizer o que aconteceu depois. Numa festa de aniversário de uma outra empresa, após o discurso do presidente, um colega entusiasmado e ligeiramente alcoolizado, resolveu levantar um brinde a empresa, dizendo: “Vamos brindar o sucesso da melhor empresa do Brasil”. Houve um silêncio total para o azar do pobre Leonardo, um bom sujeito, que acabou pedindo demissão por não suportar mais as gozações.&lt;br /&gt;Quando o hábito de beber se transforma numa dependência química, que segundo pesquisas atinge de 15 a 20% da população, as coisas se complicam. Foi com imensa tristeza que encontramos, numa padaria, um amigo de velhos tempos numa véspera de feriado bebendo cerveja, sozinho e desconsolado. Eu estava com minha mulher e ao nos ver ficou muito emocionado. Comentamos que estávamos indo para a casa de um amigo comum que havia combinado o encontro para assistirmos a final do festival de música popular da TV Cultura. Não deveria ter falado! Ele resolveu ir junto para fazer uma surpresa ao amigo. Como já estava bem alcoolizado achei melhor que fosse em nosso carro, pois assim não correria maiores riscos. No caminho percebi que estávamos prestes a criar um grande problema. Chegando ao local, começou o festival de vexames. Nosso anfitrião, felizmente, uma pessoa finíssima, encarou o desconforto de receber um alcoólatra mal educado e agressivo como parte dos perigos demais dessa vida. Mesmo assim, a certas horas da noite, ele foi obrigado a dar uma dura no bêbedo, que insistia em falar besteiras, sem se dar conta de que estava na casa de um amigo e na presença da filha desse. Insatisfeito com a cerveja, ele ainda saiu para procurar um bar para beber um uísque. Ficamos na expectativa de que ele aproveitasse a saída e fosse embora, deixando-nos em paz. Qual o quê! Ele retornou com mais um copo e continuou com sua ladainha de palavrões e ofensas indescritíveis.&lt;br /&gt;Até hoje o meu amigo ainda joga suas farpas quando se lembra do episódio e prometeu que ainda irá à forra. “Você me paga por essa”, sempre diz brincando, mas sei que se não fosse pela nossa longa amizade os efeitos da inesperada e pouco desejada visita poderia ter desfechos bem menos agradáveis.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7781094402590611376?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7781094402590611376/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/07/bebedos-e-bebedeiras.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7781094402590611376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7781094402590611376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/07/bebedos-e-bebedeiras.html' title='BEBEDOS E BEBEDEIRAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5912354751859588336</id><published>2009-07-18T17:40:00.000-07:00</published><updated>2009-07-18T17:41:56.601-07:00</updated><title type='text'>PARA QUE VERSOS?</title><content type='html'>Pediram-me versos!&lt;br /&gt;Eu me pergunto:&lt;br /&gt;Para que versos?&lt;br /&gt;Estamos num tempo sem alma&lt;br /&gt;Os homens estão sem memória&lt;br /&gt;Ninguém mais consegue&lt;br /&gt;Ver o deslumbramento&lt;br /&gt;De um amanhecer&lt;br /&gt;Caminhamos para um tempo&lt;br /&gt;Sem sorrisos&lt;br /&gt;Sem mãos que afagam&lt;br /&gt;Sem vozes que cantam&lt;br /&gt;Sem desejos&lt;br /&gt;Sem esperanças&lt;br /&gt;Para que versos meu Deus!&lt;br /&gt;Ele não responde&lt;br /&gt;Ninguém responde&lt;br /&gt;Grito no escuro&lt;br /&gt;Sem ecos&lt;br /&gt;Sem vozes&lt;br /&gt;A cidade está vazia&lt;br /&gt;Mas os passos apressados&lt;br /&gt;Continuam sua longa marcha&lt;br /&gt;Todos fogem&lt;br /&gt;Mas ninguém sabe para onde&lt;br /&gt;Haverá amanhã?&lt;br /&gt;Um ano que vem?&lt;br /&gt;Um futuro?&lt;br /&gt;A vida escapa das nossas mãos frágeis&lt;br /&gt;Não entendemos nada&lt;br /&gt;Não vemos nada&lt;br /&gt;Falamos para ninguém&lt;br /&gt;Enquanto isso&lt;br /&gt;Os pássaros conversam&lt;br /&gt;Na linguagem possível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5912354751859588336?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5912354751859588336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/07/para-que-versos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5912354751859588336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5912354751859588336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/07/para-que-versos.html' title='PARA QUE VERSOS?'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-260406198239927027</id><published>2009-07-18T17:37:00.000-07:00</published><updated>2009-07-18T17:38:19.772-07:00</updated><title type='text'>OS LIVROS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um velho amigo, dos tempos de faculdade, contou-me desconsolado que vendera seus livros a um sebo por uma merreca. Fiquei espantado com o inusitado do fato e toparia até comprá-los, caso me oferecesse a relíquia. Mas era tarde demais e só me restou, como consolo, ouví-lo contar sobre a triste separação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de contemplar seus livros durante horas, lembrando os bons momentos em que estiveram juntos debatendo idéias, criticando e anotando. Alguns deles até lembrou-se do momento da compra, outros foram apropriados, sorrateiramente, nos tempos de estudante, outros presenteados por amigos e parentes. Tudo parecia distante e frio, pois já não sentia mais aquele amor devotado aos livros que aprendera a cultivar durante longos anos. Quantas vezes perdeu a paciência com pessoas mal educadas que dobravam as páginas dos livros ou rasgavam as páginas ou as capas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já tinha tomado a decisão de vendê-los e ninguém, nada, iria demovê-lo. O primeiro comprador ofereceu um preço apenas razoável, mas pediu o parcelamento do valor. O segundo, apesar do preço mais baixo, pagava a vista. O valor da venda era ridículo perto do valor sentimental, material e intelectual das brochuras. Mais de dois mil livros e só ofereciam cinqüenta centavos para cada um. Uma miséria, menos de sessenta vezes o valor médio de um livro novo. Infelizmente o apartamento era pequeno e não havia mais espaço para acomodá-los. Acumulava poeira e praticamente não tinha mais contato com eles. Há muito, abandonara suas posições políticas  e intelectualmente radicais. “Esqueçam o que eu li”, brincava ele, parodiando o intelectual presidente que pedia para esquecerem o que ele havia escrito. O mundo em que acreditou desmoronava-se. As experiências socialistas estavam enterradas, talvez para sempre. Sentia-se cada vez mais anacrônico e deixou de defender antigas posições. Sentia-se envelhecido Ele que sempre foi muito respeitado por suas convicções e honestidade intelectual, lendo com visão crítica tudo que caia em suas mãos, pendurou as chuteiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora, pensava, de que adiantava esses livros todos, acumulando poeira, ocupando espaços preciosos do pequeno apartamento. Provavelmente nunca mais fosse lê-los com interesse. Alguns deles, há anos, não eram sequer tocados. Vendê-los a um sebo seria um sacrilégio, mas não restava alternativa. Quem sabe algum amigo ou conhecido passasse por um desses “sucateiros da cultura” e, ao comprar um livro, reconhecesse a caligrafia cuidadosa nas anotações nas margens e rodapés. Até que seria interessante, chegou a pensar. Talvez esse amigo pudesse imaginar que já estivesse morto ou então numa pindaíba tão grande que precisou até vender as velhas brochuras.  Pode ser que esse amigo, depois de comprar um dos livros em um sebo qualquer, poderia até fazer um telefonema e relembrar os velhos tempos de juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o comprador chegou, e sem demora, sob a orientação da sua mulher, foi encaixotando todos eles sem nenhuma consideração especial. Meros papéis... Foram várias viagens até encerrar o carregamento. Deixou um cheque e despediu-se como se tivesse comprado algumas caixas de ferro velho. Nenhuma palavra de consolo para aquele que estava se desfazendo de parte de sua vida, de suas lembranças, de suas utopias. Sentou-se, apoiou as mãos sobre a bengala e chorou, como uma criança.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-260406198239927027?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/260406198239927027/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/07/os-livros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/260406198239927027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/260406198239927027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/07/os-livros.html' title='OS LIVROS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4722083561440083101</id><published>2009-06-30T15:29:00.000-07:00</published><updated>2009-06-30T15:52:41.622-07:00</updated><title type='text'>NATALINA, UMA DOMÉSTICA DE CULTURA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pedreiro passou lá em casa e deixou uma pequena obra e muita sujeira. A limpeza seria árdua se não fossem os esforços da Natalina, uma empregada que passou uns tempos lá em casa. Mas no início da faxina minha mulher antecipou que seria muito difícil e eu disse que seria necessário esfregar exaustivamente para conseguir algum resultado. Algum tempo depois ouvi a Natalina dizer: “Já esfreguei exaustivamente e não consegui nenhum resultado”. Primeiramente pensei que ela tivesse gostado da palavra e a havia incorporado ao seu repertório pela sonoridade do vocábulo, mas logo depois percebi que não era bem isso.&lt;br /&gt;Tempos depois, sentado no sofá lendo meu jornal num dia de folga, enquanto a Natalina fazia a faxina na estante ouvi a máxima: “As vinhas da Ira é um livro muito interessante. É o livro que mais gosto do Steimbeck”. Olhei para os lados para me certificar de que fora mesmo a Natalina que havia pronunciado aquela frase. E era mesmo. “Você leu todo o Steimbeck?”  Perguntei surpreso. Li toda a obra e muitos outros também. Foi aí que descobri que a minha biblioteca era pequena demais para a cultura de nossa empregada, que começou a ler aos oito anos de idade e nunca mais parou. Explicou-nos depois, que praticamente nascera na casa em que sua mãe trabalhava e ainda menina bisbilhotava a enorme biblioteca da casa. O dono, percebendo o interesse da garota foi orientando a sua leitura e com isso, passava horas e horas na biblioteca.&lt;br /&gt;Natalina era negra, alta e forte com um sorriso simpático e acolhedor. Ela tinha a dignidade de uma dama. Ela sustentava uma irmã doente que trabalhara durante trinta anos em uma casa de família, que a despejou tão logo ficou enferma. Quando a irmã morreu ficou numa situação difícil, pois não dispunha de recursos para o enterro. Quando ofereci o dinheiro para as despesas, ela respondeu: “Vocês não tem nenhuma obrigação em me ajudar. Eu vou falar com a ex-patroa dela. Ela sim tem obrigação”. No final precisou, a contragosto, aceitar a minha oferta, desde que fosse como empréstimo, mesmo com o meu discurso de que eu também tinha obrigação de ajudá-la num momento como aquele. Foi difícil convencê-la de que não era um empréstimo, mas uma doação.&lt;br /&gt;Mas nossa alegria durou pouco e nem tivemos tempo de promover algumas reuniões literárias com a nossa culta empregada, que desapareceu de repente, sem dar notícias. Fomos até o bairro onde morava e não conseguimos localizá-la e ninguém sabia do seu paradeiro. Pobre Natalina desapareceu da mesma forma como entrou em nossas vidas, sem muita explicação.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4722083561440083101?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4722083561440083101/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/natalina-uma-domestica-de-cultura.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4722083561440083101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4722083561440083101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/natalina-uma-domestica-de-cultura.html' title='NATALINA, UMA DOMÉSTICA DE CULTURA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5908827847457646892</id><published>2009-06-30T15:28:00.001-07:00</published><updated>2009-07-10T16:55:22.377-07:00</updated><title type='text'>UM COMUNISTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me quando meu pai contou a um primo mais velho que estava preocupado com a possibilidade de eu ter me tornado um comunista. Não que ele soubesse exatamente o seria um comunista ou comunismo. Ele tinha uma idéia muito vaga sobre isso com base nos discursos da direita conservadora. Era frequente nos meios de comunicação, os militares falarem no perigo cripto-comunista que ameaçava a família brasileira. Ele era eleitor fiel do Ademar de Barros, um famoso político do “rouba, mas faz”, mais conhecido pelas denúncias de corrupção como negociatas, desvios de dinheiro público etc. A culpa toda do medo do meu pai foi de um livro sobre a União Soviética que um colega de trabalho emprestou-me para ler. O livro na verdade não fazia apologia da União Soviética, mas uma crítica ao comunismo. Era um documentário sobre o primeiro país comunista do mundo e comentava sobre alguns progressos, mas criticava a falta de liberdade, ausência de eleições livres etc. A pessoa que me emprestou o livro não era um comunista, muito pelo contrário, ele era um liberal esclarecido. Seu nome, Rubens Novaes, o contador da empresa, e de certa forma, foi meu preceptor e chefe. Ele me ensinou os meandros da burocracia, como preencher uma nota fiscal, fazer controle de estoque, cálculos de custo, orçamentos etc. Mas ele foi além, ao me incentivar a ler romances, biografias e revistas de conhecimentos gerais. Politicamente ele oscilava entre o conservadorismo e a esquerda liberal, mas nunca assumiu uma posição política muito clara. Na fase mais crítica do governo Goulart, quando o debate sobre as Reformas de Base ganhava as ruas, ele era um ardoroso defensor da tese do desenvolvimento nacionalista autônomo. Mas quando os militares tomaram o poder, logo ele passou a defender e justificar as medidas “moralizadoras” do novo governo. Mas ele não era muito convicto, sugerindo que queria acreditar que o país havia de melhorar. De qualquer forma, devo muito ao Rubens a minha formação. Era uma pessoa bastante culta para o seu nível de escolaridade, pois lia muito. Eu estava com catorze anos quando comecei a trabalhar com ele. Durante o expediente sempre arranjava tempo para falar dos grandes escritores nacionais e estrangeiros. Lembro-me que me contou, com detalhes, Os Miseráveis de Victor Hugo, quase poupando-me de ler o volumoso romance. Pelo menos um capítulo por dia era desfiado durante o expediente, aproveitando os intervalos e a ausência do gerente.&lt;br /&gt;Mas havia na empresa um comunista de verdade, com carteirinha e tudo. Era um torneiro mecânico chamado Paulo Ponciano, mineiro de Belo Horizonte. O Paulo era um mulato, culto, educado e também muito articulado, conhecedor da dialética marxista, condição que lhe dava grandes vantagens nos debates políticos durante os intervalos para o café e após o almoço. Ele tinha posições muito claras sobre o papel da classe operária na revolução e desfiava o processo revolucionário e a importância da classe operária durante os intervalos para o café e durante o horário de almoço. Mas a sua competência profissional e seriedade acabaram lhe pregando uma peça, pois acabou sendo promovido a Encarregado, situação que o deixou bastante desconfortável. Ser revolucionário e ao mesmo tempo precisar defender os interesses do capital junto aos operários como: exigir maior produtividade e disciplina, desgastaram a sua imagem.&lt;br /&gt;Os operários comentavam a boca pequena: “Era comunista quando era peão, depois virou a casaca”. Depois disso, raramente se metia em discussões políticas, preferindo falar sempre em tese sobre as tendências do capitalismo. Soube, tempos depois, que pediu demissão e voltou para Minas, onde montou uma pequena indústria e se tornou um “burguês” empreendedor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5908827847457646892?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5908827847457646892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/um-comunista.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5908827847457646892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5908827847457646892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/um-comunista.html' title='UM COMUNISTA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6831654714390308839</id><published>2009-06-15T08:32:00.001-07:00</published><updated>2009-06-15T08:32:57.612-07:00</updated><title type='text'>O GOLPE DO RELÓGIO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Ao ver os camelôs nas ruas e praças do centro de São Paulo com centenas de relógios importados de todas as marcas, autênticos e falsificados, faz-me recordar os tempos em que a máquinas de marcar horas eram objetos pouco acessíveis à maioria das pessoas. Um bom e reluzente relógio de pulso era também símbolo de status e cidadania. Por um relógio muitos caiam no conto-do-vigário. O famoso Ômega, um suíço de pedigree era o sonho de consumo  de muita gente. Falava-se no Ômega Ferradura (confundia-se a letra grega com a ferradura utilizada nas patas dos cavalos e se pronunciava o nome sem o acento).&lt;br /&gt;            Meu sogro, paulistano da Mooca acabou caindo no famoso conto lá pelos anos quarenta.  Ele havia conseguido o seu primeiro emprego numa companhia de seguros. Com seu terno de casimira inglesa azul marinho e um chapéu Ramenzoni, faltava um relógio para completar a sua elegância. Ao receber o seu primeiro salário, não teve dúvidas, tirou o final da tarde para namorar as vitrinas das relojoarias e quem sabe, comprar um bom relógio. Enquanto sonhava diante de uma na Praça Patriarca,  um homem se aproximou e lhe disse:&lt;br /&gt;            - Está procurando por um bom relógio moço? Tenho um por um preço bem melhor do que o da loja.&lt;br /&gt;-         Não, obrigado, respondeu um pouco desconfiado.&lt;br /&gt;-         Dê uma olhadinha e veja que belo relógio, disse o estranho, abrindo o paletó e mostrando um relógio em uma caixinha.&lt;br /&gt;-         Ainda desconfiado, o meu sogro desconversou, apesar do preço ser muito convidativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Mas o homem insistiu tanto e foi abaixando tanto o valor do relógio, que o jovem paulistano acabou topando fazer o negócio. O homem achou melhor que se retirassem para um local mais discreto, pois o relógio era muito valioso e poderia chamar a atenção. Chegando à escadaria que dá acesso ao vale do Anhangabaú, o homem mostrou o belo relógio e meu sogro imediatamente  pagou. O homem entregou a caixinha e subiu a escadaria desaparecendo por entre a multidão.&lt;br /&gt;            No bonde não suportava mais a ansiedade de pegar o relógio e coloca-lo no pulso, mas preferiu deixar para fazer isso em casa, com calma, pois poderia ser arriscado ser aliviado por um batedor de carteiras, figura sinistra naqueles tempos. Desceu do bonde na Rua dos Trilhos e foi para casa, mal conseguindo respirar de tanta emoção. Diante dos pais tirou a caixinha do bolso do paletó e abriu. Uma desagradável surpresa: um pedaço de pedra.&lt;br /&gt;            No dia seguinte tentou em vão encontrar o vigarista, mas qual! Eles nunca agiam nos mesmos lugares depois de pegar um otário e ele precisou de conformar e esperar o próximo pagamento para ter o seu objeto de desejo. Naqueles tempos o roubo envolvia  a esperteza e dotes de artista para ter sucesso. Convencia-se o incauto pela sua própria ambição e desejo, ainda que inconsciente, de ludibriar alguém e levar vantagem.&lt;br /&gt;            Alguém se lembra do golpe dos sapatos de cromo alemão nos anos sessenta? Pois bem, vale a pena contá-lo. Um senhor bem vestido entrou numa pastelaria vizinha de uma sapataria e encomendou 300 pasteis para retirar às 15 horas. Em seguinte foi à sapataria e experimentou um belo par de calçados de fino cromo alemão e manifestou sua aprovação pelo conforto que dava aos seus pés. Falou com o vendedor que não tinha dinheiro no momento, mas ia receber um dinheiro do pasteleiro ao lado e caso concordasse, pediria para que ele lhe pagasse a importância, 150 contos. O vendedor falou com o gerente e foram até a pastelaria para combinar. Lá chegando, o homem disse para o pasteleiro: “Dos 300 o senhor dê a ele 150”. O Chinês sem entender nada, confirmou o negócio. O homem levou os sapatos e às três horas em ponto, o chinês levou à sapataria, nada mais nada menos do que 150 pastéis. Não é preciso dizer que o delegado caiu na gargalhada pelo inusitado do conto diante do pasteleiro que queria receber o dinheiro pelos trezentos pastéis e do sapateiro que queria receber pelos sapatos.&lt;br /&gt;            São Paulo era assim, com seus vigaristas lendários e porque não dizer simpáticos. Afinal convenciam as pessoas a abrirem mão de seus bens de forma pacífica e civilizada. Que voltem os bons tempos da vigarice bem feita! Com certeza ninguém sentirá saudades de assaltos a mão-armada e cheios de violência, mas a vigarice tinha lá o seu charme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6831654714390308839?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6831654714390308839/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/o-golpe-do-relogio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6831654714390308839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6831654714390308839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/o-golpe-do-relogio.html' title='O GOLPE DO RELÓGIO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-2824972746264954933</id><published>2009-06-15T08:28:00.000-07:00</published><updated>2009-06-15T08:29:19.568-07:00</updated><title type='text'>O PAPAGAIO IRREVERENTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ganhamos um papagaio. Que o IBAMA nos perdoe, mas o tal papagaio foi criado em casa e aprendeu, a duras penas, a falar palavrão. Vai te..., Vai tomar..., eram expressões habitualmente utilizadas pelo bichinho de estimação. Minha cunhada, a dona do louro, trabalhava fora e para aplacar a solidão, ele repetia impropérios que eram ouvidos por toda a vizinhança do prédio. Uma vizinha, ciosa dos bons costumes, fez uma queixa num juizado de pequenas causas, pois o papagaio estava prejudicando a educação dos seus filhotes, soltando palavrões até na mesa de refeições. Entretanto, ficou uma incógnita sobre quem ensinou o bicho o indesejável repertório. A família reza de pés-juntos que não foi ninguém da casa. Conhecendo os hábitos familiares, é impossível duvidar. Com toda certeza foi algum moleque de algum apartamento vizinho, que aproveitando a ausência da dona, enriqueceu o vocabulário da ave.&lt;br /&gt;Diante do impasse, ela resolveu doar o bichinho e escolheu a nós para recebê-lo. Como negar? Vamos tentar reeducá-lo para que esqueça os palavrórios pouco condizentes com os bons costumes. Minha filha até sugeriu que lêssemos poesia para que ele se tornasse um papagaio culto e de repente poderíamos até levá-lo à televisão para uma performance.&lt;br /&gt;Instalado em casa, o bicho desandou a dizer besteiras. A nossa empregada, uma ciosa senhora evangélica pediu de pronto demissão. “Ou eu ou o papagaio?”. Evidentemente que foi ela, pois nunca fomos tão puritanos ao ponto de crucificar um papagaio em nome da moral e dos bons costumes. Quando aos versos de Drummond, Bandeira e Cecília Meirelles, nem pensar. Até tentamos o Bocage, mas ele considerou os versos um tanto anacrônicos e não se deu ao trabalho de repeti-los.&lt;br /&gt;Além de dizer palavrórios pouco adequados a um casal razoavelmente educado e com uma filha pequena, o nosso arauto não gostava da nossa cadela, a Alpha, uma pastora mansa e meiga. O papagaio para provocá-la,  chamava-a pelo nome e quando ela se aproximava da gaiola ele largava uma bicada sem nenhuma graça no focinho dela. Isso gerou uma profunda inimizade que foi a responsável direta por uma tragédia que veio acontecer alguns meses depois.&lt;br /&gt;Como minha filha tinha o tom de voz parecido com a minha sobrinha, o papagaio a chamava de Carolina e por mais que ela repetisse o seu nome, ele por pirraça continuava chamando-a pelo nome errado.&lt;br /&gt;- Eu sou a Mariane!&lt;br /&gt;- Ahhh! Carolina!&lt;br /&gt;            Aos poucos fomos dando uma folga para o bicho e resolvemos soltá-lo pelo quintal. Ele muito esperto, sempre ficava nas árvores ou sobre o telhado para evitar a cachorra que o observava sorrateiramente. Quando ele resolveu dar passeios mais longos, começamos a ter problemas para localizá-lo e foi aí que alguém sugeriu que cortássemos suas asas para que ele não fugisse. A partir daí ele era colocado em uma árvore para curtir o sol da manhã e depois recolocado na gaiola.&lt;br /&gt;Um dia, saímos cedo e deixamos o bicho na gaiola, como sempre fazíamos. Ao voltarmos, cadê o papagaio? Ele havia soltado o trinco da gaiola e fugido. Procuramos por toda a parte e nada do papagaio. Perguntamos aos vizinhos e nenhum sinal.&lt;br /&gt; Só fomos descobrir o mistério no dia seguinte ao observar nas fezes da cachorra, restos de penas e um bico que não foram digeridos pela raiva canina. A vingança da Alpha foi fatal. Ela não perdoou jamais as bicadas no seu focinho, mesmo não considerando um papagaio uma boa refeição. Como se diz no ditado popular: vingança se come cru.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-2824972746264954933?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/2824972746264954933/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/o-papagaio-irreverente.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2824972746264954933'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/2824972746264954933'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/o-papagaio-irreverente.html' title='O PAPAGAIO IRREVERENTE'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6057269254641043156</id><published>2009-06-05T08:05:00.001-07:00</published><updated>2009-06-05T15:40:59.595-07:00</updated><title type='text'>ADEUS LENIN</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Para a geração de 1968, o ano que não terminou, imaginar que um dia a estátua de Lênin seria carregada com um guindaste para ser depositada em uma caçamba de entulho, era algo simplesmente inusitado. Lembro-me de ter lido, na época, um artigo no Estadão que afirmava categoricamente que jamais haveria retrocesso na revolução russa. Ela poderia avançar, mas nunca retornar ao capitalismo consumista. O autor sinalizava que após setenta anos de revolução e várias gerações, o socialismo já estava no DNA do povo soviético. Ele ia mais longe e afirmava que a URSS estava prestes a passar por uma nova revolução, mas com outras finalidades, como por exemplo desbancar a burocracia partidária que havia se apoderado da primeira experiência socialista do planeta. Esta revolução seria mais um avanço histórico e democrático em direção à utopia comunista, uma sociedade sem classes, sem privilégios, sem fome e sem desigualdades sociais.&lt;br /&gt;A Primavera de Praga, segundo o autor, que infelizmente não me recordo o nome, teria sido um passo tímido em direção às mudanças estruturais e democráticas no socialismo. Mas como ainda não havia condições históricas, ela foi violentamente reprimida pelo poderio da camarilha soviética.&lt;br /&gt;Meus antigos amigos, taciturnos e revolucionários, ficaram entusiasmadíssimos com o artigo, pois muito embora torcessem por uma revolução socialista no Brasil, tinham pavor da ditadura do proletariado, que deveria vir com muita repressão aos direitos individuais. Alguns eram poetas, românticos e porque não dizer: mulherengos. A exploração da mulher como objeto sexual estaria com os dias contados após a revolução. Beber vinhos ou whisky eram hábitos pequenos burgueses que seriam varridos do mapa. Um desses meus amigos era fanático por Trotski do qual lia tudo, sendo o Profeta Armado o seu preferido. Seu sonho era passar uns dias em Paris depois da revolução para curtir as francesas que eram, na sua opinião, apaixonadas por revolucionários latinos. Era o seu sonho de consumo “pequeno burguês” e revolucionário.&lt;br /&gt;Uma revolução que não suprimisse todas as liberdades e que permitisse um chopinho a beira-mar com belas garotas não faria mal a ninguém e estaria bem ao gosto do povo brasileiro que nunca seria tão radical como os russos ou chineses. Além do mais seria necessário estimular a poesia, fundamental para a saúde da alma. Alguém se lembra daquela frase dita por Stelnikoff, um bolchevista radical para o poeta Dr. Jivago: “Sua poesia é muito pessoal e a vida pessoal acabou na Rússia”? Pois é, poesia somente as revolucionárias como a do Maiakovski. Quem sabe o Ferreira Gullar seria até tolerado, mas não por muito tempo. O Poema Sujo poderia ser considerado um poema pequeno burguês decadente. Eu duvido que até o Chico Buarque, ícone da esquerda festiva brasileira, seria suportado depois dos festejos revolucionários. Músicas como Olé Olá, Carolina, Sabiá entre tantas outras seriam consideradas como resquícios de uma classe média decadente que precisaria ser extirpada de nossa sociedade.&lt;br /&gt;Mas deixemos de muita conversa e voltemos ao Adeus Lênin, filme que é o objetivo desta crônica. Ele é profundamente triste do ponto de vista do personagem que busca por todos os meios preservar a memória de sua mãe que retorna a vida após meses em coma. Como dizer a alguém idealista que dedicou toda a sua vida a causa socialista que a Coca-Cola era a bebida mais consumida pela juventude da Alemanha Oriental? Que os carros do capitalismo decadente haviam destruído a indústria automobilística da República Democrática Alemã? O sonho havia acabado e ele não ousava despertar sua mãe que acordou sem saber que durante sua longa ausência pela enfermidade, uma grande revolução mudou drasticamente o mundo socialista. O neoliberalismo triunfou e acabou a História como disse Fukuyama em seu polêmico livro “O fim da História e o último homem”. O muro de Berlin desabou com a fúria popular. Um capitalismo corrupto e selvagem se instalou em toda URSS e nos países que antes eram seus satélites. Os anos de repressão violenta de nada adiantaram e o “maligno” retornou com força total. Nada restou do sonho (para alguns) de uma sociedade igualitária que era cantada em prosa e versos por sonhadores latinos.&lt;br /&gt;Simbolicamente a personagem de Adeus Lênin talvez tenha sido o último suspiro da utopia que povoou o imaginário de algumas gerações. Muita gente sonhou em ser um Che Guevara aventureiro pelos campos da América do Sul, como um frei dominicano que conheci. Ele abandonou sua noiva e seu conforto para cantar as veias abertas da América Latina e salvar, para a redenção eterna, todos os pobres e infortunados latino-americanos.&lt;br /&gt;Hoje, a estatua de Lênin provavelmente está disponível como peça de algum antiquário europeu, sedento para lucrar alguns dólares em seu negócio. Há também a múmia que, provavelmente, estará em algum porão de armazém corroído pelos micróbios dos quais foi religiosamente preservada durante a fase da idolatria revolucionária. Che Guevara virou um ícone da contra-cultura ou uma quase grife da moda juvenil. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura, jamás”, famosa frase que teria sido dita pelo Che já perdeu o seu encanto, pois ele teria sido um revolucionário mais duro e cruel do que a imagem construída de que era um homem charmoso, romântico e humanista.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6057269254641043156?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6057269254641043156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/adeus-lenin.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6057269254641043156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6057269254641043156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/06/adeus-lenin.html' title='ADEUS LENIN'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-7561095310422639107</id><published>2009-05-28T16:35:00.000-07:00</published><updated>2009-05-28T16:36:49.132-07:00</updated><title type='text'>LEITE DERRAMADO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Chico Buarque de Hollanda é uma unanimidade nacional e é por isso mesmo que o seu último romance, Leite Derramado, alcançou um sucesso de vendas que poucos escritores, alguns até mais consagrados pelo público e pela crítica, conseguem. É um livro bem editado, com duas opções de capa e é para ninguém botar defeito. A leitura não é das mais fáceis, pois Chico não é um escritor de textos previsíveis, com começo, meio e fim. O personagem Eulalio d´Assumpção começa a sua história em cima de uma maca se dirigindo a enfermeira que o atende num hospital público, onde as pessoas ficam largadas nos corredores, retratando a real situação da saúde brasileira.&lt;br /&gt;Um velho senil que se perde entre o passado e o presente confunde personagens da história, fatos e lugares. Com cem anos de idade, Eulálio ainda conserva  o orgulho de pertencer a um tradicional tronco de famílias brasileiras. Seu bisavô teria chegado com a família real portuguesa. Na sua árvore genealógica figurariam grandes fortunas do império que teriam transitado pelos corredores do poder até a República Velha.&lt;br /&gt;O velhinho, apesar de arruinado, sem plano de saúde e morando em um quarto de favor em uma favela não se dá por vencido e ainda brada sua origem pelas repartições, tentando retornar o tempo perdido ou o leite derramado. Ninguém dá mais importância às tradições de famílias, principalmente para aquelas que não tem mais dinheiro. Às vezes, o personagem se torna um tanto inverossímil, com um raciocínio lógico e coerente, pois tenho a impressão de que a senilidade, pelos casos que conheço, dá pouco espaço para a lucidez. Mas o Chico consegue levar a história até o seu final com os devaneios do Eulálio.&lt;br /&gt;Chico Buarque retrata de forma bastante cáustica e irônica  a decadência das grandes famílias e tenho a impressão de que ele ironiza a si mesmo. Todos sabem que os Buarque de Hollanda vem de uma antiga linhagem pernambucana, que remonta aos invasores holandeses e senadores do império.  Os Gonçalves Moreira, de sua avó paterna também vem de uma linhagem que envolve tradicionais famílias mineiras e ramos paulistas. A família de sua mãe, também não fica atrás, com os Cesário Alvin, uma antiga família mineira que controlou o poder político no estado. É possível que o Chico tenha ouvido durante a sua infância as velhas histórias dos seus antepassados, com suas glórias, tradições, poder, dinheiro e escravos.&lt;br /&gt;Não acredito  que a obra foi influenciada por Raízes do Brasil, publicada por seu pai em 1937, como afirmaram alguns críticos. O livro de Sérgio Buarque é um trabalho teórico, influenciado pela sociologia compreensiva de Max Weber, sociólogo alemão, cuja obra ele conheceu na sua estada na Alemanha no final dos anos 30. O livro do Chico, por seu turno,  retrata o apego das velhas famílias aos valores tradicionais que tentam viver do passado e da pureza inexistente da “raça”, ignorando as mulheres índias e negras que ajudaram a compor a sua genealogia. A saga da família Assumpção acompanha a história do Brasil nos séculos XIX e XX, sendo neste último a decadência. Pessimista, o autor não somente empobreceu o personagem, como transformou os seus descendentes em marginais na sociedade moderna. De grandes importadores de armas, proprietários de terras e políticos influentes, foram parar na favela da Rocinha, vivendo do tráfico de cocaína. Alguma coisa no livro me lembra os Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez, que também retrata a saga da família Buendia na Colômbia.&lt;br /&gt;            A saga dos Assumpção ou o Leite Derramado reflete uma visão pessimista em relação ao futuro pelo autor, prevendo uma sociedade cada vez mais decadente e corrupta, com antigos valores conflitando com o crime organizado e a necessidade de sobrevivência. Dos casarões para a favela em três gerações e um desfecho pouco provável para uma família tradicional brasileira que na pior das hipóteses vai morar em apartamentos de classe media de Copacabana. Mas isso não altera a qualidade do romance. O Chico já não é apenas samba, mas um escritor de talento e daqui para frente os seus fãs irão vê-lo mais nas estantes das livrarias do que nas lojas de discos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-7561095310422639107?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/7561095310422639107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/05/leite-derramado.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7561095310422639107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/7561095310422639107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/05/leite-derramado.html' title='LEITE DERRAMADO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-3846215036298400919</id><published>2009-05-09T18:00:00.000-07:00</published><updated>2009-06-05T15:44:53.221-07:00</updated><title type='text'>ELE NÃO MORA MAIS AQUI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alô! Quero falar com o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt;?&lt;br /&gt;- Quem? Ah! Ele não mora mais aqui.&lt;br /&gt;- Como não mora ...? Quem está falando?&lt;br /&gt;- É o filho dele..&lt;br /&gt;- O que aconteceu? Morreu?&lt;br /&gt;- Não meu senhor. É que ele mudou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu amigo &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt; mudou de endereço e não avisou ninguém. Deixou a bela casa que construiu, tijolo por tijolo, com amor, suor e lágrimas, como diria alguém mais dramático. Lembro-me de quando mudou para o local, indo morar na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;edícula&lt;/span&gt; enquanto levantava a casa dos seus sonhos. O terreno espaçoso, onde abrigaria a área de lazer com &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;churrasqueira&lt;/span&gt; e local para as rodas de samba, uma de suas grandes paixões. A amoreira ficou lá, no meio do quintal. “É para os passarinhos se regalarem, dizia orgulhoso”. Ficou também uma goiabeira que no outono carregava, sobrando para presentear amigos e parentes, além dos doces e compotas.&lt;br /&gt;A casa do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt; vivia repleta de bem-te-vis, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;sabiás&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;rolinhas&lt;/span&gt; que passeavam livres, alem de velhos sambistas que ele ia &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;colecionando&lt;/span&gt; no seu rol de amizades. Por lá passaram &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;Catolé&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Padilha&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;Xará&lt;/span&gt;, Dedo, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;Saulo&lt;/span&gt; de Tarso, Wilson e outros que a minha memória deixou envolvidos em teias de aranha. Com esses sambistas baixavam os espíritos do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;Noel&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;Vadico&lt;/span&gt;, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Ari&lt;/span&gt; Barroso, Geraldo Pereira entre outros, transformando a casa do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt; num templo da boa música brasileira. Ele mesmo desfilava dezenas de sambas, resgatando coisas do arco da velha, fruto de suas pesquisas. Além disso, o nosso &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt; compunha as suas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;marchinhas&lt;/span&gt; e alguns sambas memoráveis. Pena que o grande público não teve oportunidade de conhecer as canções bem construídas com letras bem humoradas e repletas de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;picardia&lt;/span&gt;. Ainda me lembro de sambas como “Dois Tijolos”, que ele fez sobre o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;Padilha&lt;/span&gt;, que há muito deixou nossa companhia.&lt;br /&gt;E agora eu me pergunto: Como o velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt; estará sem aquele espaço, rodeado de natureza e ainda impregnado do clima de antigas rodas de samba? Soube que conseguiu de um velho amigo, um cantinho numa loja de plantas e flores. Como sempre foi apaixonado pela natureza, preferiu o desconforto a ficar sem ela. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;Dizem&lt;/span&gt; que levou apenas a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;vitrolinha&lt;/span&gt; dos anos sessenta, seus discos e alguns poucos livros, entre os quais o Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa, que ele relê sempre que ouve a canção Mês de Maria, do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;Ari&lt;/span&gt; Barroso, cujos versos ele sempre repete “Tenho saudades do Brasil, caipira/ dos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;madrigais&lt;/span&gt; ao som da lira...”. Morar num apartamento, nem pensar. Repetia sempre o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;Asdrú&lt;/span&gt;, como carinhosamente era chamado. A &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;vitrolinha&lt;/span&gt;, dizem os amigos comuns, está pelas tabelas e o chiado só aumenta. Computador, CD e outras modernidades, o velho não quer nem pensar. “Enquanto a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;vitrolinha&lt;/span&gt; funcionar eu não me separo da minha velha &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;coleção&lt;/span&gt; de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;vinil&lt;/span&gt;. O &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;chiadozinho&lt;/span&gt; me faz lembrar dos bons momentos, é uma ligação com o meu passado”, gostava sempre de dizer quando alguém falava sobre as inovações da tecnologia.&lt;br /&gt;As lembranças do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;Asdrú&lt;/span&gt;, que pensava em passar o resto da vida na bela casa da Rua Maria das Dores, me comoveu e eu lá com meus botões fiquei a matutar sobre a tristeza de mudar sozinho, levando a roupa do corpo, deixando o espaço e todo aquele tempo vivido que foi se acumulando na memória. Por outro lado as coisas mudaram também. As rodas de samba com churrasco e cerveja já estavam rareando. Amigos mortos, outros morando longe, outros perto, mas distantes. A casa do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_32"&gt;Asdrúbal&lt;/span&gt; ficou apenas como uma fotografia na parede, mas com certeza, ainda dói.&lt;br /&gt;Vamos deixar de tristezas porque o velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_33"&gt;Asdru&lt;/span&gt; não é disso não. Com certeza ele está curtindo a sua nova vida, mesmo solitário. Seus filhos que o adoram continuam a visitá-lo para saborear os peixes que ele prepara com requintes de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_34"&gt;grand&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_35"&gt;chef&lt;/span&gt; e ouvir os seus sábios conselhos. Uma coisa até hoje ninguém convenceu o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_36"&gt;Asdru&lt;/span&gt;: comer frango ou qualquer tipo de bicho penado. Aves para ele só voando no quintal ou nas florestas e campos. É capaz de passar fome, mas não coloca um grelhado de frango na boca. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_37"&gt;Dizem&lt;/span&gt; as más línguas que na sua adolescência até deixou de namorar a garota mais desejada do bairro somente porque diziam que ela era meio galinha. Pode?&lt;br /&gt;Depois do telefonema, estou tentando encontrar o velho amigo, mas está difícil. Continua arisco como &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_38"&gt;lambari&lt;/span&gt; em água fria. Mas prometo que quando encontrá-lo vou encomendar a ele um samba com o sugestivo título: “Ele não mora mais aqui”. Se não doer, quem sabe vamos ainda reunir a turma para cantar mais uma do velho &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_39"&gt;Asdrú&lt;/span&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-3846215036298400919?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/3846215036298400919/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/05/ele-nao-mora-mais-aqui.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3846215036298400919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/3846215036298400919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/05/ele-nao-mora-mais-aqui.html' title='ELE NÃO MORA MAIS AQUI'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-5006693784605768605</id><published>2009-04-24T07:52:00.000-07:00</published><updated>2009-05-06T15:08:42.370-07:00</updated><title type='text'>APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vocês pensam que eu vou contar minha droga de vida com todos os detalhes sórdidos, podem ir tirando o cavalo da chuva. Eu vou contar apenas algumas coisas que eu tenho vontade de contar, mas vou omitir e mentir em muitas coisas. Ao contrário do Holdem Caulfield do Apanhador em campo de centeio, a minha infância foi pobre, mesmo tendo estudado uns três anos em colégio particular. Eu não fui expulso como ele, mas fui jubilado depois de repetir duas vezes na mesma série. E foi mais por preguiça mesmo do que dificuldade para aprender. Eu era um perfeito relaxado, se é que é possível ser perfeito nessas coisas.  Eu não era burro, mas era indisciplinado. Algumas coisas não entravam na minha cabeça. Em português eu até me defendia, pois lia e escrevia com alguma facilidade e era capaz de ler várias páginas em pé, segurando um livro, sem gaguejar.  Em matemática me defendia para o gasto. Mas quando era necessário decorar coisas que não me interessavam? Era um desastre. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Minha primeira professora no curso primário se chamava Edméia, era uma mulher simpaticíssima e meiga. Ela até gostava de mim. Eu posso até jurar que gostava, mas hoje não teria muita certeza não, pois professores bonzinhos gostam de todos os alunos, sejam eles feios, bonitos, burrinhos ou inteligentes. Ela era linda e tinha um sorriso encantador. Eu ficava horas olhando para o seu jeito de falar e sorrir. Era realmente uma mulher fantástica. Pena que ela foi embora antes de terminar o ano. Eu acho que foi para ter um bebê, mas não tenho certeza. Depois veio a dona Mariana, uma mulher também simpática, mas mais madura. Um tipo maternal que usava umas roupas muito sérias. Foi com ela que eu fiz a minha primeira porcaria de redação. Na verdade não era uma redação, mas uma composição. De qualquer forma até hoje eu não sei a diferença entre uma coisa e outra. Ela colocou um quadro pendurado na lousa com uma fazendinha ridícula. Ridícula porque tinha uma casinha boba, uma vaca idiota, um cavalo pangaré, uma galinha e não sei mais o que. Eu muito idiota escrevi uma relação de coisas que tinha no quadro, como “Eu tenho uma fazenda, eu tenho um cavalo...” ao invés de uma composição. Ela leu a minha em voz alta e todo mundo me gozou. Foi a maior humilhação, aliás, a primeira que eu recebi publicamente. Eu fiquei puto da vida. A bosta é que ela não explicou direito o que era composição ou então eu estava tão distraído, como era meu hábito, que não prestei atenção e escrevi aquela esculhambação.&lt;br /&gt;No ano seguinte tive outra professora que devia ter uns oitenta anos ou mais. Era brava e muito feia. Usava uns óculos enormes e prendia os cabelos com um birote atrás da cabeça. Ela usava o tempo todo um ponteiro de madeira para bater nos dedos da criançada que estava conversando ou distraída. Aquilo doía para cacete, principalmente quando estava um pouco frio. Às vezes ela batia com aquele treco na cabeça da gente, mas não muito forte porque ela não era besta. Algumas vezes ela tirava o sapato de salto alto e jogava na molecada. Não falei que era doidona? Já pensaram se machucasse uma criança, que confusão que iria dar? Ela fazia isso porque não conhecia minha mãe. Se eu contasse que ela havia me caceteado a minha mãe virava uma fera. Ela era capaz de ir até a escola e peitar a professora e a diretora, colocando o dedo na cara. Mas era por isso que eu não contava nada, pois tinha a maior vergonha da minha mãe dar escândalo. Não é por nada não, pois a imbecil dessa professora bem que merecia, mas o problema era depois ter de agüentar a gozação da molecada.&lt;br /&gt;Tinha um aluno repetente na classe que era malandro. Ele devia ter o dobro da minha idade, mas não conseguia aprender nada. Além disso, o Zé, esse era o seu nome, andava roubando coisas pelo bairro. Um dia a polícia apareceu na casa dele, que morava muito perto da minha casa. Os policiais o levaram com o pai até a delegacia para prestar depoimento e ele sumiu da escola. Não sei se ficou preso, mas ele não foi a aula nos dias seguintes. A professora perguntou se alguém sabia do José. Eu dei uma de otário e contei para ela o que havia acontecido. Imaginem os tabefes que eu levei do grandão depois da aula, pois alguém da classe me entregou para ele. A minha sorte foi que o meu pai conhecia o pai do sujeito e ele maneirou um pouco na surra. Neste dia aprendi que a duras penas que não é nada bom se intrometer na vida alheia, principalmente em assuntos delicados como esse.&lt;br /&gt;Tive ainda outra professora, chamada Maria Lúcia com quem eu dei a maior mancada, quer dizer, a maior cagada. Não é simbolismo não! Foi no duro. Ela estava explicando uma matéria sobre a história do Brasil e de repente senti umas contrações violentas na barriga. Aí não deu para segurar e pedi para ir ao banheiro. Sabem o que a imbecil da professora disse: - “Espere eu terminar a explicação”. Não deu outra. Diante da fedentina e todo mundo reclamando eu pedi de novo e aí ela mandou que eu fosse depressa. Aí não adiantou mais nada e a única coisa que eu fiz foi me limpar. Fui para casa mais cedo todo sujo de merda. Hoje fico pensando como é ridículo um professor não deixar o aluno sair para ir ao banheiro. Como se as necessidades fisiológicas podem esperar a vontade do professor.&lt;br /&gt;E assim, eu encerro esta crônica num estilo J.D. Salinger, o grande escritor americano, autor do Apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye). De quebra, aproveito para agradecer, tardiamente, ao professor Esdras Pinto da Silva, meu professor de Inglês no colégio que, na época, emprestou-me o livro. Para quem não leu, vai aí uma boa sugestão de leitura. É realmente imperdível.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-5006693784605768605?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/5006693784605768605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/04/apanhador-em-campo-de-centeio.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5006693784605768605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/5006693784605768605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/04/apanhador-em-campo-de-centeio.html' title='APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-894928920124365099</id><published>2009-04-24T07:33:00.000-07:00</published><updated>2009-10-10T09:52:34.156-07:00</updated><title type='text'>JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia desses, arrumando as coisas em casa, encontrei um velho violão Gianini todo empoeirado e comecei a pensar na sua história. Foi uma moça, lá das Minas Gerais, mais precisamente de “Belzonte”, como ela chamava a capital do estado, que o deixou aqui.  Não sei se ela gostava ou não do violão, mas parece que foi coisa do passado, quando ainda era muito jovem e estudante. Depois de formada o violão foi ficando meio de lado e acabou esquecido, propositalmente por aqui. Quando ela mudou-se para outras plagas,  perguntamos:&lt;br /&gt;       -    E o violão, não vai levar?”&lt;br /&gt;-         Acho que não vou não. Eu gostaria de deixá-lo aqui. Vocês se incomodam?&lt;br /&gt;Claro que a gente não ia se incomodar. Mesmo tendo o nosso, um violão a mais nunca seria demais, pois às vezes aparecia mais de um músico para os nossos animados saraus. Depois, um violão é um objeto que tem vida. Não é um vaso, um móvel. As pessoas tocam belas canções e com eles passamos bons momentos de nossas vidas com nossos amigos. Enfim, um violão sempre tem muitas, muitas histórias para contar. Se fosse um ser vivo, estaria lembrando-se das mãos leves, suaves, femininas, ou mãos pesadas, ásperas, mas sempre sensíveis e inspiradas que dedilharam as suas cordas. Isso me faz lembrar aquela linda canção do Cartola:&lt;br /&gt;Ah! Essas cordas de aço&lt;br /&gt;Este minúsculo braço&lt;br /&gt;Do violão que os dedos meus acariciam&lt;br /&gt;Ah, esse bojo perfeito&lt;br /&gt;Que trago junto ao meu peito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            E a moça do violão  partiu, foi para a Europa e lá se enfiou em um cantinho qualquer e tocou a sua vida. Casou e com muito esforço conseguiu autorização para exercer a profissão de médica em um país nórdico, o que não é fácil não. Sempre nos lembramos dela em vários momentos. Um deles foi numa fria manhã de junho. Ela estava no portão desesperada, com a porta do carro aberta e um cão atropelado sobre o banco traseiro. No primeiro momento pensamos que era uma pessoa ferida. Depois ela foi se acalmando e explicando que tinha visto o atropelamento do cão e resolveu socorrê-lo. Como não conhecia nenhum veterinário, resolveu bater em nossa porta para ajudá-la. E a história não terminou por aí. Depois de constatado que o cão não teria mais recuperação, pagou as despesas para o sacrifício e o enterro do animal e ainda foi procurar o dono para comunicá-lo. Pobrezinha! A primeira coisa que o dono do cão queria saber é se teria de pagar alguma coisa e nem perguntou o que havia acontecido com o pobre cão.&lt;br /&gt;            Ela adorava os nossos cães e mal sabíamos se quando nos visitava era por nossa causa ou por eles, tanto era o afeto que demonstrava para com os bichos.  Brincadeiras a parte, ela era (e continua sendo), uma pessoa doce e amável. Nós a tratávamos como uma irmã mais jovem e algumas vezes até com umas  broncas para colocá-la nos eixos.&lt;br /&gt;Numa outra ocasião, socorreu nossa filha em um pequeno, mas sério acidente doméstico. Ela fez um trabalho primoroso de reconstituição de um dedo macerado em uma cadeira de armar e praticamente sem recursos em um hospital público.&lt;br /&gt; A última vez que a vimos foi no aeroporto, quando voltava de BH depois de uma rápida visita ao Brasil para o enterro, não de uma pessoa, mas de uma cadelinha que deixou com sua mãe.&lt;br /&gt;Depois de uma desilusão amorosa ela conheceu o Thomas, um dinamarquês que eu apelidei de Hamlet. O “Hamlet”, diferentemente do personagem de Shakespeare,  nunca me pareceu muito preocupado com questões existenciais. É uma pessoa doce e gentil que adora cães, gatos e companhia. E foi esse quase personagem que arrebatou para sempre o coração desta médica mineira que cantava bossa-nova deixando o Brasil mais pobre e com menos poesia.&lt;br /&gt;Mas o velho Gianini continua por aqui e foi nele que a Mariane compôs algumas de suas canções como: Gente Média, Café Luá, Vai virar, Melhor parar,  entre tantas outras. De vez em quando também aparece o Zéca, um dos maiores conhecedores de sambas desde Noel até os nossos dias e o maestro Orlando Marcus Mancini, também um dos maiores conhecedores da MPB, que despertam a alma do velho pinho em inesquecíveis noitadas.&lt;br /&gt;Enquanto ela não volta para apanhar o seu pinho, ele vai ficando por aqui, saudoso de sua dona que tal vez já tenha se esquecido do português e o que dirá da bossa-nova. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-894928920124365099?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/894928920124365099/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/04/junia-costa-moca-que-deixou-um-violao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/894928920124365099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/894928920124365099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/04/junia-costa-moca-que-deixou-um-violao.html' title='JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-266587727933533310</id><published>2009-04-23T16:47:00.001-07:00</published><updated>2009-05-28T04:21:53.321-07:00</updated><title type='text'>Extraterrestres</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revendo quase por acidente o filme ET em que um extraterrestre é apresentando como um pequeno monstrinho sensível e delicado, observa-se um grande contraste com as declarações de pessoas que se dizem abduzidas pelos seres de outros planetas. Umas duas mulheres que relataram os seus “casos” com alienígenas, revelaram que eram altos, loiros e com olhos azuis. Essas pessoas juram por todos os deuses que tiveram filhos destas relações e não ficam constrangidas em mostrá-los na televisão. A entrevistadora faz expressão séria ao formular as perguntas sobre como ocorreram as abduções. A cena me fez lembrar do livro de Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios em que o autor procura desmascarar, através de explicações fundamentadas na ciência, esses depoimentos sobre encontros com extraterrestres. Sagan não usou meias palavras para criticar esse modismo contemporâneo. Lembra o físico e astrônomo que não há registro histórico de contatos com seres extraterrenos nos séculos anteriores aos livros de ficção de Julio Verne ou antes da famosa locução do ator norte-americano Orson Welles sobre a invasão da terra utilizando um texto de H.G. Wells. Até então só temos registros de aparecimentos de personagens religiosas.&lt;br /&gt;Nos anos setenta do século passado foi publicado um livro chamado Eram Deuses os Astronautas de Von Danicken, tentando provar que algumas obras arquitetônicas foram obras de seres alienígenas que visitaram a terra em tempos idos. O livro foi convincente e eu mesmo embarquei na história, pois acreditava na possibilidade concreta de que a terra não poderia ser o único planeta habitável do universo. Considerando a existência de trilhões de estrelas no centro de possíveis sistemas solares, nada seria mais lógico e racional do que aceitar a possibilidade de haver vida em outras partes do universo. Sagan, que era um profundo conhecedor de astronomia – dentro das possibilidades disponíveis pelo atual estágio da ciência, não descartava esta possibilidade, mas colocava também a hipótese de que a terra  também poderia ser o único exemplo de vida em todo o universo. Caso haja mesmo vida inteligente fora da terra, as dificuldades para contato serão as mesmas que encontramos atualmente. Como o universo tem a mesma idade e o processo evolutivo teria ocorrido paralelamente em todos os sistemas solares, estaríamos no mesmo estágio de outras “Terras” em termos de desenvolvimento tecnológico. Considerando também as distâncias existentes, mesmo dentro de um mesmo sistema solar, as probabilidades de contato ou de viagens interplanetárias seriam, no mínimo, bastante complicadas. Eventuais viagens no futuro talvez somente sejam possíveis através de fetos congelados.&lt;br /&gt;Por outro lado, parece um tanto óbvio que viajantes alienígenas não se dariam ao trabalho de ficar bisbilhotando a terra sem a preocupação de fazer algum contato inteligente para eventuais intercâmbios tecnológicos ou culturais. Alguns estudiosos de OVNIS afirmam categoricamente que a força aérea americana e a NASA escondem tais fatos da população para evitar turbulências. Ora essa! Será que com tanta gente informada sobre o assunto (pilotos, militares, políticos, técnicos etc.) ninguém sairia dando entrevista na mídia falada e escrita? Impossível.&lt;br /&gt;Sagan, muito educadamente considerava essas pessoas sinceras, mas paranóicas. Para ele, mesmo com um detector de mentiras não seria possível desmascarar essas pessoas, pois elas acreditam fielmente no que falam e defendem. Pessoas que vivem falando que ouvem vozes ou mantêm contatos com pessoas falecidas ou de outro mundo, são consideradas dementes e eventualmente vão para sanatórios. Entretanto, se são bem articuladas, entram para o seleto clube dos ovnianos e conseguem até a proeza de dar entrevista na televisão e em jornais. A história do matemático John Nash, prêmio Nobel de Economia que sofre de esquizofrenia e viu durante anos pessoas inexistentes com quem conversava, é um exemplo de como a mente humana é capaz de burlar a racionalidade. Sem mais delongas, devo dizer que se eventualmente existir vida inteligente fora da terra, provavelmente os ETs deverão parecer muito estranhos para nós, pois a vida teria se desenvolvido de forma bastante inusitada em outro planeta, mesmo em condições semelhantes às da Terra. Mas o mais intrigante mesmo é a pergunta que Ray Kurzweil faz em seu livro: A era das máquinas espirituais: Será que a vida inteligente é relevante no universo?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-266587727933533310?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/266587727933533310/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/04/extraterrestres.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/266587727933533310'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/266587727933533310'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/04/extraterrestres.html' title='Extraterrestres'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4762454819987517679</id><published>2009-03-02T11:34:00.000-08:00</published><updated>2009-03-02T11:35:49.350-08:00</updated><title type='text'>UMA CANÇÃO PARA MAYSA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com bastante atraso escrevo sobre a minissérie Maysa, exibida na televisão.  Confesso que pouco ou nada me liguei na cantora durante sua vida. No auge de sua carreira eu ainda era muito jovem para entender as suas canções de fossa. Na fase final ou na sua decadência, estava ligado na nova geração de compositores e cantores da fase áurea da MPB, como Caetano, Chico, Edu, Milton Nascimento, Tom Jobim entre outros. Lembro-me de uma revista de fotonovelas que apareceu lá em casa trazida pelas minhas irmãs mais velhas que contava a  história da musa. Era a história típica de um conto de fadas. Uma moça da classe média casando com o sobrenome ícone do capitalismo nacional. Tinha tudo para dar certo se não fosse a música e a sua personalidade independente e boêmia. Um casamento dentro dos padrões tradicionais de uma família burguesa não conseguiu suportar a presença de uma vida cercada de holofotes, fofocas e notícias nos jornais. Artista famoso não tem vida privada e ponto final.&lt;br /&gt;A sua morte trágica foi um choque, mesmo para aqueles que estavam distantes da cantora. Alguns dias depois estava no antigo Bar Samambaia, reduto de boêmios da cidade, tomando um bom chope quando um cantor de cabelos desalinhados e dentes salientes pediu licença ao público para falar sobre a próxima canção. “Esta é uma homenagem singela a uma das maiores cantoras do Brasil, Maysa”. O público ficou emocionado e aplaudiu bastante antes mesmo de ouvir a canção, cuja letra transcrevo:&lt;br /&gt;“O tempo correu, repintou o passado&lt;br /&gt;Na tela o apogeu de um sonho dourado&lt;br /&gt;Navegou na ilusão desse viver&lt;br /&gt;Viu o amor vingar sorrir e emudecer&lt;br /&gt;Estou tão infeliz na dor que me invade&lt;br /&gt;No peito cicatriz no coração, saudade...&lt;br /&gt;Foi tão lindo o azul daquele céu&lt;br /&gt;Que cedo escureceu&lt;br /&gt;Desceu da noite um negro véu&lt;br /&gt;Juntou-se ao mar e a brisa&lt;br /&gt;Num triste adeus levou Maysa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da canção, dignamente interpretada pelo cantor, o público aplaudiu de pé pedindo bis. O interprete avisou que a música havia sido composta naquela tarde juntamente com um amigo. No depoimento disse que já estava com a música na cabeça quando se encontrou com o parceiro, que rascunhou, numa mesa de bar, a letra no mesmo instante sobre um guardanapo de papel. O Luiz Tati disse, numa entrevista, que esse negócio de compositor escrever músicas em guardanapo é anedota. Como já pude testemunhar coisas deste tipo, posso afirmar que o moço está enganado.&lt;br /&gt;Tempos depois conheci os autores. O músico e cantor, Saulo de Tarso e o letrista Sinésio Dozzi Tezza. O primeiro vivia da música, cantando de bar em bar para o seu sustento. O letrista tinha uma vida menos aventureira e ganhava o pão de cada dia como vendedor de produtos químicos.  À  noite curtia a boemia da cidade participando intensamente da vida cultural com incursões em festivais de música e no teatro. &lt;br /&gt;            A canção correu pela cidade e em todos os bares era tocada com ou sem a presença dos compositores. Há relatos de que a música foi ouvida no Rio de Janeiro e em Recife, mas nunca foi gravada e continua desconhecida do grande público e da maioria dos fãs da cantora. Um amigo que foi ao Japão me confidenciou que ouviu alguém cantá-la numa casa especializada em MPB na cidade de Tóquio. Non sei se vero, ma beni trovato, diria o Dozzi Tezza em seu dialeto meio Vêneto e meio caipira.&lt;br /&gt;            A minissérie me trouxe saudades da canção e fiquei imaginando se ela tivesse conseguido chegar aos ouvidos do diretor e filho da artista.  Os dois desconhecidos autores poderiam ganhar a ribalta e os fãs poderiam ter a oportunidade de ouvir uma bela canção, resgatando o trabalho anônimo de artistas desconhecidos pela mídia. Soube depois que um amigo da época chegou a enviar o CD pelo correio, mas duvido que tenha chegado às mãos do diretor ou alguém influente.&lt;br /&gt;            Este é o nosso Brasil. Um país repleto de artistas que vivem no anonimato e com as gavetas repletas de canções que talvez nunca sejam ouvidas pelo grande público. Enquanto isso, a mediocridade campeia pelos meios de comunicação de massa. O artista Saulo de Tarso, pobre e sem muita saúde,  ainda perambula pelas noites do ABC a procura de um palco para cantar e tocar seu violão. O Dozzi Tezza, felizmente, teve um futuro melhor, mas  à custa de muito, muito trabalho numa pequena indústria, deixando as letras inspiradas apenas como objeto de lazer.&lt;br /&gt;            Os velhos boêmios já não freqüentam os mesmos bares e provavelmente Saulo de Tarso Azevedo não canta mais a sua mais “famosa” canção. No entanto, ela deve estar gravada no firmamento e a cantora dos belos olhos verdes deve ouví-la nas infinitas tardes da eternidade. Pode ser apenas um sonho, mas quem sobrevive sem isso?&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;            &lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4762454819987517679?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4762454819987517679/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/03/uma-cancao-para-maysa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4762454819987517679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4762454819987517679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/03/uma-cancao-para-maysa.html' title='UMA CANÇÃO PARA MAYSA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1248485052006940369</id><published>2009-03-02T11:32:00.000-08:00</published><updated>2009-03-02T11:33:05.035-08:00</updated><title type='text'>O LOBISOMEM</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma história assombrosa povoava minha imaginação de menino. Era sobre um português chamado Manoel Joaquim Quinquinello. Ele morava na fazenda de meu tio, no interior de São Paulo com a mulher, dona Joaquina e seus filhos. A casa era uma tapera que ficava ao meio de um outeiro ao lado de um pequeno córrego que cortava a fazenda. Meus primos diziam que o seu Manoel virava lobisomem nas noites de lua cheia. Quando era visto na fazenda, estava sempre com um bode ao seu lado e um facão preso à cintura para cortar capim para alimentar seu fiel escudeiro. Lembro-me da primeira vez que vi o seu Manoel. Ele vinha com o seu bode ao lado, com enormes barbas brancas e esbravejando aos quatro ventos. Era uma figura sinistra, digna de assustar meninos, ainda mais com a lenda de que virava lobisomem. Meus primos mais velhos me assustaram mais ainda, avisando que ele iria me pegar. Meu coração disparou e não sabia se me agarrava aos primos ou saia em disparada. O Seu Manoel parou e perguntou: “Quem é o miúdo?”. “É o filho do tio Manoel”, respondeu um dos meus primos. “Oh raios! Como vai teu pai miúdo?” perguntou se dirigindo a mim. Meus primos se encarregaram de responder, pois eu não conseguia abrir a boca de tão assustado.&lt;br /&gt;A fama do seu Manoel vinha de um hábito que preservara desde que chegou a fazenda. Dormia durante quase todo o inverno e somente se levantava à noite para dar umas voltas. Cabia aos filhos e a mulher as tarefas de cuidar da lavoura e outros afazeres da casa. A lenda  sobre a sua figura era criada pelos vizinhos, inconformados com seu modo de vida. Nas noites de lua cheia, muitos colonos ficavam espreitando a sua casa para ver a transformação, mas nunca ninguém viu de fato a transformação. Meu tio, um evangélico fundamentalista, se encarregava de destruir essa lenda e que ninguém viesse lhe contar tais bobagens, pois ele esbravejava “soltando os cachorros” naqueles que insistiam terem visto o “maligno”, meio homem, meio lobo.&lt;br /&gt;Seu Manoel era analfabeto e sempre que recebia cartas de sua família em Portugal, levava-as para que minha mãe as lesse para ele. Minha mãe contava que ele ficava acabrunhado depois da leitura, pois já não tinha mais esperanças de que voltaria para a terrinha. Como já estava muito velho e não tinha conseguido comprar suas próprias terras sentia-se um imigrante fracassado e condenado a ser enterrado em terras do além mar.&lt;br /&gt;Tempos depois o velho Manoel Joaquim veio a falecer, deixando a viúva, dona Joaquina, duas filhas moças e dois rapazes, um deles com um defeito no pé, o que o tornava quase inválido para o trabalho. Meu tio, viúvo, com quase setenta anos, deu-se a se engraçar pela moçoila que logo viu no velho uma oportunidade de mudar de vida. Logo depois se casaram e dona Joaquina, com os filhos, foi morar na casa grande. A viúva passou a responder pela cozinha e a filha dedicava-se a fazer chamegos no velho que se deitava na rede todas as tardes para contemplar seus campos. Uma vida de rainha para a estranha rapariga, filha de um lobisomem. Depois que a mãe morreu, precisou pegar no batente e cuidar da casa, coisa que não apreciava muito. Quando visitava meu tio e ele pedia que ela passasse um café, ela respondia: “Ora, pois, pois, será que ele quer mesmo meu velho?”&lt;br /&gt;A rapariga ainda deu um filho ao velho, que veio a se chamar Euzébio, um rapagão, que veio para dividir com os filhos do primeiro casamento, a bela e saudosa Fazenda São Vicente do Pau d’alho, por onde nas noites de lua cheia ainda hoje passeia um velho e solitário lobisomem lusitano. Pode ser invenção do povo, mas como dizem os espanhóis: “Não creio nas bruxas, mas que existem, existem”.&lt;br /&gt;Uma das irmãs da Dona Izabel morava no bairro da Penha e numa das visitas do meu tio, fui encarregado de acompanhá-lo na visita à cunhada. Foi uma longa viagem e de tristes lembranças. Meu tio atacado por uma velha bronquite, tinha acessos de tosse, o que me deixava envergonhado. Depois de horas de viagem de São Caetano à Penha, com três conduções, chegamos ao local. Ainda me lembro de uma enorme área gramada com enormes pedras, que dava uma sensação de estar no interior. A casa da Dona Elvira era modesta, mas tinha uma filha bonita, com quem troquei olhares durante todo o tempo. Dormimos por lá e no outro dia bem cedo voltamos ao martírio da tosse do meu tio que precisava parar a cada vinte metros que andávamos. Na volta eu já não me importava muito com isso, pois os olhares da meiga rapariga ainda embriagavam minha cabeça de adolescente. Nada como começar a falar de lobisomem e terminar com as lembranças dos olhares  de uma bela rapariga que inundou minha imaginação por um bom tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1248485052006940369?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1248485052006940369/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/03/o-lobisomem.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1248485052006940369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1248485052006940369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/03/o-lobisomem.html' title='O LOBISOMEM'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6472942587938981019</id><published>2009-02-20T07:38:00.000-08:00</published><updated>2009-02-20T07:39:21.506-08:00</updated><title type='text'>ABILIO MACEDO, O CONTADOR DE CAUSOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um dos personagens que povoou a minha infância era um alagoano chamado Abílio Macedo. Era nosso vizinho, mas não muito próximo. Entretanto, quase que semanalmente, ele passava em casa para uma boa conversa com meu pai. Era naqueles tempos em que a televisão ainda não havia usurpado os serões da família brasileira. As visitas eram constantes e as conversas fluíam do cotidiano, como problemas de saúde, de trabalho, política e o melhor de tudo, relatos dos velhos tempos, onde a memória tem um papel fundamental. A memória ia construindo ou reconstruindo fatos, histórias, verdadeiras ou quase verdadeiras. Hoje sei que o narrador sempre acrescenta algo seu, suas impressões pessoais sobre o que conta.&lt;br /&gt;Lembro-me que às vezes, sentado no chão, fazendo de conta que brincava com um carrinho ou qualquer coisa, ficava atento àquelas histórias dos tempos antigos. Aí que entrava a memória do seu Abílio. Ela falava dos tempos do cangaceiro Lampião, personagem temível do nordeste brasileiro. Meu pai interessado estimulava o nosso contador de histórias a falar mais e mais sobre os fatos burlescos ou horripilantes da barbárie do sertão nordestino. Infelizmente minha memória não registrou, em detalhes, nenhuma das histórias, mas ficaram os momentos de tensão, em que a distância entre a vida e a morte era muito pequena. As histórias relatadas estavam centradas em velhos coronéis, homens de coragem ou nos covardes que não honravam as calças que vestiam. Os mais atraentes eram aqueles que enfrentavam as injustiças ou a desonra a bala ou com um punhal afiado como nos filmes que assistia nas matinês dos domingos.&lt;br /&gt;Às vezes tomava coragem e interrompia a conversa para perguntar algo para confirmar a veracidade das narrativas. Aquelas histórias eram bem mais reais do que via nos filmes de bang bang ou nos gibis. Eram fortes e emocionantes, pois o contador era um personagem vivo da história. Meu pai não gostava que criança interrompesse a conversa de adulto, mas o nosso narrador não se incomodava em repetir algum detalhe ou acrescentar um pouco mais de emoção para encantar os seus ouvintes. Minha mãe cuidando dos afazeres domésticos ficava atenta na cozinha, ouvindo cada detalhe e vez por outra aparecia na porta para também confirmar se era mesmo verdade. “É tão verdade como eu estou aqui. Posso jurar que eu vi”, respondia o seu Abílio com firmeza e convicção.&lt;br /&gt;Assim a noite passava com todos envolvidos nas histórias de um mundo que estava se acabando, pensava-se na época. O poder dos velhos coronéis estava sendo substituído por políticos profissionais. Mudaram-se os métodos, mas os personagens continuaram os mesmos. O personalismo do velho patriarcado continuou intacto num mundo regido pela comunicação de massa. As notícias sobre como se faz política confirmam que nada mudou neste país. As mesmas histórias estão hoje estão nos jornais, na televisão ou no rádio, sob novas roupagens.&lt;br /&gt;No meio da conversa aparecia um cafezinho preparado por minha mãe que se aconchegava para fazer as honras da casa e participar um pouco da conversa de homens. Mas havia sempre uma hora que indicava o final da conversa e o nosso narrador apanhava o seu chapéu e se despedia prometendo um breve retorno.&lt;br /&gt;As visitas foram ficando mais esparsas e aos poucos, eu já não dava mais importância para aquelas conversas de homens maduros. A televisão também roubou o espaço destinado às conversas e cafezinhos na maioria dos lares urbanos e cada um se confinou diante do aparelho voraz que dizimou a história oral, os velhos causos, as relações e  o convívio entre familiares e vizinhança.&lt;br /&gt;A última vez que vi o seu Abílio, acompanhado de dona Amália, sua esposa,  foi na igreja do bairro, no final da missa de sétimo dia do falecimento de meu pai. Após um rápido cumprimento, nos despedimos e percebi, naquele momento, que aquele homem abatido pelo tempo fazia parte da construção da minha visão de mundo. Um mundo que vai se apagando, gradativamente, como uma foto envelhecida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6472942587938981019?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6472942587938981019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/02/abilio-macedo-o-contador-de-causos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6472942587938981019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6472942587938981019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/02/abilio-macedo-o-contador-de-causos.html' title='ABILIO MACEDO, O CONTADOR DE CAUSOS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-4758448553395904253</id><published>2009-02-20T07:33:00.000-08:00</published><updated>2010-11-15T04:59:50.131-08:00</updated><title type='text'>ERASMÃO E O SEU FILHO PIRAHY</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore são os passos necessários para se tornar um homem de verdade, diz o velho aforismo. Poucos são aqueles que podem cumprir todas essas tarefas. Para quem mora em apartamento plantar uma árvore deve ser um desafio maior do que escrever um livro. Ser pai, salvo em casos de problemas de natureza biológica, parece ser o mais fácil de todos. Mesmo assim a adoção pode resolver o problema, pois o que importa é ter um filho, criá-lo, educá-lo, mesmo que tenha sido gerado por outro. Agora escrever um livro, não é coisa para qualquer um. É preciso ter inspiração e sobretudo muita transpiração, principalmente se o sujeito resolver criar uma obra de ficção, com personagens coerentes e verossímeis.&lt;br /&gt;Começo essa conversa fiada para falar do nosso velho amigo Luiz Carlos Erasmo da Silva. O Erasmo foi uma alcunha que recebeu nos tempos da Jovem Guarda pela sua semelhança com o músico Erasmo Carlos companheiro inseparável do Roberto Carlos. O apelido pegou para sempre e são poucas pessoas que o conhecem que sabem o seu verdadeiro nome. Aliás aproveito a oportunidade para sugerir que ele incorpore o Erasmo ao nome oficialmente como fez o nosso primeiro mandatário. Pois bem, o nosso querido Erasmão escreveu um livro e depois de tantas idas e vindas, conseguiu enfim publicá-lo para a posteridade. O livro é a história de um valente peixinho nas águas do velho e maltratado Tietê. É uma história gostosa e bem humorada que conta as peripécias de Piray, o douradinho irreverente , uma aventura no Tietê.&lt;br /&gt;O Erasmo é um tipo bonachão, simpático, agradável e dono de um papo delicioso. Seu carisma é reconhecido em todos os lugares por onde anda. Suas imitações do Rei do Rock, Elvis Presley eram memoráveis e é bem provável que ele preferiria ter o apelido de Elvis e não de Erasmo. Além disso, o Erasmo Carlos envelheceu, ficou de cabeça branca e com rala cabeleira. Enquanto isso, o nosso Erasmo continua com sua vasta cabeleira ainda na cor original (salvo se freqüenta, na calada da noite, algum cabeleireiro para tingir as suas madeixas). O que está atrapalhando um pouco a sua ainda jovial aparência, apesar de ser um sessentão, é sua protuberância abdominal um pouco exagerada, resultado de bons copos de cerveja saboreados no calor de boas conversas com os amigos.&lt;br /&gt;A publicação do livro, cujas cópias já circulavam entre os amigos mais chegados, é o coroamento de uma vida de um sujeito realmente porreta, cuja integridade é posta a toda prova. Erasmo é o sujeito do qual pode-se comprar um carro usado sem riscos, pois é capaz de perder dinheiro a arriscar uma boa amizade. Apesar de corpulento, é um menino chorão, que se emociona com bastante facilidade. Lembro-me que uma vez em minha casa, durante a festa de aniversário da Celinha, estava também um amigo que não tinha a mão direita, perdida por um acidente de trabalho. Sem perceber a deficiência física do Ademir, que conheceu neste dia, o Erasmo contou uma piada de maneta. Ao concluir, todos riram e o Ademir, muito gozador, mostrou-lhe o toco do braço dizendo: “Ele era assim?” Foi uma tragédia, pois o nosso amigo foi encontrado depois de muito tempo chorando copiosamente nos fundos do quintal e só se acalmou depois que o Ademir o convenceu de que não havia ficado chateado com a piada e que gostava de brincar com sua deficiência.&lt;br /&gt;O Erasmão, o nosso querido Escritor, é assim, alegre divertido que gosta de fazer as pessoas rirem, mas é também um chorão que chega às lágrimas com facilidade. Mas é uma pessoa determinada e vai em busca dos seus objetivos e não importando as dificuldades que possa encontrar pela frente. Com o seu livro embaixo do braço perambulou anos atrás de editoras e patrocinadores, tentando convencê-los da importância da obra para a preservação da memória ecológica do nosso país através da sensível história de um peixinho.&lt;br /&gt;Como ele não teve filhos, faltando assim o último item para completar a trilogia necessária para ser considerado um “grande homem”, penso que por enquanto o Pirahy deve assumir o posto. Afinal, é um personagem concebido com amor e carinho. É o que basta para ser um bom pai. Quanto ao filho biológico é uma questão de tempo, pois até os noventa o Erasmão pode surpreender a todos nós. Quem viver verá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-4758448553395904253?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/4758448553395904253/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/02/erasmao-e-o-seu-filho-piray.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4758448553395904253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/4758448553395904253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/02/erasmao-e-o-seu-filho-piray.html' title='ERASMÃO E O SEU FILHO PIRAHY'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1496634670167668939</id><published>2009-02-20T07:25:00.000-08:00</published><updated>2009-02-20T07:36:09.295-08:00</updated><title type='text'>LÁZARO GARCIA, UM PADRINHO DOS VELHOS TEMPOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antigamente ter um padrinho era coisa séria, tanto para as crianças, como para os padrinhos. Os compadres eram escolhidos a dedo. Precisavam ser pessoas de confiança e que fossem verdadeiros amigos, pois pela tradição, na ausência dos pais, o padrinho teria a responsabilidade pela formação do afilhado. A relação de compadrio foi uma instituição bastante importante no Brasil, principalmente na zona rural, onde ainda hoje tem alguma relevância. Antonio Cândido em seu estudo sobre os caipiras paulistas, Os parceiros do Rio Bonito, lembra que ao afilhado cabe respeitar o padrinho de modo especial e pedir-lhe a bênção sempre que for encontrado como a um pai. Deve ainda comunicar-lhe o seu noivado, como que pedindo uma autorização paterna. Dessa forma o padrinho sempre exercia uma especial influência sobre os afilhados, e em muitos casos, se sobrepunha a dos próprios pais.&lt;br /&gt;Numa conversa que tive com um africano do Senegal, da tribo dos Pels, Mamour Elimani Ba, ele contou-me que é um costume do seu povo dar um filho a uma pessoa de destaque na comunidade para que ele crie a criança. O desejo dos pais biológicos é que seus filhos sejam tão virtuosos como o pai adotivo. No Brasil, a relação entre compadres, de certa forma, é construída com alguma semelhança, a partir da confiança e admiração que um pai tem para com um amigo ou pessoa influente na comunidade.&lt;br /&gt;Meu padrinho foi um negro, filho de escravos, um grande amigo da família. Era uma pessoa doce e generosa cuja lembrança guardo com grande carinho. Convivi pouco com ele, pois morava no interior de São Paulo em um sítio onde cultivava um belo jardim repleto de flores. Apesar de sua origem, aprendeu sozinho a ler e escrever e falava o vernáculo com excepcional correção. Participou da revolução de 32 e ainda guardava, como relíquia, uma arma utilizada na guerra, uma pistola alemã de 1912, que deixou para o meu pai. Gostava de caçar e sempre que podia se aventurava pelo Mato Grosso, mas não usava armas de fogo, somente um punhal bem afiado e as técnicas dos caçadores africanos que aprendeu com seu pai. Um dos presentes que ganhei dele foi um belo couro de onça que infelizmente foi roubado de nossa casa. “Para o amigo trago minha grande amizade e meu corpo doente que precisa de ajuda e para o meu afilhado, esse couro de onça Pintada que cacei no Mato Grosso quando ainda tinha saúde e vigor”, disse ele ao meu pai quando nos visitou pela última vez. Morreu alguns dias depois após uma cirurgia mal sucedida.&lt;br /&gt;Mas quero falar de um outro grande padrinho que foi o Lázaro Garcia, o Lazinho, padrinho e tio por afinidade de meu amigo o Dr. Jorge Moscardi, que sempre teve por ele um enorme respeito, admiração e carinho. Em várias oportunidades falava dele como uma pessoa de grande dignidade, preservando valores atualmente esquecidos. O Lazinho, mesmo sendo uma pessoa de origem simples, conseguiu se educar com certo refinamento, trabalhando em um clube inglês em São Paulo. Lá executou várias tarefas até se tornar um fino garçom, aprendendo a apreciar bons pratos e bons vinhos, sempre com moderação. Meu amigo, também de família modesta, aprendeu com o padrinho o gosto por coisas sofisticadas, envolvendo não somente a boa culinária e bebidas, mas também boa música, a arte e alguns segredos da noite paulistana, principalmente dos retiros boêmios.&lt;br /&gt;Lazinho, que tive o prazer de conhecer, era um gentleman, que recebia os amigos do seu afilhado com uma delicada atenção e carinho. Para nós ele era como um tio amável e generoso que dedicava-nos preocupações como se fossemos também seus sobrinhos. Com seu jeito elegante e sorriso simpático, era uma pessoa encantadora e sempre que nos encontrávamos nas festas na casa do afilhado, eu aproveitava para tirar um dedinho de prosa com ele. Lembro-me que ele ostentava orgulhoso um relógio Omega, um velho suíço que foi objeto de desejo de muitas gerações até os anos sessenta. Esse relógio, se não me falha a memória, ele ganhou como prêmio por longos serviços prestados ao clube em que trabalhou. Isso me faz lembrar também que meu pai sempre sonhou em ter um, mas o parco orçamento nunca permitiu tal extravagância.&lt;br /&gt;Tempos depois o seu velho e precioso suíço foi roubado num assalto, o que lhe trouxe grande desgosto. Mas o afilhado, sempre atento ao velho e amado padrinho, conseguiu comprar outro da mesma marca, o que lhe devolveu um pouco da alegria para seus últimos anos de vida. “Eu precisava dar essa alegria ao Lazinho, eu devo muito a ele”, disse o Jorge emocionado. Com essa história eu fiquei a matutar se não deveria ter também presenteado o meu velho com um desses, como fez o Jorge com seu padrinho.&lt;br /&gt;O coração do Lazinho estava fraco e já dava sinais de que sua passagem pela terra estava prestes a terminar, pois sua missão já estava cumprida. Seus últimos dias foram assistidos pelo querido afilhado, que apesar da correria da vida de médico de hospital em hospital, diariamente, passava para vê-lo e confortá-lo em seus últimos momentos. Em meu último encontro com o meu amigo, falei da vontade de ver o velho Lazinho antes que partisse, mas não houve tempo e ele viajou sem eu pudesse lhe dar um abraço, o que lamento profundamente, pois sempre acabamos deixando o que é essencial para depois. E nada é mais essencial do que a vida, mesmo que seja para resgatar um pedaço de nossas memórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1496634670167668939?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1496634670167668939/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/02/lazaro-garcia-um-padrinho-dos-velhos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1496634670167668939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1496634670167668939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/02/lazaro-garcia-um-padrinho-dos-velhos.html' title='LÁZARO GARCIA, UM PADRINHO DOS VELHOS TEMPOS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-9171370868407080933</id><published>2009-01-10T18:17:00.000-08:00</published><updated>2010-07-07T08:35:25.426-07:00</updated><title type='text'>BARRA DO UNA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não nasci em Barra do Una, sobretudo não morei em Barra do Uma. Ela é apenas um retrato na parede, mas como dói. Os versos do velho Drummond são como uma famosa esponja de aço, pois nos socorrem em todos os momentos, sejam felizes ou não. Já vai bem longe o tempo dos acampamentos nas deliciosas praias na foz do Rio Una, litoral norte de São Paulo. Era para lá que a nossa velha turma dos tempos de estudante ia passar os feriados prolongados. A viagem era programada com antecedência de pelo menos uns quinze dias e saiamos direto da escola em direção à praia. Eram noites intermináveis, pois chegávamos ao Guarujá por volta de 1h da madrugada e ficávamos esperando a balsa até o dia raiar. Depois pegávamos um caminho pelas praias de São Lourenço, estradinhas de terra com pinguelas sobre os rios. Hoje, com certeza, não teríamos coragem de atravessar de tão toscas e inseguras que eram. Mas tudo valia a pena naquela época e como as almas não eram pequenas, ninguém reclamava de nada e só de pensar nos mergulhos nas águas cristalinas e a roda de MPB quando começava a escurecer, dava um ânimo danado na gente.&lt;br /&gt;Barra do Uma, ainda no início dos anos 70, era apenas uma pequena vila de pescadores que foi aos poucos sendo apropriada pelos especuladores imobiliários que foram expulsando os caiçaras, comprando seus terrenos a preço de “banana”. Naquela época, apesar dos casarões escondidos atrás das humildes residências dos nativos, ainda dava a impressão de casas entre bananeiras, pomar, amor e cantar. Era tudo devagar e devagar também as janelas olhavam.&lt;br /&gt;Ao chegar armávamos nossas barracas na praia ou no quintal de um caiçara que trocava a hospitalidade por farinha e açúcar, coisas essenciais para eles. Depois era só alegria e muita música até o último dia de feriado, quando a tristeza baixava só de pensar em retornar para a neurose da cidade grande e pegar no batente.&lt;br /&gt;Lá aconteciam coisas inusitadas, como uma dupla de cantadores de fandango, gênero musical presente entre os nativos do litoral desde o Paraná. A música é muito parecida com as catiras ou cateretês do interior de São Paulo, mas com alguns ingredientes característicos. Foi o Tau Scucuglia quem encontrou a dupla e a levou para o acampamento. Como a maioria do grupo era de Ciências Humanas, foi uma boa oportunidade para conhecer a cultura popular da região. Outra figura que conhecemos por lá foi um velho boêmio que depois de uma desilusão amorosa, largou casa, mulher e filho e foi viver na Barra do Una. Contava ele que chegou por lá sem eira nem beira. Dormiu três dias na praia e só depois foi procurar abrigo. Como era técnico em eletrônica, passou a fazer consertos de rádios, televisores, geladeiras, enfim, o que aparecia. Tudo em troca de peixe ou “depois eu pago”. Pobre Heitor Tolezano, um homem triste e amargurado. Sempre que bebia (quase todos os dias), falava sobre o filho que adorava e desandava a chorar copiosamente. Numa outra ocasião, apareceu uma índia com duas filhas adolescentes que fugiam dos caiçaras, que tentavam estuprar as meninas, fato corriqueiro com os pobres índios. Elas foram abrigadas no acampamento e tratamos de expulsar os caiçaras embriagados. Elas passaram a noite no acampamento e até traduziram uma música que o Pepito estava cantando: A djiu pi uirá poture/Aguadi haa care/ cunhaim djiu pii/ aramiu aahaata. Pela manhã, em segurança pegaram o caminho da aldeia que ficava há alguns quilômetros dali. Os índios, de uma tribo Tupi, levavam seus artesanatos para a vila e eram escandalosamente explorados pelos comerciantes caiçaras. Eles trocavam belas peças (arcos, flechas, tapetes etc.) por uma garrafa de cachaça ou um quilo de farinha de mandioca. Essas peças eram depois revendidas aos turistas por preços bastante elevados.&lt;br /&gt;Os ricos proprietários dos imóveis da vila, que ainda mantêm um ancoradouro no Rio Una para seus barcos e iates não gostavam da nossa presença, pois temiam que nós atraíssemos novos campistas para o local, acabando com a tranquilidade da Barra do Una, um pequeno paraíso no litoral norte. Hoje, do que foi outrora, pouco restou. O rio está poluído com esgoto doméstico e o local está praticamente todo ocupado para casas de veraneio que aumentam a poluição e o lixo. O receio da burguesia de fato se concretizou. Acabou a Barra do Uma, uma paradisíaca praia do litoral norte de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-9171370868407080933?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/9171370868407080933/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/01/barra-do-una.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9171370868407080933'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/9171370868407080933'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/01/barra-do-una.html' title='BARRA DO UNA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-6932977727033009754</id><published>2009-01-10T18:03:00.000-08:00</published><updated>2009-10-01T04:40:48.240-07:00</updated><title type='text'>LEI DE COTAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Brasil é um país complexo, pois a coisa mais difícil é encontrar uma pessoa que assuma ser racista. Pratica-se uma discriminação invisível, claro, pois nós brasileiros somos mestres na dissimulação. O Machado de Assis retratou isso muito bem em sua mais conhecida personagem, a Maria &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Capitulina&lt;/span&gt;, a dissimulada com olhos de ressaca. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sempre que o assunto surge em minhas retinas fatigadas me lembro de uma pesquisa da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Datafolha&lt;/span&gt;. Nesta pesquisa cerca de 85% dos pesquisados afirmavam que não tinham nenhum tipo de preconceito, mas um percentual próximo, afirmava que já havia presenciado uma situação de preconceito, discriminação ou racismo. O Brasil é assim mesmo: os racistas são os outros, não nós. Mas quem é “nós”, meu Deus? Mas voltemos ao caso das cotas, que realmente é uma tremenda embrulhada.&lt;br /&gt;Quando o Brasil resolveu abolir a escravatura, o nosso querido e sonolento imperador estava &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;providencialmente&lt;/span&gt; em férias na Europa ou no &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;Egito&lt;/span&gt;, não me lembro ao certo e deixou o abacaxi para ser descascado ou assumido pela sua filha, herdeira presumível da coroa. Na época tínhamos poucos escravos em relação ao número de alguns anos antes, pois a lei do Ventre Livre e do Sexagenário, além grandes fugas patrocinadas ou não por abolicionistas, bem como a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;liberação&lt;/span&gt; pura e simples de fazendeiros que não viam mais utilidade em manter escravos alimentados em seus domínios durante as crises &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;econômicas&lt;/span&gt;, secas etc.&lt;br /&gt;Há casos interessantes sobre os escravos, como retrata (ou filma?) o filme Quanto vale ou é por quilo, que mostra um caso de uma mulher negra que era &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;proprietária&lt;/span&gt; de escravos (não brancos, obviamente) que são roubados por um branco. Ao reclamar na justiça, teve o seu troco, pois onde já se viu um ex-escravo ter escravos. Um tremendo contra-senso. Mas era o sistema. Quem tinha dinheiro, comprava escravos, pois era um bom investimento, como hoje é comprar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;ações&lt;/span&gt; ou aplicar em renda fixa, não importando a cor. Bom, mas o que é que nós temos a ver com os antepassados &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;escravistas&lt;/span&gt;? Nada, absolutamente nada. Aliás, ao substituir a mão-de-obra escrava por imigrantes italianos, espanhóis ou japoneses, os nossos fazendeiros achavam que deviam tratá-los do mesmo modo como tratavam os escravos negros. A cineasta &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Tizuko&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;Yamasaki&lt;/span&gt; retratou muito bem essa questão num bom filme sobre imigrantes italianos anarquistas e japoneses numa mesma fazenda no interior de São Paulo no início do século XX.&lt;br /&gt;Mas a grande &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;polêmica&lt;/span&gt; no ocaso da escravidão no Brasil, que, diga-se de passagem, nunca acabou, pois ainda hoje temos notícia de trabalho escravo nos confins do Pará, Goiás e por aí adentro, foi a reparação para os libertos. Os fazendeiros defendiam a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;indenização&lt;/span&gt; pela perda dos escravos e o Rui Barbosa tratou logo de queimar tudo quanto era documento que pudesse comprometer futuramente a República, proclamada logo após a abolição. Os abolicionistas defendiam a doação de terras para os libertos como uma forma de reparação. É claro que as elites rurais abominaram a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;idéia&lt;/span&gt;, pois era melhor deixá-los sem terra para que pudessem engrossar o exército industrial de reserva, assim chamado por Marx, o contingente de trabalhadores disponíveis no mercado de trabalho para evitar aumento do custo da mão-de-obra. E assim, foram os negros engrossar as favelas e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;mocambos&lt;/span&gt; das cidades, pois no campo eles foram substituídos pelos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;Ballarinis&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Seccos&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Tezzas&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;Marchioris&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;Deladeas&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;Rossis&lt;/span&gt; entre outros. As terras, que eram muitas, foram doadas para os imigrantes ou para os grandes fazendeiros para expandirem as suas plantações, principalmente de café.&lt;br /&gt;Von &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;Martius&lt;/span&gt; foi o construtor do mito da democracia racial, ratificada posteriormente pelo Gilberto &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;Freyre&lt;/span&gt;, autor de Casa Grande e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;Senzala&lt;/span&gt;, defendendo a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;idéia&lt;/span&gt; de um país onde convivem, harmonicamente, brancos, índios e negros. Ao considerar a democracia racial um mito, temos que admitir que se trata de uma ilusão, pois é assim que os mitos são compreendidos, pois suas construções partem de pressupostos irreais ou míticos, de alguma forma relacionados com a realidade, mas que se distanciam dela pelo seu &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;caráter&lt;/span&gt; onírico. Uma outra forma de trabalhar com a questão, que eu prefiro, é chamar isso de uma ideologia. Ideologia, no sentido marxista é uma falsa consciência, construída para para ocultar uma dominação política, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;econômica&lt;/span&gt; e social. Assim, ao afirmar que não existe discriminação no Brasil, nega-se o problema, anula-se a diferença e tudo fica resolvido, não é mesmo? Assim, penso como o Boaventura dos Santos, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;sociologo&lt;/span&gt; português que diz: "Quando a diferença representa a injustiça, devemos lutar pela igualdade, mas quando a igualdade implica na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;descaracterização&lt;/span&gt;, devemos lutar pela diferença". Sacou meu nobre leitor?&lt;br /&gt;Bom e as cotas? Depois de tantas delongas minha opinião pode surpreender: não sou favorável as cotas, pelo menos por um motivo. Acredito que pode mesmo aumentar a divisão entre os brasileiros, que já não é pequena. Apesar de tudo, ainda prefiro a dissimulação, pois gera menos violência e menos confronto. Muitos negros com quem conversei não concordam com a lei de cotas em função do aumento da discriminação que pode surgir daí e pelo fato de se sentirem constrangidos em entrar numa universidade pela porta dos fundos. Pessoalmente, não vejo o nosso problema sob a mesma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;ótica&lt;/span&gt; dos seus defensores, que acreditam que devemos seguir o exemplo americano. Nossa realidade é diferente, pois há uma enorme massa de brancos pobres ou meio brancos pobres e miseráveis, que tornaria difícil equacionar. Haja universidade para todos! Primeiramente precisamos resolver o problema de vagas nas universidades públicas e o problema de acesso ao ensino público de boa qualidade. Nos EUA havia a segregação racial, que proibia que negros &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;freqüentassem&lt;/span&gt; escolas de brancos. Como não havia universidades para negros o acesso era bloqueado. Aqui temos um sistema, ainda que perverso, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;meritocrático&lt;/span&gt;, entrando quem se classifica nas provas. É óbvio que a maioria das pessoas que entram são aquelas  bem nascidas, que estudaram nos melhores colégios, estudaram &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_32"&gt;outros&lt;/span&gt; idiomas, viajaram, tiveram acesso à bibliotecas, livros, teatro, cinema etc. Além disso, ainda há o problema da discriminação no mercado de trabalho. Um negro bacharel precisa ser infinitamente melhor do que os concorrentes brancos para conseguir uma vaga. No caso de empate a vaga fica com os mais claros, é evidente.&lt;br /&gt;Enfim, é um problema para mais de metro e quem somos nós para &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_33"&gt;desembaraçar&lt;/span&gt; esse imbróglio em apenas uma ou duas gerações?&lt;br /&gt;Renato Ladeia &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-6932977727033009754?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/6932977727033009754/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/01/lei-de-cotas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6932977727033009754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/6932977727033009754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2009/01/lei-de-cotas.html' title='LEI DE COTAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-373468761804069226</id><published>2008-12-18T04:34:00.000-08:00</published><updated>2009-01-02T08:27:04.106-08:00</updated><title type='text'>TENTATIVAS POÉTICAS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Bananeira&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O pé de banana&lt;br /&gt;Deu cachos&lt;br /&gt;Doces bananas&lt;br /&gt;E a lesma se lambuza&lt;br /&gt;No ácido doce&lt;br /&gt;E o bem-te-ví&lt;br /&gt;Regala-se&lt;br /&gt;Na jabuticabeira&lt;br /&gt;E o jabuti&lt;br /&gt;É apenas um nome&lt;br /&gt;em um indecifrável&lt;br /&gt;Dicionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O mar&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar molha&lt;br /&gt;A praia dos meus sentidos&lt;br /&gt;E meus ouvidos&lt;br /&gt;Ouvem o marulhar&lt;br /&gt;Mas o mar&lt;br /&gt;Não chega ao planalto&lt;br /&gt;Alto e insone plano&lt;br /&gt;Para que o mar?&lt;br /&gt;Se a vida já secou&lt;br /&gt;Secou?&lt;br /&gt;Ou as dores do corpo&lt;br /&gt;Perderam&lt;br /&gt;O sentido do mar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu avô&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu avô&lt;br /&gt;Dormia um sono&lt;br /&gt;Sono de pedra&lt;br /&gt;Entre ossos&lt;br /&gt;E lembranças&lt;br /&gt;Que eram gravadas&lt;br /&gt;Na fina teia&lt;br /&gt;Do cálcio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minha mulher&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mulher&lt;br /&gt;Não é minha&lt;br /&gt;Pois ela é que me tem&lt;br /&gt;Povoa-me de beijos&lt;br /&gt;Arrasta-me&lt;br /&gt;Loucamente&lt;br /&gt;Para sua teia&lt;br /&gt;De desejos&lt;br /&gt;Eu que não sou nada&lt;br /&gt;Perco-me na lambança&lt;br /&gt;De seu território&lt;br /&gt;Infinito&lt;br /&gt;Onde se escondem&lt;br /&gt;Inefáveis prazeres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minha filha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Traça&lt;br /&gt;Silenciosamente&lt;br /&gt;Minha continuidade&lt;br /&gt;Mas se recusa&lt;br /&gt;A sê-la&lt;br /&gt;Ela quer ser&lt;br /&gt;Nada mais do que ela&lt;br /&gt;E eu&lt;br /&gt;Sigo a narrativa&lt;br /&gt;Inenarrável&lt;br /&gt;Dos seus olhos&lt;br /&gt;Cor de mel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dezembro de 2008&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-373468761804069226?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/373468761804069226/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2008/12/tentativas-pticas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/373468761804069226'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/373468761804069226'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2008/12/tentativas-pticas.html' title='TENTATIVAS POÉTICAS'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-1608598524045264004</id><published>2008-11-14T04:16:00.001-08:00</published><updated>2008-11-14T04:20:16.328-08:00</updated><title type='text'>OS NOSSOS PRESIDENTES</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me ainda criança no final dos anos 60 o quanto era difícil escrever Kubitschek, o sobrenome de origem tcheca do presidente da República. Quem não conseguia escrever corretamente perdia pontos na prova e por isso me esmerava em escrever o nome complicado do primeiro mandatário. Naquela época via o presidente apenas em jornais e revistas, pois não tínhamos televisão em casa. Ainda criança cheguei a ver o JK na televisão numa entrevista. Ele falava com bastante desenvoltura e de forma muito otimista sobre o Brasil, apesar de ter ficado longe do país durante muito tempo. Uma das frases que disse foi: “Ao viajar de automóvel por São Paulo, fiquei espantado com o progresso, tive a impressão de estar nos Estados Unidos, com boas estradas e fazendas bem cuidadas”. Era um sujeito simpático, elegante e bem humorado, mas os seus críticos não perdoaram o caos financeiro que deixou pela construção de Brasília. O presidente que o sucedeu, JQ era muito carrancudo, sempre mal humorado e com o colarinho em desalinho. Meu pai era um anti-janista e talvez isso tenha ajudado a construir a minha imagem sobre ele. Aliás, foi do Jânio, a minha primeira caricatura, que foi amplamente aprovada pelo meu velho. Infelizmente a minha carreira de caricaturista feneceu por fala de entusiasmo e talento. O sucessor, João Goulart, me parecia estar sempre deprimido, tristonho, sugerindo estar em total desconforto com o cargo de presidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vieram os militares, quase sempre de óculos escuros. Ouvi dizer que os militares usam esse adereço para evitar o olho no olho e não se envolverem emocionalmente com as pessoas. O Castelo Branco ficou pouco tempo e não tive tempo de acompanhar sua trajetória, mas o Costa e Silva povoou o imaginário da população durante sua permanência na presidência. Não era por suas qualidades, mas pelas anedotas que se contava a seu respeito. É claro que a maioria delas eram adaptações de velhas piadas, mas como diz o ditado: Onde há fumaça há fogo, é possível que refletissem alguma verdade. Uma das anedotas que se contava muito na época era assim: Estava o presidente em um cortejo por uma estrada, quando ele avista uma placa e pergunta ao seu assessor: “Que empresa estatal é essa que eu não conheço? Qual empresa senhor presidente? Essa tal de Emobrás! Desculpe-me presidente, mas não é uma empresa estatal, mas apenas uma placa indicando que a estrada está em obras”. Mas durante a visita da rainha da Inglaterra, os jornais publicaram, muito sutilmente, que o presidente cometera uma gafe. A rainha levantou um brinde à cidade de Brasília, cuja data de fundação, coincidia com o seu aniversário. O presidente teria levantado e feito um brinde ao aniversário da Rainha, o que causou risos e desconforto entre os presentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As gafes presidenciais têm sido constantes, principalmente nos cerimoniais mais rígidos ou também por se falar demais. O Collor, falou alto e em bom tom, num comício transmitido pelo jornal nacional que tinha “aquilo” roxo. Nada tão desagradável para um presidente da Republica, expor publicamente a cor de suas partes íntimas como se fosse algo para se gabar. Puro machismo. O Itamar Franco foi flagrado com o clic indiscreto de um fotógrafo, dançando com uma moça sem calcinhas no sambódromo do Rio de Janeiro. Coitado do Itamar pagou um tremendo mico. Fernando Henrique, um intelectual de renome e com experiência internacional, não deixou por menos e cometeu vários deslizes durante seu mandato. Um deles, ao criticar os professores universitários que não pesquisavam, disse: “O professor que não pesquisar e não publicar, coitado, vai ter que dar aula”. Ora, ora, professor é para fazer o que? Com a frase, desqualificou professores e ele mesmo, um mestre aposentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ciro Gomes candidato a presidente, ofendeu, numa entrevista, sua namorada, a atriz Patrícia Pillar, ao responder sobre o papel dela em sua campanha: “O papel dela é na cama, disse com a autoridade de um nordestino machista, de bom calibre. Bom, não precisa dizer que sua campanha despencou depois disso. Anteriormente o Paulo Maluf também deixou seu registro para a história do machismo brasileiro: “Está com desejo sexual, tudo bem, mas não mata”, ao se referir ao estupro seguido de assassinato. O Lula não conseguiu aprender com o Collor, o Ciro e Maluf e soltou a máxima em termos de machismo: “Eu me casei e engravidei a galega na primeira noite”. Tudo isso para provar que o presidente é um homem macho de verdade, desses que matam a cobra e mostram o pau. Isso me lembra uma palestra sobre sexo que um padre dominicano fez há muito, muito tempo. Ele deixou bem claro que um homem não se mede por ter relações sexuais, pois isso qualquer animal é capaz de fazer, mas sim pelo seu caráter, sua cultura, dignidade, honra etc. etc. Aquela frase marcou minha vida e sempre que vejo alguém se gabar de seus feitos sexuais, lembro-me da frase e comparo a pessoa a um bicho qualquer, não um verdadeiro homem, pois não é isto que engrandece alguém. Além disso, soa como cafajestismo expor a vida sexual publicamente, seja ela da qualidade que for. E, convenhamos, quem precisa disso para se afirmar, com certeza deve ter lá os seus problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como o nosso presidente, um ex-operário, que se educou parcamente, leu muito pouco e conviveu em um ambiente machista e preconceituoso e que fala pelos cotovelos, as gafes tendem a se repetir. Aquela frase durante a visita a um país africano em que pronunciou a máxima: “Como esta cidade é limpa, nem parece que estamos na África”, é fruto do preconceito social e racial, muito comum entre os brasileiros. Muitas pessoas não falam, mas pensam muitas vezes dessa forma, mesmo sendo educadas. Educação escolar não reduz o preconceito das pessoas, pois ele é adquirido em casa e num processo de socialização mais amplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solução, para evitar esses vexames, que poderiam em outros tempos até provocar uma guerra, é “Em boca fechada não entra mosca”, ou seja, falar estritamente o necessário, de acordo com o script previamente preparado pelos assessores. Nada de dar opinião sem antes trocar idéias com alguém preparado e de cabeça fresca. Os discursos devem ser lidos e relidos antecipadamente para evitar problemas diplomáticos. Afinal, machismo e preconceito estão longe da civilização e para sermos um país civilizado, é preciso, antes de qualquer coisa, que os nossos homens públicos sejam educados e pensem antes de abrir a boca. E que as mulheres aprendam que homens que não respeitam o outro sexo, estão longe de respeitar as mínimas regras da civilidade e precisam aprender muito antes de se candidataram a cargos públicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Ladeia&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-1608598524045264004?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/1608598524045264004/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2008/11/os-presidentes-lembro-me-ainda-criana.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1608598524045264004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/1608598524045264004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2008/11/os-presidentes-lembro-me-ainda-criana.html' title='OS NOSSOS PRESIDENTES'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7271799568597617250.post-8134699268121346280</id><published>2008-11-12T10:56:00.000-08:00</published><updated>2009-03-24T12:16:08.795-07:00</updated><title type='text'>OBAMA E A GRANDE VIRADA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na pele de um negro ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Black&lt;/span&gt; like me, de John Howard &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Griffin&lt;/span&gt;, foi a história de um jornalista norte-americano branco nos anos 1960 que raspou os cabelos e escureceu a pele através de processos químicos e foi viver como um negro no sul do seu país. Este livro construiu o meu imaginário adolescente sobre os Estados Unidos, uma nação que segregava a minoria negra de forma cruel e violenta. Relembro uma passagem em que ele estava sentado em um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;ônibus&lt;/span&gt; e olhou para uma mulher branca para oferecer-lhe o lugar. Ele foi prontamente repudiado simplesmente por &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;se atrever&lt;/span&gt; a olhar para uma mulher branca. É através do olhar que nos identificamos como seres humanos e esse olhar lhe foi negado. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;Griffin&lt;/span&gt; sentiu uma profunda solidão, num mundo que era hostil a ele e a cor da pele que não era dele, mas apenas uma representação. Como um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;ator&lt;/span&gt;, ele voltou ao mundo real e publicou o que viu e sentiu na pele de um negro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei se todos os afro-americanos, depois de mais de quarenta anos da universalização dos direitos civis nos EUA decretados pelo Presidente Kennedy, já podem olhar para um branco como iguais, mas a eleição de um meio negro para presidente provocou uma profunda alteração nas relações raciais americanas. O que é surpreendente mesmo, é que Barack Obama, fruto proibido do racismo americano: o casamento de um negro com uma mulher branca rompeu várias barreiras sociais. Primeiramente, entrou na mais famosa universidade americana, Harvard, elegeu-se senador e conseguiu superar a favorita &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;Hillary&lt;/span&gt; Clinton, que representava, não somente a elite branca, mas também a experiência política adquirida durante os oito anos de mandato do marido, Bill Clinton.&lt;br /&gt;A eleição de Obama tem vários ingredientes. Não podemos atribuí-la apenas a incompetência de George W. Bush ou ao discurso conservador de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;McCain&lt;/span&gt; e sua candidata a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;vice&lt;/span&gt;, Sarah &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Palin&lt;/span&gt;. Obama foi quem melhor inovou em termos de utilização da nova &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;mídia&lt;/span&gt;, a Internet. Rapidamente ele conquistou jovens &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;hiper&lt;/span&gt;-conectados, incluindo brancos, negros e hispânicos que criaram uma eficiente rede de arrecadação de recursos para a campanha. O discurso de Obama foi mais sensível, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;eloquente&lt;/span&gt; e por vezes, poético. Ele conseguiu atingir de forma emocional, todos aqueles que estão desesperançados, excluídos ou que simplesmente sonham com um mundo melhor. O seu perfil carismático impôs diante do perfil racional burocrático do oponente. Manteve-se &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;tranquilo&lt;/span&gt; diante dos ataques a lá &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;pit&lt;/span&gt;-&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;bul&lt;/span&gt; dos adversários, respondendo com elegância e firmeza. O grande número de eleitores que foi às urnas, surpreendendo a todos, foi um ato de vontade, de determinação daqueles que querem mudar a América. Recordo-me que em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;junho&lt;/span&gt; passado, um brasileiro que reside a quinze anos nos EUA afirmou com segurança que o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;McCain&lt;/span&gt; levaria a melhor, porque os que diziam que votariam em Obama tradicionalmente não vão às urnas. Ele errou e muita gente bem informada foi pelo mesmo caminho, porque não conseguiram avaliar as transformações que estavam ocorrendo sob seus pés. A América não é mais a mesma. A América onde &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;Tocqueville&lt;/span&gt;, um francês aristocrático, se entusiasmou com o nascimento da primeira grande democracia do mundo, com o voto universal para todos os homens trabalhadores (brancos), caminha em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;direção&lt;/span&gt; às incertezas do mundo moderno.&lt;br /&gt;A América mudou? Muito provavelmente sim. A população branca americana está em franca redução, pois os brancos têm menos filhos do que os negros e hispânicos. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;Sobrenomes&lt;/span&gt; como Garcia, Rodriguez e Lopez estão em alta, superando tradicionais nomes &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;anglo&lt;/span&gt;-saxões em algumas regiões. A América está mudando porque a maioria dos jovens repudia também as velhas práticas do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;american&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;way&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;of&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;life&lt;/span&gt;; o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;ideário&lt;/span&gt; de que os EUA são a polícia do mundo e a ideologia de que vale a pena morrer pela pátria e pela democracia está perdendo força. A América está mudando porque a globalização encerrou a era de muitos empregos e bons salários para todos, inclusive para os brancos. A América como grande parte do mundo também está “exportando” seus bons empregos para a Ásia e se tornando uma sociedade de serviços, que hoje já é uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;atividade&lt;/span&gt; que ocupa a maioria da população economicamente &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;ativa&lt;/span&gt;. Neste quadro, as minorias são as parcelas da população que mais sofrem.&lt;br /&gt;Lamentavelmente, pelo menos em um aspecto, a América não mudou e está se tornando pior: a violência. O filme Tiros em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;Columbine&lt;/span&gt; é o retrato da sociedade americana moderna. Os casos de atiradores que assassinam em série se multiplicam. Armas extremamente perigosas podem ser compradas em qualquer esquina, sem um controle por parte das autoridades. O principio da liberdade individual impera sobre o bom senso e impede que haja um mínimo controle sobre a proliferação de armas entre os civis. Aliás, esta é uma das propostas de Obama e em razão disso, as vendas de armas e munições tiveram um aumento estrondoso após os resultados das urnas.&lt;br /&gt;A história americana, provavelmente seja a mais pródiga em assassinatos de políticos e líderes em todo o planeta. Lincoln, Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King são exemplos que não devem ser esquecidos. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;Reagan&lt;/span&gt; sofreu um atentado e por pouco não teve a mesma sorte. A democracia liberal é o império da maioria e sempre sobram descontentes e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;inconformados&lt;/span&gt;. A segurança de Obama é motivo de grande preocupação, não apenas fora dos Estados Unidos, quando as visitas dos presidentes americanos são cercadas por grandes e até exagerados &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_32"&gt;aparatos&lt;/span&gt;, mas dentro do próprio território americano. Mas sejamos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_33"&gt;otimistas&lt;/span&gt; e vamos esperar que os americanos tenham realmente mudado. Longa vida ao Barack Obama.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Renato Ladeia &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7271799568597617250-8134699268121346280?l=deladeia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deladeia.blogspot.com/feeds/8134699268121346280/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2008/11/obama-e-grande-virada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/8134699268121346280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7271799568597617250/posts/default/8134699268121346280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deladeia.blogspot.com/2008/11/obama-e-grande-virada.html' title='OBAMA E A GRANDE VIRADA'/><author><name>deladeia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16378573667420652534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><
