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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

LÚCIA JORGE ABDALLA


E difícil falar de uma pessoa com a qual não tivemos muita intimidade, apesar de tê-la conhecido bem e ter algumas dívidas de gratidão para com ela. Quem era Lúcia Jorge Abdalla, ou ainda é, se por acaso ainda estiver viva, coisa que não posso saber, pois há muito, muito tempo não tenho notícias dela.  Lúcia era uma mulher morena, bonita, elegante, charmosa, culta e conversa interessante.
               Conheci esta mulher com todos os predicados acima como aluno em um colégio de São Caetano do Sul. Havia uma demanda muito grande por vagas e o Estado improvisou um colégio noturno em uma escola de primeiro grau sob o comando dela. Não havia nada. As instalações eram precárias. A secretaria funcionava no corredor de um banheiro, mas a Lúcia, uma batalhadora, não se abateu diante da falta de recurso e dava tudo de si para que a escola funcionasse da melhor forma possível. Selecionou os melhores professores que encontrava e não ficava satisfeita com pouco. Pesquisava junto aos alunos para acompanhar o desempenho de cada mestre e não hesitava em trocá-los quando percebia falta de interesse ou procedimentos inadequados.
               Não havia cantina e por minha iniciativa junto com alguns colegas, improvisamos uma como o apoio e incentivo da Da. Lúcia. Trazíamos pães, frios e refrigerantes e durante o intervalo íamos às pressas para preparar os lanches e vendê-los para a garotada. O negócio até que ia bem, quando um dos “sócios”, abandonou a escola levando todo o dinheiro arrecado até então.
               Outra iniciativa que ela apoiou e incentivou foi o jornalzinho do colégio. Como eu já tinha alguma experiência nisso, cuidava da datilografia dos originais em stencil e uma funcionária da secretaria rodava os exemplares em um mimeógrafo,  que eram distribuídos para todos os alunos. O jornal mensário se chama o Praxe. O jornal tinha uma entrevista com um dos professores todos os meses, mas a Da. Lúcia se recusou a ser entrevistada, alegando que era muito tímida para se expor. E bom lembrar que estávamos em plena ditadura e ela pedia que tomássemos cuidados para evitar problemas políticos que poderiam comprometer seu projeto.
               Ela cuidada dos seus jovens estudantes como se fossem seus filhos que precisavam de sua proteção. Visitava alunos com problemas pessoais e econômicos, procurando sempre uma forma de ajudá-los, principalmente através de orientação psicológica (era psicóloga). Organizava passeios culturais como cinema de arte, teatro, palestras e atividades esportivas. Organizava gincanas culturais para incentivar os alunos a pesquisarem objetos referências da cultura brasileira. Era apaixonada pela música popular brasileira, principalmente os compositores do período da Bossa Nova, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Carlos Lira.
               Estive algumas vezes em sua casa, onde ela recebia os alunos sempre como muita gentileza e atenção. Seu apartamento na Rua Dr. Seng, era repleto de estampas de clássicos da pintura, sempre muito bem organizado e elegante como ela.
             Lúcia Jorge Abdalla, caso ainda esteja viva, deve andar lá pelos oitenta anos se meus cálculos estiverem corretos, mas sempre vou lembrar dela como uma mulher bonita, elegante e carismática. Pena que são poucos os dirigentes escolares como ela, para a má sorte dos nossos adolescentes que precisam de formação, apoio e orientação.

Renato Ladeia



4 comentários:

  1. Segundo o Jornal dos Professores, publicação do Centro do Professorado Paulista, de outubro de 2014, Dona Lúcia faleceu em 06/08/2014, em São Paulo.

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    1. Que triste saber que dona Lucia faleceu. Ainda tinha esperança de visita-la. Ema tinha todos os predicados alem de uma grande educação ao tratar com todos. Trabalhei na secretaria da escola que ela foi diretora Adelina Issa Aschar do Cambuci.

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  2. Nossa que triste saber que ela faleceu. Conheci donaLucia como diretora do colégio Adelina Issa Aschar no Cambuci. Ela tinha todos estes predicados que se referiu Renato Ladeia. Sempre me chamava de Neuzinha. Trabalhava na secretaria desta escola. Era uma linda mulher dona Lucia. Sempre educada falava baixo e tinha uma finesse para tratar todos. Tenho presentes que ganhei dela até hoje.Saudades.

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  3. Ainda bem que temos a internet que possibilita o acesso à informação. Caso contrário não saberíamos nada de tantas pessoas anônimas que construíram esse país e não são lembradas. Obrigado pela lembrança Neuza.

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