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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ALBUM DE RETRATOS E O VELHO RIO DE JANEIRO





Catete
Estrada da Gávea
                                                                  
Revendo um velho álbum de retratos da família, encontrei  uma foto desgastada pelo tempo do meu tio Elisiário Ladeia  no longínquo ano de 1929. Era mês de julho e ele  posava numa fotografia para enviar de lembranças para a família que residia em Araçatuba, São Paulo. Com sua letra miúda e caprichada, ele escreveu: “Para o meu bom pai, uma lembrança do seu filho na Avenida Atlântica, capital da República”.
Ele trabalhava como guarda-livros em um banco e morava na residência de um médico parente de minha avó. Guarda-livros era o nome que se dava para os contadores antigamente. Quando se contava a história lá em casa eu ficava imaginando que ele passava os dias tomando conta de livros, um bibliotecário.
E lá estava meu tio em branco e preto curtindo as praias cariocas  enquanto o crack da  bolsa de Nova Iorque liquidava com  grandes fortunas.  Milionários davam tiros nos ouvidos ante a perspectiva de ficarem pobres de uma hora para outra. No Brasil a crise ainda demorou a provocar os seus efeitos que somente ocorreram uns dois anos depois, mas uma revolução estava próxima. A política do Café com Leite em que Minas e São Paulo se revezavam no poder máximo da República estava com os dias contados. A Aliança Liberal estava se preparando para tomar o poder. Washington Luís, o “paulista de Macaé”, ainda saía a pé, de fraque e cartola, pelas ruas do Rio de Janeiro, sem o aparato de segurança que acompanha hoje um presidente. Meu tio, em cartas, contava que via sempre  o presidente nas proximidades do Palácio do Catete.
Washington Luís apoiou um candidato de São Paulo, deixando os mineiros revoltados, pois seria a vez deles. Getúlio, candidato da oposição, perdeu as eleições, que na época eram constantemente fraudadas. Não havia voto secreto e nem justiça eleitoral. Meu tio votou em Getúlio esperou que ele chegasse ao Rio e fosse aclamado pelo povo. 
Getúlio teria amarrado os cavalos no obelisco do Rio de Janeiro, humilhando a República Velha, mas meu tio não viu, estava trabalhando.  Contou que notou pouca movimentação no Rio naquele distante  24 de outubro.  Minha avó preocupada com a sua segurança queria saber notícias do filho em perigo, mas meu avô, sempre bem informado pelos jornais, mesmo atrasados, dizia que era uma revolução de compadres. Ele estava certo, foi uma revolução sem tiros. A morte de João Pessoa, vice de Getúlio, na Paraíba, que foi o estopim da revolução, teria sido por  motivos passionais.
Mas a nomeação de João Alberto, um pernambucano, como interventor em São Paulo e o adiamento de uma nova constituição, deixaram os paulistas revoltados e desencadeou a guerra. Ecléa Bosi, em seu livro Memória de velhos, trás depoimentos indicando que os pobres acreditavam mais em Getúlio do que nos velhos barões do café. A história de que São Paulo queria se separar do Brasil foi uma bobagem que, provavelmente, Getúlio estimulou para isolar os paulistas, o que de fato conseguiu. Isolado, sem o apoio do seu maior parceiro, o Estado de Minas, São Paulo teve de arcar sozinho com uma guerra desigual, pois as forças federais estavam bem melhor equipadas e com um contingente seguramente maior, apesar da mobilização de todas as classes sociais do estado. Getúlio, ao adiar sine die uma nova constituição, justificava que precisava consolidar a revolução e evitar retrocessos por parte das elites arcaicas que se opunham as mudanças. É inegável que o Getúlio teve um papel importante na modernização do país, mas foi a custa de uma longa ditadura e um estado forte que se eternizou na sociedade brasileira.
Quanto ao meu tio nunca soube  se foi engajado ou se engajou espontaneamente nas forças federais. A verdadeira história ele deve ter levado para o túmulo. A guerra civil durou pouco tempo, mas foi o suficiente para que muitos morressem ou ficassem inválidos nas frentes de batalha e minha avó quase morresse de preocupação. Terminado o confronto militar ele voltou para casa. Era outro homem. Vivia assombrado pela guerra, ouvindo tiros de fuzis e canhões no meio da noite. Saia em disparada de cuecas pelo quintal gritando. Depois de algum tempo recuperava o controle e voltava a ser novamente um homem gentil e educado.
Pelos relatos da família, ele nunca mais teve uma vida normal. Não conseguiu mais trabalhar e passou a vida viajando de um lugar para outro sem paradeiro. Desaparecia durante longos meses ou mesmo anos, enviando para consolo da família algumas cartas e fotografias. Num dos desaparecimentos foi localizado em Buenos Aires. As cartas trocadas com o consulado brasileiro por meus avós indicavam que ele tivera um surto e não sabia mais quem era.
A última notícia que a família teve dele, veio do Paraguai, de  onde escreveu dizendo que estava a negócios. Depois da morte dos meus avós, nunca mais escreveu ou deu notícias. Solteiro, desapareceu no mundo, sem deixar rastros. Ao rever as fotos, inclusive de cartões postais, recordo-me ainda menino olhando estas mesmas imagens. Ele era o “Meu tio da América”, um romântico aventureiro com muitas aventuras e desventuras, que construiu em meu imaginário um mundo um mundo que não existe mais.

Renato Ladeia
Arcos de Santa Tereza

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